Jornal Mundo Espírita

Agosto de 2018 Número 1609 Ano 86

Examinando Kardec

Coordenadoria de Estudos da Doutrina Espírita

dezembro/2011

Não que outros missionários não tivessem aportado antes dele: ases do conhecimento que dilataram os imensos horizontes do saber; místicos que se embrenharam nos dédalos do “eu”, aprendendo vitória sobre si mesmos; santos que rasgaram sendas luminosas no matagal das aflições; apóstolos que fizeram da renúncia e da humildade os baluartes da própria força; filósofos que ensejaram à razão o campo da investigação; cientistas corajosos e audazes que ofereceram a vida em prol de pesquisas inapreciáveis  na preservação de milhões de vidas… E heróis, missionários do amor, sacerdotes da fraternidade, operários sublimes, todos eles, do Pai Construtor, encarregados de impulsionar o progresso da Terra conjugado à felicidade dos homens.

Ele, entretanto, guardadas as proporções fez-se nauta de uma experiência antes não tentada nos mares ignotos da verdade: auscultou o insondável além-da-morte, inquirindo e estudando, selecionando e fazendo triagem das informações recebidas dos Imortais, de modo a edificar o colossal edifício do Espiritismo.

Nem um só momento se deixou empolgar pela vitória conseguida ao peso das lágrimas, nem jamais se quedou desanimado sob o fardo das incompreensões, quando crivado pelas farpas da inveja e da calúnia.

Não se permitiu o luxo dos triunfos fáceis, nem aceitou a coroa da consagração. A própria vida celeremente se lhe extinguiu no corpo somático, logo se permitiu conquistar o país do conhecimento, demandando a Imortalidade antes que os lauréis da gratidão ou de qualquer glória lhe pesassem sobre a cabeça veneranda.

Antes, outros espíritos de escol também velejaram pelas regiões desconhecidas do após-o-túmulo, tomando apontamentos, registrando observações.

Muitos se embrenharam pelas veredas da vida-além-da-vida e se detiveram deslumbrados no pórtico da revelação.

Os que se atreveram a adentrar-se pelos recônditos da Imortalidade, procuraram explicações mirabolantes, formulando hipóteses rocambolescas ou, fortemente impressionados, se recolheram à meditação profunda, ao flagício, à oração.

Os que facultaram apresentar o resultado do descobrimento, experimentaram a zombaria dos contemporâneos e, não raro, desencantados, refugiaram-se no silêncio ou arderam em piras crepitantes…

Ele, não!

Não se deteve a observar somente, nem se aquietou a experimentar emoções.

Após o meticuloso exame do mediunismo, patenteada a veracidade da vida incessante mesmo depois da disjunção celular, entregou-se ao conhecimento libertador.

Do fenômeno extraiu a doutrina.

Do informe puro e simples conseguiu o fato comprovado.

Enfrentando os Imortais não os temeu, não os exaltou. Inquiriu-os e analisou-os a todos quantos passaram suas informações pelo crivo da discussão, do debate franco, do exame rigoroso.

Compulsou os alfarrábios dos tempos e aprofundou-se na cultura da época. Armado de equilíbrio invulgar esteve a todo instante à altura da investidura e, quando o reboliço da aventura cedeu lugar ao marasmo e à monotonia, ele apresentou o resultado dos seus estudos sérios, apoiados na razão e no bom-senso.

Kardec foi, sem dúvida, o magnífico missionário da Humanidade, precursor do Mundo Novo.

Em sua obra reacendem os aromas específicos da tríade perfeita do conhecimento: Ciência, Filosofia e Religião. São o esquema ímpar da sabedoria em todos os seus ângulos e faces.

*   *   *

Transcorrido o primeiro século da Codificação Kardequiana, mais se fazem atuais os seus ensinos e conclusões, ensejando elucidações valiosas para os enigmas que surgem no momento em que ruem os tabus e os preconceitos, em que necessidades aparecem para substituir as manifestações místicas da ignorância e da falsa pudicícia da fé, que se esboroam.

Por essa razão é que se faz imperioso estudar o Espiritismo, trazendo os informes destes dias para examiná-los à luz meridiana da Doutrina, clareando as nebulosas informações de psiquistas e parapsicólogos, os problemas morais ao estudo sistemático da moral espírita e as conclusões da ciência ao ensinamento doutrinário. Não olvidar, no entanto, que os descobrimentos e as informações de caráter eminentemente revelador, no campo do mundo, aos homens do mundo competem, sendo a Doutrina mesma o guia moral e espiritual para todos nós, não pretendendo como não o fez o Codificador, resolver ou realizar as tarefas que ao homem incumbem como medidas imperiosas de crescimento e evolução.

 

Estudemos mais e analisemos melhor o Espiritismo, porquanto com suas lições no coração e na mente encontraremos o pão e a luz, o instrumento e a rota para levar-nos à harmonia e à paz real.

Vianna de Carvalho
Mensagem extraída da obra À Luz do Espiritismo,
psicografia de Divaldo Pereira Franco.

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