Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

Eusápia Palladino

maio/2016 - Por Jaqueline Ribeiro da Costa de Souza

O ano era 1854, e no dia 21 de janeiro nascia aquela que, aparentemente, seria mais uma pessoa comum, como tantas outras que nasceram na mesma data. Mas, tratava-se de Eusapia Palladino, cuja mãe morreu no parto. De família pobre, não foi alfabetizada. Contudo, sua trajetória ficou marcada na História da pesquisa psíquica, pois foi a primeira, entre os médiuns de efeitos físicos, a ser examinada por grande número de homens da ciência.

Na infância, Eusapia ouvia batidas nas peças do mobiliário, para as quais ela dirigia o olhar e, no escuro, via olhos que a observavam. À noite, apavorava-se ao sentir mãos invisíveis que lhe puxavam os cobertores.

Aos doze anos, ficou órfã, sendo acolhida em casa de família abastada de Nápoles, que a recebeu como empregada doméstica. Vivia-se a época das mesas girantes, na Europa.

Certa ocasião, as pessoas com as quais convivia, convenceram-na a sentar-se à mesa na companhia de outros participantes de uma reunião. Passados alguns instantes, a mesa levitou, as cadeiras deslizaram sozinhas pelo chão, as cortinas da sala agitaram-se, os copos, garrafas e outros objetos da cristaleira tiniram, batendo uns nos outros. Logo se descobriu que Eusapia, então com quatorze anos, era a potente médium causadora daquilo tudo.

Muito jovem, Eusapia se casou  com  Raphael  Deldaiz,  um homem rude, que a maltratava e com quem foi muito infeliz. Porém, a bondade era a tônica dela. Repartia o que possuía com todos que, como ela, eram necessitados. Seu espírito caritativo não lhe permitia ver a dor do semelhante sem chorar junto.

Talvez esse tenha sido um dos motivos dos problemas em seu consórcio, pois Raphael não conseguia entender as visitas que ela fazia, levando para os lares carentes o pouco que tinha em sua casa. Para ele, isso era loucura.

Ele acabou por abandoná-la. Sem desespero, confiando em Jesus, Eusapia não se entregou ao desespero. Começou a frequentar reuniões mediúnicas.

Aos vinte e dois anos, conheceu Signor Damiani, um profundo conhecedor da Doutrina Espírita, que chegou até ela após receber, por meio da psicografia de sua esposa, a orientação do Espírito John King para que a procurasse.

Escreveu o Espírito: Há muito procuro ajudar a senhora Eusapia Palladino, para que ela possa cumprir sua tarefa nesta reencarnação. Com sua simplicidade e aceitação de sua fé em Jesus, poderá auxiliar a Humanidade a progredir no campo espiritual. Ela deverá se colocar à disposição dos sábios desta época, para que o Espiritismo venha a ser respeitado e torne-se a estrada em que todos caminharão para existências melhores, quando entenderem a verdadeira fé cristã e a imortalidade da alma.

Sob a tutela de Damiani, Eusapia iniciou seus estudos da Doutrina Espírita e John King passou a ser o seu guia espiritual. Sua mediunidade marca um período luminoso na História das pesquisas psíquicas. Nenhum médium, em todo mundo, foi mais duramente examinado do que essa mulher. Com humildade, ela se submeteu aos mais rigorosos exames, para provar a legitimidade dos seus múltiplos dons mediúnicos.

As primeiras manifestações foram de levitação de objetos. Posteriormente, ela passou a promover movimento de objetos, levitação de mesas e dela própria, aparição de luzes, materializações, execução de trechos musicais, por vários instrumentos, sem contato humano.

A primeira apresentação de Eusapia ao mundo científico europeu foi através do professor Chiaia, de Nápoles, que, em 1888 publicou, num jornal de Roma, uma carta ao professor Lombroso, dando detalhes de suas experiências e convidando o célebre cientista e criminalista a fazer investigações diretas com a médium.

Em 1891, Lombroso aceitou o convite e, em fevereiro daquele ano, fez duas sessões com ela, em Nápoles. Ele se converteu ao Espiritismo, confessando: Lamento haver combatido com tanta persistência a possibilidade dos fatos chamados espíritas. Através da médium, chegou a conversar com o Espírito materializado de sua mãe.

Certa feita, cansada das calúnias e injúrias a seu respeito, desabafou Eusapia a uma colunista de um periódico: Dizem que tudo o que tenho feito é por dinheiro. Quem assim me descreve não me conheceu antes, porque sou a mesma. Continuo pobre e cuidando dos que, como eu, vivem na miséria. Sou feliz assim. Se me propus a servir a uma causa justa, faço-o porque quero, ninguém me  obrigou. Sei que sou testada por grandes figuras, famosas por seus méritos (…). Fiquei rica, sim! Rica de conhecimentos para quem, como eu, não aprendeu a ler e a escrever. Hoje posso me considerar diplomada pelo muito que esses novos amigos me ensinaram. Sou grata ao casal Damiani e aos professores Ercole Chiaia, Charles  Richet, Cesar Lombroso e ao meu descobridor espiritual, John King. Eles me deram uma nova vida, um outro lado de um mundo melhor do que este em que vivemos.

Ela desencarnou em 1918, na pobreza, com a idade de sessenta e quatro anos. Eusapia Palladino tinha um grande coração e fez da caridade o seu maior título de glória.

 

Bibliografia:

CARNEIRO, Victor Ribas. ABC do Espiritismo. 5. ed. Curitiba: FEP, 1996.

DOYLE, Arthur Conan. A história do espiritualismo. Brasília: FEB, 2013.

LOUREIRO, Carlos Bernardo. As mulheres médiuns. 3. ed. Brasília: FEB, 2008.

PALHANO JR., L. Eusapia, “a feiticeira”. Rio de Janeiro: CELD, 1995.

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