Jornal Mundo Espírita

Dezembro de 2019 Número 1625 Ano 87

Fase de abertura

novembro/2010 - Por Coordenadoria de Estudos da Doutrina Espírita

“Terminando a nossa série de artigos a respeito do funcionamento dos grupos, trataremos, nesta edição, da terceira etapa do desenvolvimento dos grupos, que foi chamada originariamente de fase de afeto, entretanto, pelo fato de a ideia de afeto ser confundida com o cuidado, sentimento característico da já apresentada fase de inclusão, os teóricos resolveram renomeá-la. Assim, ela tem sido chamada fase de intimidade ou ABERTURA, sendo o primeiro o nome adotado pelos terapeutas e o segundo pelos que não trabalham diretamente com a terapia.

Resumidamente, depois de uma pessoa ter decidido ficar dentro de um grupo (inclusão), determinado seu espaço de atuação (influenciação), chegou a hora de ela escolher o quanto deseja viver e compartilhar dentro desse grupo (ABERTURA).

Todos gostamos de estar junto das pessoas com as quais tenhamos mais intimidade. Sentimo-nos seguros fazendo parte de grupos com os quais temos aberturas para ser quem somos, buscar o que gostaríamos de ser, compartilhar nossos sonhos e esperanças, assim como dificuldades e frustrações.

Nesta dinâmica admirável dos grupos que desenvolveram intimidade, há a possibilidade de ocorrerem as trocas mais legítimas e profundas entre os indivíduos. É nesse clima que se oportuniza um movimento recíproco de apoio e incentivo, que seja capaz de fazer com que concorramos pelo progresso uns dos outros.

Quando se tem intimidade, se potencializam energias latentes em um grupo, como a continência, que é a capacidade de o grupo dar suporte ao membro que se encontre sob risco, fragilizado ou vulnerável, e também a adequação, que é a força de conformidade que o grupo exerce sob seus membros, buscando que eles se adaptem às suas regras e demandas internas.

A intimidade não é uma característica que se desenvolve de maneira independente no relacionamento de um grupo, mas é o resultado natural do desenvolvimento deste.

Se um grupo resolve bem as suas questões de inclusão e influenciação, então a expectativa é que ele desenvolva um saudável clima de intimidade, mas, se há questões não resolvidas nas fases anteriores, a intimidade será inexistente ou doentia, como no caso dos chamados acasalamentos ou coalizões, em que algumas pessoas do grupo se unem, excluindo ou atacando os demais membros.

Entretanto, mesmo vencidas as questões da inclusão e da influenciação, ainda dois elementos influenciarão a capacidade do grupo para conseguir intimidade: a aceitação e a validação.

Aceitação

A aceitação diz respeito à liberdade que é concedida para as pessoas manifestarem seus conteúdos internos. Opiniões pessoais e sentimentos podem ser necessários ou inconvenientes, e isso dependerá especialmente dos objetivos do grupo. Como já discutimos, se o grupo de estudos da Doutrina Espírita tiver por objetivo colaborar com o progresso intelectual e moral dos indivíduos, favorecendo a formação de homens de bem; se esse grupo não está reunido para desempenhar alguma capacitação pontual e específica, então é desejável que as pessoas exponham seus conteúdos internos, e uma atmosfera de aceitação é fundamental para que isso possa acontecer de maneira respeitosa, acolhedora e produtiva.

Validação

A validação é complementar à aceitação. Consiste na capacidade de o grupo demonstrar seu apreço e o valor que a pessoa tem, bem como a importância de que se expresse, independentemente da sua opinião, especialmente quando seja necessário se contrapor a esta opinião, por ser divergente dos princípios compartilhados pelo grupo. Vale lembrar que se for sistemática a desidentificação com os princípios do grupo, isso comprometerá a inclusão, mas que, eventualmente, todos terão opiniões ou sentimentos discrepantes que precisam ser validados para que se preserve a intimidade ou abertura dentro do grupo.

Vale lembrar que, apesar de parecer moroso ou trabalhoso, o investimento em intimidade na verdade faz com que o grupo consiga caminhar mais rápido, e uma vez atingido este ponto, no qual os indivíduos têm espaço para resolver seus problemas interpessoais com abertura e franqueza, podem, assim, voltar mais prontamente ao foco da atividade que desempenham juntos.

Frequentemente os grupos se sentem emperrados ou atolados, percebendo que não conseguem desenvolver os conteúdos ou realizar seus projetos. Muitas vezes isso se deve a questões interpessoais que não são atendidas ou para as quais não há abertura ou intimidade suficientes para que se resolva e o grupo possa voltar ao seu processo explícito.

Por fim, gostaríamos de expor rápidas considerações a respeito do final dos grupos.

Por vezes os grupos de estudo têm uma tarefa ou prazo específico, então, seu ciclo vital terá uma quarta etapa, a dissolução.

O responsável pela organização de um grupo com esta característica deve estar consciente de que os participantes entrarão em uma espécie de luto, à medida que o final do grupo se aproxime.

Este sentimento pode se manifestar com animosidade ou apatia, dependendo da estrutura interna dos seus membros, mas o que é certo é que a capacidade de produzir cai muito nessa etapa.

Portanto, deve-se tomar cuidado para não deixar atividades importantes demais ou assuntos inteiramente novos para serem suscitados nessa etapa, pois simplesmente não haverá energia interna para a resolução ou tomadas de decisão neste momento do grupo.

A etapa de dissolução ou finalização do grupo deve ser usada com sabedoria, para que as pessoas tenham a possibilidade de se despedirem ou resgatarem alguma pendência que necessitem, permitindo, assim, um adequado encerramento de ciclo.

Desse modo, terminamos esta série de quatro textos a respeito da dinâmica básica dos grupos de estudo. Questões mais específicas serão abordadas em outros textos futuramente.”

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