Jornal Mundo Espírita

Agosto de 2017 Número 1597 Ano 85
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Falando com os mortos – as irmãs americanas e o surgimento do espiritismo

outubro/2012

Essa obra é fruto de um intenso trabalho de pesquisa, conforme se pode observar das referências bibliográficas, doze delas jornais da época. As quatrocentas páginas são fartas  em notas de rodapé, remetendo a uma ou outra fonte bibliográfica. A autora, Barbara Weisberg, americana residente em Nova York, que trabalha como produtora freelancer, se valeu de muitas fontes primárias, além de entrevistas de interessados na história das irmãs Fox.

Apesar disso tudo, a história é transmitida de uma forma leve, inteligente  e envolvente. A autora se utiliza de linguagem simples e faz boa descrição dos fatos, que vão muito além de uma simples apresentação burocrática, abordando os mais variados aspectos. Explora o contexto social da época e relaciona-o às ocorrências históricas; desenvolve o perfil psicológico das irmãs Kate, Maggie e Leah e, em menor medida, da sociedade; discute ainda a importância da questão espiritual. Enfim, é um trabalho completo e harmonioso.

O tumultuado relacionamento entre as irmãs e o próprio pai, o romance frustrado de Kate, os três casamentos de Leah, as sessões realizadas com cobrança de ingressos são temas abordados pela autora, que se sentiu motivada a pesquisar a respeito dessas personagens, a partir de uma obra de Peter Washington, traduzida em nosso idioma para O babuíno de Madame Blavatsky.

Como em outras obras traduzidas, o senão fica por conta do título escolhido para a versão brasileira que assinala Espiritismo, quando deveria ser Espiritualismo: Talkin to the Dead – Kate and Maggie Fox and the Rise of Spiritualism.

Após o dia 31 de março de 1848, em que os fenômenos se mostraram com maior intensidade e chamaram a atenção para a casa da Família Fox, as três meninas padeceram humilhações e situações vexatórias.

Barbara descreve o suplício pelo qual passaram, sendo tocadas, atadas, manipuladas e manuseadas. Examinadas por um comitê de mulheres, com total invasão de sua intimidade, somente seus soluços em alto volume permitiram que um fim fosse colocado àquela investigação, que objetivava encontrar instrumentos como bolinhas de chumbo, que pudessem ser as causadoras dos ruídos.

As teorias esdrúxulas, encontradas para explicar a fenomenologia que acompanhava as meninas, onde fossem, são apresentadas, como a de um certo Dr. Lee que, mantendo seguros os joelhos de Maggie Fox, garantiu que era possível sentir o osso se mexer. Igualmente a de que, conforme outros médicos, tudo seria produção de estalos das juntas e músculos, ligamentos e tendões, das pernas e dos pés humanos.

Relatos de incrédulos, de pessoas que afirmavam ter descoberto como as irmãs fraudavam os fenômenos,  aparecem, ao lado dos de outras testemunhas oculares e auditivas, que atestam da sua autenticidade. Sem falar dos relatos de pessoas que saíam consoladas das sessões, por terem recebido as mensagens dos seus amores mortos, dando-lhes a certeza da Imortalidade.

A autora é pródiga em detalhes, narrando como a imprensa da época tratava as questões, tanto quanto apresenta a variedade dos fenômenos mediúnicos das irmãs, além dos conhecidos raps: a escrita automática, transcrevendo mensagens com a mão esquerda em letra invertida, às vezes, produzindo duas ao mesmo tempo, escrevendo uma com letras grandes e arredondadas e informando a outra oralmente; a escrita direta (pneumatografia) onde se usavam fichas em branco, sobre as quais a escrita dos Espíritos se materializava de forma espontânea. Também aparições de Espíritos, descritas como tangíveis quanto qualquer ser mortal.

A pressão psicológica sobre as três irmãs, sua fraqueza para o álcool e, segundo boatos, por outras drogas, são abordadas. Narra algumas dissensões entre elas, as sessões que Kate realizou sozinha, servindo a determinados interesses.

O desmentido da produção dos fenômenos mediúnicos que produziam merece da autora capítulo especial, detalhando a decepção de Maggie Fox Kane. A animosidade dessa denúncia não vinha somente da ira contra sua irmã Leah e seus colegas espiritualistas. Estava acrescida do seu profundo desapontamento com a incapacidade dos Espíritos de a atenderem nas suas solicitações.

A descrição do espetáculo na Academia de Música de Nova York, no dia 21 de outubro de 1888, desce a detalhes da demonstração pública da fraude. Também traz a retratação, cerca de ano depois, da própria Maggie.

Evidencia a obra que Kate foi a primeira a produzir as batidas, conforme declarações de Maggie, Leah e da mãe. Kate tinha onze anos quando tudo começou. Maggie tinha quatorze.

Para quem ler a obra, alerte-se que a autora, mostrando-se imparcial, trata de todas as possibilidades, ou seja, da autenticidade dos fenômenos e da possibilidade de fraude. Não se nega a apresentar documentos que atestam de uma e de outra condição.

Contudo, diga-se, é um verdadeiro resgate histórico dessas três médiuns, que movimentaram a opinião pública, que atraíram para si olhares de sábios e pesquisadores sérios, que atestaram da Imortalidade do Espírito, apesar de suas vidas cheias de contradições e idiossincrasias, construindo uma ponte espiritual entre Estados Unidos e Europa e cujas águas vieram desembocar aqui, ao sul do Equador, num Brasil ecumênico, espiritualizado, cheio de manifestações de fé.

Na apresentação do livro, escreve Barbara: A história das irmãs Fox – de espíritos e conjuradores, céticos e convertidos – permanece como um quebra-cabeça, um labirinto. Espero que os leitores vivenciem a história como eu, como um teatro cheio de emoção e surpresa, que também provoca perguntas de uma maneira extraordinariamente vívida e concreta sobre como sabemos o que sabemos, e sobre quão seguros somos de nosso conhecimento.

A primeira edição, em português, da Editora Nova Fronteira, data do ano 2011. A capa mostra uma rara foto das irmãs Kate e Maggie.

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