Jornal Mundo Espírita

Junho de 2019 Número 1619 Ano 87

EURÍPIDES E HÉCUBA

julho/2013 - Por José Reilly Algodoal

No estudo das antigas civilizações, constatamos a crença generalizada na imortalidade e comunicabilidade dos Espíritos. A todo instante nos defrontamos com oráculos, pitonisas, sibilas, hierofantes, magos, necromantes, profetas e médiuns, o que é bastante significativo.

A cultura grega não fugiu à regra.  Efetivamente, os gregos, conforme nos revelam seus costumes, crenças, medos, cultos e rituais, acreditavam piamente na imortalidade, nada obstante fossem vagas e imprecisas as noções sobre a vida além do túmulo.

O teatro grego é uma proclamação à vida imortal. Da mesma forma que o comerciante só põe à venda a mercadoria desejada pelos consumidores,  na peça teatral, o poeta grego tinha que atender aos desejos e aspirações dos espectadores, deixando assim registrado o nível cultural de sua gente e de sua época.

Os gregos faziam teatros aproveitando os aclives naturais do terreno. Na base, o palco para os atores e o coro. Ao redor do palco, degraus em semicírculos, poucos na base, para irem se ampliando à medida que esses subiam as encostas do morro. Eram e são autênticas conchas acústicas, proporcionando excelentes condições para a propagação do som. Alguns teatros comportavam mais de 20.000 espectadores.

Nos teatros encenavam comédias e tragédias. Algumas delas são reencenadas nos dias atuais, sempre com sucesso. Os atores entravam em cena usando máscaras, chamadas personas, para melhor identificar os personagens que iam representar. O coro dava movimentação ao espetáculo.

Eurípides está entre os mais festejados poetas gregos.  A tragédia Hécuba, apresentada pela primeira vez em 424 a. C., focaliza a Guerra de Troia, no momento histórico em que os gregos, vitoriosos, se preparavam para retornar com os despojos dos vencidos.

Hécuba foi a última rainha de Troia. Sobreviveu ao massacre e se tornou escrava. Na peça, ela tinha sonhos premonitórios que se concretizavam.

O primeiro personagem a entrar em cena é um Espírito. É o Espírito de Polidoro que, em seu demorado monólogo, conta ter sido o último filho do rei Príamo e da rainha Hécuba. Adolescente, não apto para empunhar a lança e o escudo, foi mandado aos cuidados de Polimnestor, rei da Trácia, levando consigo considerável tesouro. O tesouro, destinado para atendê-lo nas necessidades futuras, foi a causa de sua ruína.   Com a queda de Troia, dominado por ganância incontida, seu hospedeiro assassinou-o e lançou seu corpo ao mar, apropriando-se do tesouro.   Continuando seu monólogo, Polidoro diz que rogou aos deuses para que as ondas levassem seu corpo à praia, para ser sepultado conforme o ritual. Conta mais, que o Espírito  Aquiles pede o sacrifício de uma princesa sobre seu túmulo.

Na continuação da tragédia, os gregos recusam-se a partir enquanto não atendido o apelo do Espírito  Aquiles, o qual, materializando-se sobre seu túmulo, exigia o sacrifício de uma princesa.

Ulisses é encarregado de buscar Polixena, filha de Hécuba, para ser decapitada.  Hécuba pede, implora, oferece-se para ser sacrificada no lugar da filha.   Ulisses lastima, mas não pode deixar de atender ao pedido do Espírito  Aquiles.   Ele leva Polixena, para que seu sangue corra como libação sobre o túmulo de Aquiles.    Polixena, ante o inevitável, pede seja desligada das amarras, para entrar no reino da morte como uma mulher livre, não escrava.

Os personagens se sucedem. A tragédia continua toda recheada com sentimentos e emoções fortes;  com traições, ódios e vinganças; torturas e homicídios; com intromissão de Espíritos na vida dos homens;  com metamorfoses, profecias e vaticínios.

O certo e irretorquível é que a tragédia Hécuba é um cântico à imortalidade da alma e à comunicabilidade dos Espíritos. E só poderia ser aplaudida por um público que aceitava a continuidade da vida depois da morte, como uma realidade inconteste.

Assine a versão impressa
Leia também