Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

maio/2014 - Por Antônio Moris Cury

É muito importante ter fé, como também é importante ter confiança nas pessoas. Especialmente naquelas com quem nos relacionamos, frequentemente, familiares ou não, sobretudo numa época em que a desconfiança beira à generalização, assim como é fundamental acreditar firmemente nos postulados da religião que professamos [embora o melhor mesmo seja ter certeza, ter convicção, que se pode obter através da leitura e do estudo, com a aplicação permanente dos crivos da lógica e da razão], na filosofia de vida que adotamos e na Ciência que, em geral, traz tantos benefícios para o nosso dia a dia.

Há vários tipos de fé, sendo considerada a mais comum a fé natural.  É raro que alguém, ao ingressar em um auditório, se pergunte mentalmente se aquele local foi bem projetado, se a sua estrutura é firme, se os cálculos para a sua construção foram técnica e corretamente observados, se o teto não irá desabar sobre a sua e a cabeça das demais pessoas que nele se encontram. Nessa hipótese aleatória, há a fé natural de que tudo está em ordem. E, no entanto, nem sempre está, de que é exemplo o adesivo colocado na porta dos elevadores, em vários edifícios residenciais e comerciais, alertando o usuário para que observe, atentamente, se o chão do elevador, depois de aberta a porta e antes de adentrá-lo, está no nível correspondente e certo. Esse adesivo começou a ser colocado depois de graves (alguns gravíssimos) acidentes ocorridos. De modo que a fé natural, inúmeras vezes, é passível de questionamentos e de incertezas, para dizer o mínimo.

Conveniente mencionar, desde logo, que a fé não se impõe. Ao contrário, e bem ao contrário: a fé necessita de uma base, que é a inteligência perfeita daquilo em que se deve crer. E, para crer, não basta ver; é preciso, sobretudo, compreender. A fé cega já não é deste século, tanto assim que precisamente o dogma da fé cega é que produz o maior número dos incrédulos, porque ela pretende impor-se, exigindo a abdicação das mais preciosas prerrogativas do homem: o raciocínio e o livre-arbítrio. É principalmente contra essa fé que se levanta o incrédulo, e dela é que se pode, com verdade, dizer que não se prescreve. Não admitindo provas, ela deixa no Espírito alguma coisa de vago, que dá nascimento à dúvida. A fé raciocinada, por se apoiar nos fatos e na lógica, nenhuma obscuridade deixa. A criatura então crê, porque tem certeza, e ninguém tem certeza senão porque compreendeu. (O Evangelho segundo o Espiritismo, 131ª ed. FEB, 2013, pág. 256).

Neste ponto, de todo conveniente registrar que o Espiritismo nada impõe a quem quer que seja. Além disso, respeita, de maneira absoluta, o livre-arbítrio de cada um. E, como se sabe, livre-arbítrio é a liberdade para tomar decisões de acordo com seu próprio discernimento. (Dicionário Escolar da Língua Portuguesa, Academia Brasileira de Letras, Companhia Editora Nacional, 2ª ed., 2008, página 792). Por isso, pode-se concluir que o discernimento varia de conformidade com o grau de evolução alcançado intelectual e moralmente.

Por outra parte, a veneranda Doutrina Espírita comprova que todos somos Espíritos, os que estamos agora encarnados na Terra e os que saíram do corpo pela desencarnação (retornando ao Mundo dos Espíritos – de onde proviemos e para onde regressaremos), mas não saíram da Vida. Comprova também que a Vida tem seu curso natural, ora no corpo físico, ora fora dele, razão pela qual somos imortais e indestrutíveis [morre o corpo material, sim, que se decompõe e se transforma, ou é cremado, mas o Espírito, o verdadeiro ser, o ser pensante da Criação, continua vivo, vivíssimo], isto é, viveremos para sempre.

Por essa e por inúmeras outras razões é que uma das bandeiras do Espiritismo é a de tornar melhores as pessoas que o compreendem (Revista Espírita, julho de 1859), o que é perfeitamente possível pela leitura, pelo estudo, pela reflexão, pela compreensão de suas obras basilares (dentre elas, O Livro dos Espíritos, fundamental por todos os títulos) e, sobretudo, pela aplicação prática dos ensinamentos ali contidos, que são os emitidos por Jesus, o Cristo, com interpretação fundamentada na análise rigorosa dos atos e fatos sob os filtros da lógica e da razão, sempre.

Não é sem fortíssima razão, portanto, que na página de abertura de O Evangelho segundo o Espiritismo [essa esclarecedora, orientadora, consoladora e extraordinária obra, que completa cento e cinquenta anos de circulação mundial, neste ano de 2014] foi lançada a definição de fé, que consideramos a melhor, e insuperável, como se pode deduzir por sua simples leitura, notadamente se utilizarmos a preciosa prerrogativa do raciocínio: Fé inabalável só o é a que pode encarar frente a frente a razão, em todas as épocas da Humanidade.

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