Jornal Mundo Espírita

Junho de 2019 Número 1619 Ano 87

Espiritismo e empirismo – uma reflexão pedagógica

junho/2015 - Por Cezar Braga Said

A morte e a reencarnação que se lhe segue, em um dado tempo, são duas condições
essenciais do progresso. Rompendo os hábitos acanhados que havíamos contraído,
elas colocam-nos em meios diferentes; obrigam a adaptarmo-nos às mil faces
da ordem social e universal.
Léon Denis, Depois da Morte, pt.2, cap. XIII

No senso comum, a palavra empírico diz respeito a um conhecimento que adquirimos e até a um aprendizado que realizamos espontaneamente, isto é, usando os sentidos, recolhendo sensações, desenvolvendo percepções e experiências, mesmo sem um planejamento prévio. E isto tem seu valor em nosso processo de crescimento.

Filosoficamente, podemos dizer que o Empirismo é também uma teoria do conhecimento, uma explicação de como aprendemos.

Tendo em vista que para esta teoria o ser humano é, ao nascer, uma folha em branco sem qualquer conhecimento prévio, inato, o estímulo ao aprendizado é algo que virá de fora, a partir do que é externo à pessoa.

O Empirismo é também chamado de ambientalismo, na medida em que defende que o homem é fruto do meio, do ambiente que o molda e o constitui. Na psicologia, esta visão recebeu o nome de Behaviorismo (comportamentalismo) e associacionismo, em razão do entendimento de que somos, a todo  momento, movidos por estímulos que geram respostas específicas.

Alguns pesquisadores, desejosos de transpor esta teoria do campo filosófico para o educacional, realizaram experimentos com animais e seres humanos, publicando, em seguida, artigos e livros a respeito da sua validade e eficácia na esfera pedagógica. São eles os norteamericanos John Watson (1878-1958) e Frederic Skinner (1904-1990) e o russo Ivan Pavlov (1849-1936).

A partir deste entendimento, concluíram que educar pode ser traduzido como condicionar desde a infância, criar hábitos, a partir de repetições que possam moldar a personalidade de uma criança de modo a ajustá-la no meio social. E para alcançar tais objetivos é fundamental planejar, controlar e avaliar.

A partir destas rápidas conjecturas, não temos como negar que, desde cedo, com o desejo de bem educar nossos filhos, tentamos junto com a escola, com o centro espírita e com todos aqueles que influenciam positivamente nossas crianças, criar e manter os melhores hábitos possíveis. E nisto nos tornamos um tanto quanto empiristas ou ambientalistas.

Por outro lado, tendo em vista que nossos filhos são Espíritos reencarnados, não desejamos apenas contribuir para a mudança de hábitos, não queremos que eles sejam autômatos alienados, meros repetidores de normas ou movimentos como vemos no filme Tempos modernos, de Charles Chaplin.

Precisamos, acima de tudo, contribuir para que ampliem a própria consciência a respeito de quem e de como são, do que seja ser cidadão, de como devemos viver em sociedade, tendo senso crítico e espírito solidário em face do mundo desigual no qual nos encontramos.

A própria reencarnação tem também este objetivo de promover em nós a substituição de condicionamentos antigos por novos e saudáveis hábitos; pensamentos pessimistas por outros otimistas, criativos, ricos de alegria e saúde.

O estímulo à prática do bem, seguido da ação concreta e solidária, gera como resposta a alegria de ser útil, a satisfação e a paz da consciência tranquila, bem como novos estímulos para novas e contínuas ações edificantes. Tudo isso numa espiral sem fim onde o Espírito imortal, independente da faixa etária, vai experimentando um prazer diferente que o nutre de um fantástico bem-estar.

São os tais hábitos adquiridos a que se refere Allan Kardec na nota da questão 685a, de O livro dos Espíritos.

A visão pedagógica espírita não despreza a importância de certos condicionamentos, a própria educação e desenvolvimento da mediunidade requer uma dose de automatismo, há posturas recomendáveis e outras dispensáveis no atendimento fraterno, nos passes, nas palestras públicas e, especificamente, no trabalho feito com crianças e adolescentes.

Torna-se um problema quando nos preocupamos mais em condicionar do que ensinar a refletir, homogeneizamos e não respeitamos as singularidades, deixando de promover a participação ativa dos evangelizandos no processo de construção e reconstrução do próprio conhecimento e da própria autodescoberta.

Se assim procedemos, ignorando as potencialidades e talentos, estamos adestrando, subestimando não apenas a bagagem trazida pelos educandos de suas vidas pretéritas, mas amesquinhando o potencial libertador de consciências que a Doutrina Espírita oferece.

Assim, se por um lado é preciso questionar certos aspectos da teoria empirista e do próprio behaviorismo à luz do Espiritismo, por outro, precisamos nos condicionar a pensar que o trabalho de formação (não formatação) do homem de bem requer o desenvolvimento de novos hábitos e esses demandam tempo, esforço, paciência e autoconhecimento, sobretudo nos que desejam educar.

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