Jornal Mundo Espírita

Dezembro de 2019 Número 1625 Ano 87

Felicidade

Antônio Moris Cury

setembro/2017

Felicidade é, sem nenhuma dúvida, uma das palavras mais pronunciadas e escritas em todos os tempos pela Humanidade terrestre.

O Dicionário Escolar da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras a define como: Qualidade ou estado de quem é ou está feliz. Bem-estar, satisfação, contentamento. Também menciona que é o cumprimento que se faz a alguém por algum acontecimento ou data importante.

Como bem o sabemos, a Terra é um planeta de expiações e de provas, onde predominam o mal e a imperfeição, ainda.

Logo, não é difícil concluir que a felicidade plena ou a felicidade suprema não é passível de fruição, aqui e agora, diante das características do mundo em que nos encontramos encarnados. Nada obstante, há felicidade parcial na Terra, que estamos em condições de usufruir.

O Evangelho segundo o Espiritismo esclarece e orienta1: Vive o homem incessantemente em busca da felicidade, que também incessantemente lhe foge, porque felicidade sem mescla não se encontra na Terra. Entretanto, mau grado às vicissitudes que formam o cortejo inevitável da vida terrena, poderia ele, pelo menos, gozar de relativa felicidade, se não a procurasse nas coisas perecíveis e sujeitas às mesmas vicissitudes, isto é, nos gozos materiais em vez de a procurar nos gozos da alma, que são um prelibar dos gozos celestes, imperecíveis; em vez de procurar a paz do coração, única felicidade real neste mundo, ele se mostra ávido de tudo o que o agitará e turbará, e, coisa singular!, o homem, como que de intento, cria para si tormentos que está nas suas mãos evitar.

Em poucas palavras, uma receita completa: buscar e obter a felicidade nos gozos da alma, nas coisas imperecíveis (que a traça não come, a ferrugem não corrói e ladrão algum consegue roubar), como também buscar e conseguir a paz do coração.

Incontáveis vezes na atual existência, por exemplo, seguramente sentimos satisfação, bem-estar e contentamento, independentemente de atos e conquistas materiais, o que, conforme até mesmo o dicionário comum, se traduz por felicidade.

E, no terceiro parágrafo do mesmo capítulo, há uma importante exemplificação: Que de tormentos, ao contrário, se poupa aquele que sabe contentar-se com o que tem, que nota sem inveja o que não possui, que não procura parecer mais do que é. Esse é sempre rico, porquanto, se olha para baixo de si, e não para cima, vê sempre criaturas que têm menos do que ele. É calmo, porque não cria para si necessidades quiméricas. E não será uma felicidade a calma, em meio das tempestades da vida?

Saber contentar-se com o que tem. Notar sem inveja o que não possui. Não procurar parecer mais do que é. Considerar-se rico (no melhor sentido deste vocábulo) porque sempre vê criaturas que têm menos do que ele, e manter-se calmo porque não cria para si necessidades quiméricas.

Comparemos os exemplos indicados no texto antes reproduzido com a consciência. A consciência é o grande tribunal de cada um de nós. E, acima de tudo, é na consciência que estão escritas as Leis de Deus, as Leis Naturais.

A propósito2, A lei natural é a lei de Deus. É a única verdadeira para a felicidade do homem. Indica-lhe o que deve fazer ou deixar de fazer e ele só é infeliz quando dela se afasta.

Assim sendo, se o homem só é infeliz quando se afasta da Lei Natural, a toda evidência será feliz quando pensar e agir em consonância com essa mesma Lei Natural, que é perfeita e por isso mesmo imutável (mesmo que a felicidade seja apenas a compatível com o planeta Terra).

Tal comportamento está perfeitamente de acordo com o que costumamos denominar de consciência tranquila. O ser humano que assim procede está com a consciência tranquila, com a alma leve, e por isso sente paz, enorme e abençoada paz no coração. A felicidade é, pois, simples decorrência.

Como dissemos, no início deste artigo, a felicidade comporta inúmeras variáveis. Com efeito, vale relembrar o que disse o Espírito Emmanuel, através da psicografia de Francisco Cândido Xavier3: Verdades eternas proclamam que a felicidade não é um mito, que a vida não constitui apenas o curto período de manifestações carnais na Terra, que a paz é tesouro dos filhos de Deus, que a grandeza divina é a maravilhosa destinação das criaturas; no entanto, para receber tão altos dons é indispensável erguer os olhos, elevar o entendimento e santificar os raciocínios.

É imprescindível alçar a lâmpada sublime da fé, acima das sombras.

Igualmente, o Espírito Joanna de Ângelis, pela psicografia de Divaldo Franco, recomenda4: Saúda o teu dia com a oração de reconhecimento. Tu estás vivo. Enquanto a vida se expressa, multiplicam-se as oportunidades de crescer e ser feliz. Cada dia é uma bênção nova que Deus te concede, dando-te prova de amor. Acompanha a sucessão das horas cultivando otimismo e bem-estar.

E adiante5: Vive sempre em paz. Uma consciência tranquila, que não traz remorsos de atos passados, nem teme ações futuras, gera harmonia. Nada de fora perturba um coração tranquilo, que pulsa ao compasso do dever retamente cumprido. A paz merece todo o teu esforço para consegui-la.

Na mesma direção, o Espírito Francisco de Paula Vítor, através do médium Raul Teixeira, atentamente observa6: Sabia o Luminoso Amigo que quando se leva o coração prenhe de amor e se o amor é vida, e se o amor é Deus, tem-se oportunidade de construir, desde a Terra, por meio da legítima amizade, o reino dos céus no cerne das pessoas, e iluminar os campos onde se acham os a quem amamos, convertendo a amizade em escalada para a felicidade.

Por fim, Carlos Torres Pastorino registra a seguinte contribuição7: Lembre-se de que o amor ao próximo é o segredo de nossa felicidade. Não fale mal de ninguém, não tenha raiva, não cultive ódios em seu coração. A irritação e o ódio são venenos que atacam o fígado e descontrolam o sistema nervoso. Aprenda a relevar e esquecer, para ter seu coração em paz e não sofrer em sua saúde. A serenidade é o segredo das vidas longas e felizes.7

Se colocarmos em prática essas orientações em nosso cotidiano, além de estarmos aplicando o ensino máximo de Jesus, o Cristo (visto que amar ao próximo como a si mesmo implica, exatamente por este motivo, amar a Deus sobre todas as coisas), com certeza, sentiremos satisfação, bem-estar e contentamento e, de modo particularmente especial, paz, muitíssima paz no coração.

Como decorrência natural, passaremos a ser melhores e mais felizes a cada dia, aqui e agora no planeta Terra.

 

Bibliografia:

  • KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 125ª ed. Rio de Janeiro: FEB, 2006. cap. V, item 23.
  • O livro dos Espíritos. 33ª ed. Rio de Janeiro: FEB, 1974. pt. 3, cap. 1, q. 614.
  • XAVIER, Francisco Cândido. Vinha de luz. Pelo Espírito Emmanuel. ed. especial. Rio de Janeiro: FEB, 2005. cap. 10.
  • FRANCO, Divaldo Pereira. Vida feliz. Pelo Espírito Joanna de Ângelis.10ª ed. Salvador: LEAL, 2000. 1.
  • Op. cit. cap. 8.
  • TEIXEIRA, J. Raul. Vida e mensagem. Pelo Espírito Francisco de Paula Vítor. Niterói: FRÁTER, 1993. cap. 19.
  • PASTORINO, Carlos Torres. Minutos de sabedoria. 15ª ed. Rio de Janeiro: SABEDORIA. mensagem 223.
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