Jornal Mundo Espírita

Junho de 2018 Número 1607 Ano 86

Espiritismo também é religião

junho/2011 - Por J. Reilly Algodoal

Repetindo, a Doutrina Espírita deve ser estudada em seu tríplice aspecto: científico, filosófico e religioso.

Mas, será uma religião? Vejamos:

Religião, etimologicamente, segundo alguns, vem do termo latino “relegere” (tomar de novo ou recolher novamente); segundo outros, do verbo “religare” (ligar novamente).

Nos dicionários, a palavra “religião” pode ser adotada em múltiplas acepções, entre as quais podemos ressaltar: “Religião revelada: a que, como o Cristianismo, se baseia numa revelação divina conservada pelas Escrituras Sagradas e pela tradição” (sic – Michaelis).

Carlos Imbassahy cita Boulanger que, em sua obra A Doutrina Católica, página 8, assevera: “Professar a religião cristã é admitir a doutrina, os ensinos de Nosso Senhor Jesus Cristo: é crer nas verdades que nos revelou e observar os mandamentos que nos deu.” (In – Religião, 3ª edição, página 91).

Ora, a Doutrina Espírita, assim como as demais religiões cristãs, também estuda os ensinamentos e as leis morais ditadas por Jesus. Mas vai mais além: investiga a “ratio legis”, ou seja, as razões pelas quais as leis morais devem ser obedecidas, comprovando as consequências resultantes do não cumprimento das mesmas normas. De qualquer forma, a Doutrina Espírita assenta, fundamental e inequivocamente, nos mandamentos e ensinamentos de Jesus, consubstanciados nos quatro Evangelhos e nos Atos e Epístolas dos Apóstolos, todos interpretados à luz da Nova Revelação, sob a égide do Espírito da Verdade.

Quanto às normas de comportamento, a Lei de Moisés prescreve a omissão do mal (não matar, não roubar, não desejar as coisas alheias, etc.) ou “Não faça aos outros o que não gostaria que lhe fizessem”. E já era exigir muito de um grupo social que desconhecia a misericórdia. Jesus não revogou a lei dos dez mandamentos, que continuaram e continuam em plena vigência. Mas, à prescrição da omissão do mal, acrescentou a necessidade de se partir para a prática do bem, ou seja: “Faça aos outros o que gostaria que lhe fizessem”.

Aqui cabe uma distinção: as leis do mundo material se referem aos domínios do “ser”, do que é: uma relação sempre constante entre a causa e o efeito. As leis do mundo moral (leis jurídicas e sociais) se reportam aos domínios do “dever ser”, isto é, o agente, em decorrência do seu livre-arbítrio, pode escolher entre o cumprimento ou a violação do preceito. Efetivamente, toda ação humana tem por origem um ato de livre-arbítrio (fazer ou não fazer); todavia, toda ação humana gera uma consequência.

É exatamente com relação às penas e recompensas futuras que encontramos divergências entre as diversas religiões cristãs. De qualquer modo, todas acreditam na existência de Deus e na imortalidade da alma.

A Doutrina Espírita, pregando a tolerância, jamais atacou qualquer religião. Allan Kardec combateu apenas as doutrinas materialistas.

O Espiritismo é forte porque assenta sobre as próprias bases da religião (*): Deus, a alma, as penas e as recompensas futuras; sobretudo, porque mostra que essas penas e recompensas são corolários naturais da vida terrestre e ainda porque, no quadro que apresenta do futuro, nada há que a razão mais exigente possa recusar.

Que compensação ofereceis aos sofrimentos deste mundo, vós cuja doutrina consiste unicamente na negação do futuro? Enquanto vos apoiais na incredulidade, ele se apoia na confiança em Deus; ao passo que convida os homens à felicidade, à esperança, à verdadeira fraternidade, vós lhe ofereceis o nada por perspectiva e o egoísmo por consolação. Ele tudo explica, vós nada explicais. Ele prova pelos fatos, vós nada aprovais. Como quereis que se hesite entre as duas doutrinas?

O Livro dos Espíritos, Conclusão, Cap. VI,
tradução Guillon Ribeiro.

Sob outra vertente, o Espiritismo estuda os ensinamentos ostensiva ou veladamente contidos nos Evangelhos, alguns dos quais constituem princípios básicos da Doutrina Espírita, quais sejam: Existência de Deus, imortalidade da alma, comunicabilidade dos Espíritos, reencarnação e pluralidade dos mundos habitados.

Jesus não poderia dizer tudo, dado o grau de evolução do homem há dois mil anos. Assim, prometeu o Consolador que ficaria eternamente conosco. Ele, o Consolador, complementaria seu ensino e faria lembrar o que ensinara.

Alguns protestam porque o Espiritismo não possui ritual, hierarquia sacerdotal, sacramentos, etc. Onde Jesus prescreveu tais coisas?… O Espiritismo representa o retorno à pureza primitiva. É o Cristianismo redivivo.

Enfim, o Espiritismo, como ciência, tem por objeto as leis que regem as relações entre os dois planos da vida; como filosofia, as questões de ordem transcendental, notadamente as que se referem às origens e aos destinos do homem e das humanidades; como religião, o estudo em profundidade das normas de comportamento reveladas por Jesus e ratificadas pelos Espíritos que participaram da Codificação, cuja observância certamente nos levará ao caminho da verdade e da vida.

O Grupo Espírita Luiz Gonzaga, de Pedro Leopoldo, perguntou a Emmanuel:

“…apresentado o Espiritismo, na sua feição de Consolador prometido pelo Cristo, três aspectos diferentes: científico, filosófico e religioso, qual desses aspectos é o maior?”

Ao que Emmanuel respondeu:

…podemos tomar o Espiritismo simbolizado desse modo, como um triângulo de forças espirituais.

A ciência e a filosofia vinculam à Terra essa figura simbólica, porém, a religião é o ângulo divino que a liga ao céu. No seu aspecto científico e filosófico, a doutrina será sempre um campo nobre de investigações humanas, como outros movimentos coletivos de natureza intelectual que visam o aperfeiçoamento da humanidade. No aspecto religioso, todavia, repousa a sua grandeza divina, por constituir a restauração do Evangelho de Jesus Cristo, estabelecendo a renovação definitiva do homem, para a grandeza do seu imenso futuro espiritual.”

(sic, in: O Consolador)

A primeira Revelação ordenou a omissão do mal; a segunda, a ação no bem. A terceira Revelação, ratificando as anteriores, trouxe uma nova voz de comando: “Espíritas! amai-vos, este o primeiro ensinamento; instruí-vos, este o segundo”. (O Espírito da Verdade, in O Evangelho segundo o Espiritismo, Cap. VI, item 5)

*O grifo é nosso. (N. do redator)

Errata: Matéria republicada em virtude de erros na
versão impressa no mês anterior.

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