Jornal Mundo Espírita

Agosto de 2019 Número 1621 Ano 87
Trabalhadores do Bem Envie para um amigo Imprimir

Eunice Sousa Gabbi Weaver

setembro/2013 - Por Marco Antonio Negrão

Desde os tempos mais remotos, a pessoa atingida pela lepra carregava o peso do estigma que cercava a designação de leproso. O termo sempre foi utilizado pela sociedade para se referir a algo ruim, maléfico ou a alguém que causava aversão e ojeriza.

É possível encontrar os indícios do estigma, em torno do termo leproso, nos relatos bíblicos, quando a doença era considerada um sinal do poder de Deus para testar ou punir aquele que fosse acometido pela moléstia.

A história social da hanseníase no Brasil é marcada por diversos aspectos, tais como a implementação de rigorosas políticas públicas de saúde, pelos governos vigentes e pelos médicos especializados na área, que entendiam a necessidade do isolamento dos indivíduos atacados pela doença.

Havia o leprosário (que abrigava o indivíduo com a doença já diagnosticada), o preventório (utilizado para receber os filhos dos infectados) e o dispensário (onde ficavam as pessoas que tivessem tido contato com os doentes internados nos leprosários).

Nesse ambiente, Eunice Sousa Gabi Weaver nasceu, na cidade de São Manoel, interior de São Paulo, em 19 de setembro de 1902.

Começo de século, São Paulo, fazenda de café, próspera. No terreiro, vagaroso como numa procissão, vem entrando um bando em farrapos, os rostos ocultos.

São mendigos, doentes, associados na miséria, no abandono da vida, que apanham agasalhos e alimentos deixados na porteira. As crianças da Casa Grande são levadas para dentro, às pressas, portas fechadas, cortinas corridas.

Uma das meninas se esconde. Súbito, uma mulher abandona o grupo e aproxima-se. Há nela um vago ar aristocrático, restos de nobreza, voz serena, escondida na sombra do grande chapéu de palha, não se vê o rosto:

Sou Rosa! Mesmo que não se lembrem de mim, quero agradecer. Meus pais dizem que me suicidei, é melhor assim, seria segregada; joguei minha roupa no rio, pensaram que me afoguei.”

Rosa Fernandes fora uma linda jovem, filha de vizinhos, mas que havia, há algum tempo, desaparecido. Ela havia contraído lepra nos tempos de colégio.

Nunca mais Eunice esqueceria os olhos de Rosa e, a partir desse episódio, começava o seu trabalho em benefício dos irmãos chagados, como a Grande Servidora do Bem. Ela talvez não tenha feito nada por Rosa Fernandes, mas o fez por muitas Rosas, que desabrochavam dos seios de hansenianos e que, por enfermidade de seus pais, não podiam permanecer com eles.

Em 1927, reencontrou Charles Anderson Weaver, que havia sido seu professor de latim. Ele dirigia o Colégio Granbery, havia enviuvado e tratava da edição de seu livro, em São Paulo. Quando se casaram, foram morar em Juiz de Fora, Minas Gerais, onde lecionou História e Geografia.

Em seguida, Dr. Weaver foi convidado pela Universidade de Nova Iorque, para direção de um trabalho e Eunice aproveitou para estudar jornalismo, sociologia e filosofia oriental. Mais tarde, estudou na Columbia University e fez curso de Serviço Social na Universidade de Carolina do Norte (EUA).

Por onde andou, ela procurou conhecer de perto o problema da lepra, o que em relação a ela se havia feito e o quanto restava por se fazer. Estagiou em numerosos leprosários: nas ilhas Sandwich (no Pacífico Sul), no Egito, na China, no Japão e na Índia. Em todo lugar recolhia material de experiência para o ministério redentor a que iria se entregar totalmente.

De volta ao Brasil, em Juiz de Fora, começou a fazer a campanha de assistência aos leprosos. Foi fundada a Sociedade de Assistência aos Lázaros pois, em Minas Gerais, nessa época, o problema da lepra era terrível: o trem passava de madrugada, o vagão de segunda classe cheio de doentes encaminhados ao único leprosário em Belo Horizonte, o Santa Isabel; e ela levava à estação roupas, cobertores e refeições.

A recomendação era sempre a mesma: Dona Eunice, tome conta de nossos filhos, não os deixe passar fome, não permita que fiquem doentes com esta terrível moléstia.

Aquilo ficava em seus ouvidos. Sabia que a lepra não era hereditária, e a primeira campanha foi organizar preventórios, mais tarde, transformados em educandários,

Em 1935, com muita coragem, conseguiu convencer o Presidente Getúlio Vargas a ajudar oficialmente a obra, que lhe prometeu dar o dobro do que ela conseguisse junto à sociedade civil. Após esse acordo, Eunice passou a viajar por todo o Brasil, lançando a campanha da Federação das Sociedades de Assistência aos Lázaros e Defesa Contra a Lepra.

Eunice Weaver esteve presente, também, em memoráveis labores assistenciais, criando e ajudando obras meritórias, surgidas no Brasil. Foi a primeira mulher a receber, no Brasil, a Ordem Nacional do Mérito, no grau de Comendador, em novembro de 1950, e também o troféu internacional Damien-Dutton (pela primeira vez outorgado a uma pessoa da América do Sul).

Representou o nosso país em inúmeros congressos mundiais sobre a doença, organizou serviços contra a lepra no Paraguai, Cuba, México, Guatemala, Costa Rica e Venezuela. Em 1960, recebeu o título de Cidadã Carioca, ao completar vinte e cinco anos na direção da Federação e, em 11 de setembro de 1965, por indicação do vereador Pedro de Castro, recebeu o título de Cidadã Honorária de Juiz de Fora.

Em outubro de 1967, foi para a ONU, como delegada brasileira no 12º Congresso Mundial.

Apesar das dificuldades naturais, tudo era felicidades e contínuas alegrias. Mas, a batalhadora Eunice Weaver perdeu inesperadamente o esposo, rompendo-se o elo de luz que lhe sustentava o equilíbrio, no labor de consolação e de misericórdia. Na ausência do sempre solícito esposo, a jornada a sós se lhe tornou mais difícil. Amigos leais buscaram animá-la, confortando-a e encorajando-a para a luta, mas a ausência física do companheiro pungia fortemente.

Entretanto, em 1959, uma de suas amigas a levou até Pedro Leopoldo para conhecer o médium Francisco Cândido Xavier e a mensagem de paz e otimismo transmitida pelo médium, lhe deu forças para continuar. Ela agora sentia que seu marido não a abandonara. E, com garra, voltou a enfrentar todas as tarefas que a vida lhe impusera. Ora era a luta por verbas sempre escassas e difíceis, adiante, os serviços administrativos fatigantes. As viagens contínuas e exaustivas continuavam, sustentadas pelo amor, feito de renúncia pelos menos favorecidos, os filhos do Calvário, marchando em direção do amanhã, ajudada por centenas de mulheres valorosas que ainda prosseguem inspiradas no seu imorredouro exemplo.

Sempre trabalhando, desencarnou em 9 de dezembro de 1969, aos sessenta e sete anos, como sempre vivera: dedicada ao próximo. Terminando de discutir compromissos com o Governo do Rio Grande do Sul, ela voltava feliz, na expectativa de melhores dias para aqueles a quem considerava os seus de coração, quando foi subitamente chamada para a Vida Espiritual.

Transladado seu corpo ao Rio de Janeiro, foi velado na Igreja Metodista e sepultado no Cemitério dos Ingleses, ao lado do seu amado esposo.

Uma vida toda dedicada aos hansenianos e seus familiares sendo uma verdadeira trabalhadora do bem.

 

Bibliografia:

FRANCO, Divaldo Pereira. A conferência. In.:___. Sublime expiação. Pelo Espírito Victor Hugo. Rio de Janeiro: FEB, 1978. Livro, cap. 5.

www.feparana.com.br – Biografias.

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