Jornal Mundo Espírita

Junho de 2019 Número 1619 Ano 87

Fidelidade ao bem

junho/2019 - Por Rogério Coelho

Auxiliando em qualquer circunstância, o cristão percebe que o seu é o caminho da solidão

Tenho para mim, que Deus a nós, apóstolos, nos pôs
por  últimos, como  condenados à morte; pois somos feitos
espetáculo  ao  mundo,  aos  anjos  e  aos  homens.
Somos blasfemados, e  rogamos; até ao presente temos chegado a
ser  como  lixo  deste mundo,  e  como a escória de todos.
Paulo – I Cor, 4:9 e 13

Além de não prometer facilidades aos Seus seguidores, Jesus disse[1] que no mundo teríamos aflições.   O trecho da carta de Paulo em epígrafe dá bem a ideia dos percalços e espinhos ferintes de que são vítimas os Seus discípulos.  Mas não falece dúvida que a fidelidade ao Bem produzirá dividendos espirituais futuros que compensarão todas as dores e dificuldades.   Provavelmente foi isso que Jesus quis dizer ao enunciar[2]: Odiados de todos sereis por causa do meu nome: mas aquele que perseverar até o fim será salvo.

Sem embargo, enquanto atravessamos a quadra procelosa na qual estamos sob o fogo cruzado de nossas próprias limitações e das injunções externas adversas, Ele nos deu um salvo-conduto[3] enunciando: Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei.  Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas.

Para nos facilitar a movimentação, ao mesmo tempo em que estimula nossa permanência nas leiras do Bem perseverante, Joanna de Ângelis[4] nos oferece uma visão panorâmica do terreno minado constituído pelo nosso atual proscênio de pelejas, ao afirmar: …era de crer-se que o resultado do Bem fosse diferente…

A serviço do ideal libertador, e abraçando a caridade, seria de esperar-se por menos dores e incompreensões, por melhor colheita de frutos de alegrias.

Isso, no entanto, seria um engodo proporcionado pela vida.

O missionário sempre enfrenta os piores desafios.

Quem abre estradas defronta maiores obstáculos.

Aquele que recupera solos áridos sofre dificuldades mais expressivas.

Quando alguém se põe a drenar pântanos e águas putrefatas não se pode furtar à presença dos odores nefastos, nem da lama pestilenta.

Todo aquele que se dispõe a alterar a paisagem moral da sociedade, é sempre considerado excêntrico, quando não se torna vítima de contínuas agressões.

 É natural que assim ocorra, porquanto o processo de alteração dos conceitos morais e da conduta pessoal, faz-se, normalmente, penoso.

Qualquer mudança no organismo social para melhor, ocorre de maneira dolorosa, e os seus promotores são per­seguidos com acrimônia e perversidade.

Não estranhes a imensa colheita de amarguras do momento.

 Todo apóstolo do progresso, da beleza e da fé experimenta a imolação, a fim de modificar o grupo no qual se movimenta.

O mesmo ocorre contigo.

Não te deixes desgastar emocionalmente com as ocorrências infelizes que têm lugar à tua volta.

Mantém o ânimo e avança em paz.

Não fosses idealista, e não te encontrasses na ação cristã, sofrerias outras circunstâncias perturbadoras.

Observa aqueles que parecem triunfadores e felizes, aplaudidos e bajulados, quando passarem os seus dias de aparente triunfo, e vê-los-ás abandonados, vencidos, atormentados…

A Terra é planeta de provas, portanto, a luta é labor incessante.

*   *   *

Ensina, ainda, a nobre Mentora de nosso Divaldo Franco[5]: Todo aquele que se destaca no grupo social, de imediato passa a experimentar críticas e dissabores.

Chamando a atenção, provoca inveja e desperta os instintos competitivos vigentes na massa, graças aos quais enfrenta aguerrido combate.

Se é portador de ideais superiores, logo vai taxado de louco, por colocar as suas ambições acima das vacuidades, renunciando às quinquilharias transitórias em favor das metas almejadas.

Raramente se faz aceito de imediato, tornando-se-lhe necessário o testemunho quando não se lhe impõe a imolação.

São, no entanto, esses homens e mulheres, audaciosos — que não temem as críticas ácidas nem a perseguição contumaz — que precipitam o progresso, abrindo espaços ilumina­dos para todos aqueles que vêm depois.

Ridiculizados no início, passam como objeto de chocarrice, para depois impressionarem pela sua tenacidade e imporem-se, finalmente, pelas realizações e amor.

Vitalizados pelo combustível da afetividade, são imbatíveis, desde que legítimos se apresentem os empreendimentos em tela, alterando o status da sua época e conclamando os demais à renovação interior e ao cumprimento dos nobres de­veres.

O mundo entroniza com alegria os histriões e os vândalos, os corruptos do poder e os ilusionistas, porque a realidade desagrada aos equivocados, por despertá-los para compromissos de alta gravidade. 

Porque se encontram conscientes da tarefa a executar, os idealistas não cedem, não se atemorizam, nem recuam.  Passo a passo avançam, e quanto mais dificuldades enfrentam, mais resistências adquirem.

O cristão, no atual contexto social, é alguém deslocado se pretende ser autêntico e se deseja desincumbir-se bem dos compromissos que lhe dizem respeito.

Diante de uma ética permissiva e de valores equivocados quão secundários, ele se vê na encruzilhada de difíceis decisões.  Enquanto a grande maioria corre, desenfreada, na busca do prazer sensualista, ele opta pela conquista da paz interior; enquanto os avaros acumulam coisas a que emprestam valor e utilidade preciosa, ele reparte; enquanto a disputa pelos aplausos cresce cruel, ele se oculta para servir, trabalha para ajudar, e se as circunstâncias lhe exigem comparecer sob o ofuscar dos refletores da vaidade terrestre, não se ensoberbece, buscando prosseguir inalterado e confiante.

Continua a Mentora5: Desde que não espera ser compreendido, mas auxiliar em qualquer circunstância, o cristão percebe que o seu é o caminho da solidão, qual ocorreu com o seu Mestre, e por isso não permite que depereçam o entusiasmo nem a fé na sua conduta.

O mundo e os seus habitantes avançam para a Grande Luz, dominados pelo divino tropismo.

E essa extraordinária saga se concretizará, quando as criaturas forjadas nos ideais de enobrecimento deixarem de aceitar os exploradores das massas, os gananciosos e astutos, exigindo transparência e cristalinidade naqueles cujas vidas sejam dedicadas à governança da sociedade.

Nesse cenário, o cristão autêntico se destacará pela fidelidade ao Bem, pela abnegação e pela renúncia a si mesmo, a fim de que todos saibam que Jesus está com ele (…).

Finalmente sugere a Mentora Amiga4: Quando estejas cansado, renova-te pela prece.

Quando te sintas aturdido pelas ocorrências desagradáveis, recorre à meditação.

Quando te descobrires com estresse e mau humor, recupera-te pensando em Jesus e buscando-O.

Não estás a sós.  Seres amados te envolvem nas dúlcidas vibrações que te sustentam as energias, te preservam a saúde e te vitalizam a disposição para continuares servindo.

Já te imaginaste em ociosidade dourada, ou em festas ruidosas, ou em recreações contínuas?

Renasceste para o serviço, pois que aceitaste a tarefa como terapia salvadora.

Provéns de comportamentos anteriores que te alienaram, que te comprometeram.

Hoje é o teu dia de servir.

Não te arrependas da opção elegida.

Dia virá em que as circunstâncias se alterarão e será então a época própria para colher a luz que espalhas e o amor que incutes em outras vidas.

Ninguém até hoje se revelou maior servidor do que Jesus.

Seu exemplo rutila através dos tempos, iluminando vidas incontáveis.

Ele nunca Se queixou, porque sabia que as criaturas humanas ainda se encontram na infância espiritual.

Toma-O como teu modelo e segue adiante.

Quanto mais extenuantes as refregas, mais expressivas se fazem as vitórias.

O servidor está sempre a postos, jovial e bom, ensinando com o exemplo e cantando o hino da alegria de que se sente possuído.

Serve, sem cessar, e prossegue sem enfado e sem desencanto.

És construtor do futuro, no qual Jesus te aguarda para o memorável encontro.

 

Referências:

  1. BÍBLIA N. T. João. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Campinas: Os Gideões Internacionais no Brasil, 1988. cap. 16, ver. 33.
  2. Op. cit. Mateus. cap. 10, vers. 22.
  3. Op. cit. cap. 11, vers. 28-29.
  4. FRANCO, Divaldo Pereira. Fonte de luz. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. 3. ed. Araguari: Minas, 2000. cap. Servidor.
  5. Op. cit. cap. Idealismo sacrificial.

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