Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

FIB- Uma nova abordagem para medir o progresso

abril/2014 - Por Noeval de Quadros

Reportagem[1] do jornal Folha de São Paulo mostra que desde 1971, o Butão rejeitou o PIB (Produto Interno Bruto) como sendo a única forma de mensurar o progresso. Em seu lugar, tem defendido uma nova abordagem para o desenvolvimento, que mede a prosperidade por meio de princípios formais da Felicidade Interna Bruta (FIB) e da saúde espiritual, física, social e ambiental dos seus cidadãos e do ambiente natural.

Diz o jornal que há três décadas essa crença de que o bem-estar deve se sobrepor ao crescimento material permanece como uma peculiaridade em nível global. Agora, num mundo acossado pelo colapso dos sistemas financeiros, por uma flagrante iniquidade e por uma destruição ambiental em grande escala, a abordagem deste pequeno Estado está atraindo muito interesse.

Em 2011, a ONU adotou o apelo do Butão por uma abordagem holística para o desenvolvimento, o que teve o aval de sessenta e oito países. Uma comissão da ONU analisa, atualmente, maneiras de replicar o modelo butanês da FIB em escala global.

A reportagem cita ainda que, na Conferência Mundial sobreMeio-Ambiente, o Butão foi citado como um exemplo de nação em desenvolvimento que colocou a conservação ambiental e a sustentabilidade no centro da sua pauta política. Nos últimos vinte anos, o Butão dobrou sua expectativa de vida, matriculou quase 100% das suas crianças em escolas primárias e reformulou sua infraestrutura. No Butão, os princípios da FIB foram integrados ao sistema educacional. Uma educação não significa só ter boas notas, significa preparar [os alunos] para serem boas pessoas.

A avaliação da FIB leva em conta o bem-estar psicológico, a saúde, a percepção ecológica, a responsabilidade+honestidade+transparência dos governantes, o padrão de vida, uso do tempo, a vitalidade comunitária, a educação e a cultura.

Será que o exemplo desse pequeno país do Himalaia, um dos mais pobres do planeta, com apenas oitocentos mil habitantes, pode-se aplicar ao nosso gigantesco país?

Pergunta que pode ser respondida com outra pergunta: Será que essa ditadura do poder econômico sobre a área social, cultural, espiritual não estará oprimindo a nossa civilização?

Estamos todos felizes e satisfeitos assim?

É da natureza humana a busca da felicidade.

Será que o aumento da prosperidade compensa ter de viajar a distâncias cada vez mais longas e ter menos tempo para a família e os amigos?  Será que isso nos traz índices maiores de contentamento? Quais são as nossas prioridades?

Nas respostas a estas perguntas está a formação da nova sociedade que todos almejamos.

Alguém já disse que os homens, quando jovens, gastam toda a juventude tentando obter dinheiro. Quando velhos gastam todo o seu dinheiro tentando obter os anos de juventude que perderam.

Há mais de trinta anos, os butaneses começaram a se perguntar o que é que realmente trazia a felicidade e o bem-estar. Queriam uma abordagem científica do tema. Pois passadas mais de três décadas, aquele pequeno país tem dado ao mundo um novo modelo.

Não é bem um constructo religioso, embora oriundo de um país budista mas, não deixa de ter grande semelhança de conceitos com o que pregam as doutrinas que estimulam o surgimento de um homem novo, um homem não centrado unicamente na busca do crescimento econômico.

A FIB não despreza a geração de riquezas ou o desenvolvimento econômico. Apenas dá-lhe o justo valor, não o sobrepondo aos demais vetores que promovem o equilíbrio e o bem-estar da população.

Por isso mesmo, considera a felicidade um bem público, que deve constar da pauta dos planejamentos governamentais.

Até mesmo a justificativa para crescimento econômico visando mitigar a pobreza soa demasiado dúbia, a menos que radicalmente melhoremos a distribuição de renda. Pouco da mitigação da pobreza vem da enorme riqueza gerada na economia global agregada. O mesmo se aplica ao argumento de que precisamos crescer de modo que haja dinheiro para consertar os problemas ambientais. Acreditar nisso é acreditar em matar o paciente para curar a doença, disse o Primeiro Ministro do Butão, na 4ª Conferência Internacional sobre a FIB.

Há estudos mostrando que, nos últimos cinquenta anos, o PIB de alguns países, como os EUA, triplicou. Nada obstante, o índice de percepção da felicidade não cresceu. Pelo contrário, baixou.

Será que esse novo conceito se aplica apenas ao Butão, ao Tibet, ou entre os orientais? Não somos uma sociedade em busca de novos modelos?

Joanna de Ângelis adverte que há uma imensa caravana de indivíduos que perderam a direção de si mesmos e malbaratam a oportunidade que dispõem para ser felizes.(…) Número incontrolável deles transita hebetado, sem ideal nem interesse pelos valores que dão sentido à existência física… e seguem sem rumo para lugar nenhum, solitários ou em grupos horrendos, onde escondem as mazelas…[2]

A nobre benfeitora alerta que a sociedade está desatenta, como órgão humano coletivo, ao fenômeno desse submundo moral, no qual número cada vez maior de pessoas parece de caminhantes sem rumo, sem resistências morais, constituindo a imensa caravana dos tristes e vencidos.

É fácil afirmarmos que nada podemos fazer. Mas isto não é verdade. Afirma a Benfeitora que renascemos para ajudar a construir um mundo melhor. Sê tu quem dê esse primeiro passo na direção daqueles que já não sabem caminhar (…) A caravana dos Espíritos sem rumo não se restringe apenas aos deambulantes carnais, mas também aos desencarnados em aflição. (…) A proposta soberana da vida é fazer por outrem tudo quanto se gostaria que lhe fosse oferecido. (…) Não te canses de auxiliar, nem te irrites com os esfaimados de pão, de paz e, principalmente, de amor[3].

Será que ao perdermos o senso de comunidade não perdemos também um pouco da nossa felicidade?

A coordenadora da FIB no Brasil é Susan Andrews, criadora do Instituto Visão Futuro, uma ecovila sustentável em Porangaba (SP). Ela diz que, até certo ponto, os bens materiais trazem um determinado grau de satisfação. Mas, a certa altura, passam a valer mais os bens imateriais, como companheirismo, famílias harmoniosas, relacionamentos amorosos, e uma sensação de se viver uma vida significativa.

Será que não temos de indicar caminhos aos nossos governantes para que saibam o de que a população mais está precisando? Como disse um defensor dessa ideia, precisamos mostrar esses indicadores para que as políticas públicas possam seguir nessa nova direção.

Toda política pública tem de ser repensada à luz dos impactos no bem-estar da população. A população, consciente, desperta, deve indicar esses caminhos. As aspirações populares podem ajudar a conduzir a vontade política.

No Canadá, por exemplo, as políticas são pensadas mensurando-se o impacto no bem-estar das comunidades. Na Tailândia, o impacto sobre a saúde. Na Inglaterra, sobre a saúde mental.

No Brasil, já há resultados de projetos desenvolvidos em cidades como Angatuba, Campinas e Itapetininga (em São Paulo) com crianças e jovens, promovidos pela Municipalidade, em algumas escolas. Os estudantes são capacitados para desenvolver seu potencial de autoconfiança e de valores baseados na FIB. Em Itapetininga, após envolver os alunos de uma escola, o próximo desafio foi aplicar quatrocentos questionários numa amostra randômica de moradores da Vila Belo Horizonte, e no processo gerar a mobilização social. A solução foi a de envolver os jovens do próprio bairro que se voluntariaram em prol de um ideal comum, doando seu tempo e energia para o bem-estar da sua comunidade.

Um dos coordenadores do projeto, o educador Fernando Rebelo, disse: Percebemos como a FIB fortaleceu a vitalidade comunitária e ajudou a articular a comunidade para discutir e planejar estratégias de melhoria da sua qualidade de vida.

Como resultado, percebemos o florescer de potencialidades locais e o semear de uma nova organização social, na qual o amor, a paz e ajuda mútua sejam os pilares.[4]

Para sermos coerentes com os postulados da doutrina que abraçamos, e estarmos contribuindo para que o Brasil seja o Coração do Mundo, a Pátria do Evangelho, o país da fraternidade universal, temos de buscar essas fontes de inspiração para ver se o modelo que temos vivenciado não consolida o paradigma errado na busca do progresso e do desenvolvimento.



[1] A felicidade interna bruta do Butão, edição de 10 de dezembro de 2012.

[2] Rejubila-te em Deus, cap. 3, Rumo Perdido, 1ª ed, 2013, p.25, psicografia Divaldo Pereira Franco. ed. LEAL.

[3]Ob.cit, p.28.

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