Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

Espiritismo cristão e humanitário

junho/2019 - Por Henrique M. de Albuquerque

A bandeira que desfraldamos bem alto é a
do Espiritismo cristão e humanitário.
Allan Kardec

O Espiritismo traz, em sua essência, a excelência dos preceitos da Boa Nova, e é a aplicação verdadeira dos princípios de moral ensinada por Jesus, porque não é senão com o objetivo de fazê-la por todos compreendida, a fim de que por ela todos progridam mais rapidamente, que Deus permite esta universal manifestação do Espírito, como afirmado pelo Espírito Louis de France1.

No mesmo sentido, assinalou Allan Kardec: O Espiritismo (…) assenta suas bases no próprio Cristianismo; sobre o Evangelho, do qual é simples aplicação.2

E ainda: Inscrevendo no frontispício do Espiritismo a suprema lei do Cristo, nós abrimos o caminho para o Espiritismo cristão; assim, dedicamo-nos a desenvolver os seus princípios, bem como os caracteres do verdadeiro espírita sob esse ponto de vista.3

A identidade do verdadeiro espírita com o verdadeiro cristão nos é apontada pelo mestre lionês, como decorrência do Espiritismo bem compreendido, mas sobretudo bem sentido, que nos alça à qualidade de homens de bem, cumpridores da lei de justiça, de amor e de caridade, na sua maior pureza, o que caracteriza o verdadeiro espírita, como o cristão verdadeiro, pois que um o mesmo é que outro.4

Em capítulo de O Evangelho segundo o Espiritismo, lemos o apontamento de Allan Kardec, demonstrando esse laço com o Cristianismo: Assim como o Cristo disse: “Não vim destruir a lei, porém cumpri-la”, também o Espiritismo diz: “Não venho destruir a lei cristã, mas dar-lhe execução.” Nada ensina em contrário ao que ensinou o Cristo; mas, desenvolve, completa e explica, em termos claros e para toda gente, o que foi dito apenas sob forma alegórica. Vem cumprir, nos tempos preditos, o que o Cristo anunciou e preparar a realização das coisas futuras. Ele é, pois, obra do Cristo, que preside, conforme igualmente o anunciou, à regeneração que se opera e prepara o reino de Deus na Terra.5 

Eurípedes Barsanulfo, Espírito, escreveu pela mediunidade de Divaldo Franco: Jesus é o Caminho, a Doutrina Espírita é o estímulo para a jornada pela rota.

O Evangelho é a porta, a Codificação Kardequiana é a chave.

Jesus é o apelo, a Doutrina é o instrumento que no-lO traz outra vez.6

Esta unidade, formada pelo Cristianismo com o Espiritismo, é a base estrutural primordial que permitiu à Doutrina Espírita manifestar o Consolador anunciado7, por atender todas as promessas do Cristo, corroborando que a Doutrina é a do Cristo de acordo com o progresso das luzes atuais8, repetindo afirmativa do Codificador.

O Espiritismo, com seu corpo doutrinário, tem suas raízes fincadas nos ensinos de Jesus, sendo nutrido pela seiva do Seu amor, e, guardando os preceitos qualificativos do Consolador anunciado e esperado, estabelece o compromisso aos espíritas, aos Centros Espíritas e ao Movimento Espírita, de refletirem essa identidade nas palavras e nas ações, na vida das instituições e na vida pessoal de cada um.

A Casa Cristã, que abriga o Consolador, se configura o templo, a escola, a oficina e o hospital para acolher os que atendem o chamado-convite feito pelo Espírito de Verdade: Sou o grande médico das almas e venho trazer-vos o remédio que vos há de curar. Os fracos, os sofredores e os enfermos são os meus filhos prediletos. Venho salvá-los. Vinde, pois, a mim, vós que sofreis e vos achais oprimidos, e sereis aliviados e consolados.9

Revelando a causa do mal, o Espiritismo rasga nova senda à arte de curar e fornece à Ciência meio de alcançar êxito onde até hoje quase sempre vê malogrados seus esforços, pela razão de não atender à primordial causa do mal.10

O coração humano, com seus padecimentos, suas dores, necessita ser acolhido, abrigado e curado (em seu sentido abrangente), com os recursos fraternais e divinos do Meigo Nazareno, para o que Ele conta com nossos corações e nossas mãos para se manifestar em socorro dos sofredores, amoroso que é.

A essência terapêutica própria do Espiritismo reprisa a mesma característica do Cristianismo nascente, que agora revivencia como caminho renovado à arte de curar, com o nome de terapia espírita – preconizada por muitos espíritas, praticada de fato, como devida, e com todo o seu potencial, por poucos, ainda, que, com sua excelência curativa, com todos os seus recursos, precisa estar à disposição das pessoas padecentes, retomando a disposição e prática dos cristãos primeiros, exemplificada por Jesus, que percorria todas as cidades e aldeias, ensinando nas sinagogas deles, e pregando o evangelho do reino, e curando todas as enfermidades e moléstias entre o povo.11

O Espiritismo não é obra que murche na sombra de preconceitos decorrentes do acanhado entendimento de sua essência cristã e da magnitude de sua proposta de bem-estar, em benefício da sofrida Humanidade.

O Espiritismo tem luz própria, que não pode deixar de ser esparzida.

Há que prevalecer o bom senso e a maturidade do senso moral, na vivência espírita pessoal ou nas instituições, não deixando que ganhe domínio o academicismo das letras sem espírito. Se repassadas nos estudos, sem maior substância, instruem, não transformam; explicam, não consolam; convidam, não exemplificam; enaltecem, não amam; atestam, mas não nos faz vivenciar.

Discurso vazio fala ao cérebro, mas não ao coração.

A boca fala o de que o coração está cheio, lembremos!

Falemos daquele conhecimento vivencial, que mexe com o senso de existência e acrescenta significado ao próprio existir.

As pessoas que podem dizer que chegaram a conhecer algo de fato são somente as que mudaram alguma coisa de si mesmas a partir daí, como destaca Edgar Morin, pensador contemporâneo, que, a convite da UNESCO aprofundou alguns saberes que ele chamou de necessários para o milênio recém-iniciado, em benefício da educação do futuro.

Trabalhemos a expansão e elevação das consciências, mas atendamos de imediato as dores da alma, que dilaceram ânimos, desvitalizam esperanças, aconselham descaminhos.

Allan Kardec elucida que o homem de bem Estuda suas próprias imperfeições e trabalha incessantemente em combatê-las. Todos os esforços emprega para poder dizer, no dia seguinte, que alguma coisa traz em si de melhor do que na véspera.12

Aos que se nos acerquem, queixosos, digamos-lhes com a mesma confiança e compaixão, como dito por Pedro ao paralítico sofredor, na porta Formosa, do Templo de Jerusalém: Não tenho prata nem ouro; mas o que tenho, isso te dou.13

Que todos saiam da Casa Espírita ou de nossa companhia, vendo a vida com nova e valorosa significação, como no-la retratou Jesus, falando-nos de Vida em abundância.

Que se dê com todos os atendidos, como consta ainda na mesma passagem com o Apóstolo Pedro, que estava junto com João: saltando, ele pôs-se em pé, e andou, e entrou com eles no templo, andando, e saltando, e louvando a Deus.14

Antes, o pobre coxo permanecia à porta rogando esmolas. Atendido, adentrou o templo para louvar a Deus.

Espiritismo cristão e humanitário é espelho do Consolador.

 

Referências:

1 REVISTA ESPÍRITA: JORNAL DE ESTUDOS PSICOLÓGICOS. Ano IX, v. 5, 1866. Tradução de Júlio Abreu Filho. São Paulo: EDICEL, 1966. O Espiritismo obriga.

  1. Op. cit. Ano IV, v. 10, 1861. Discurso do Sr. Allan Kardec.
  2. Op. cit. Ano IX, v. 4, 1866. O Espiritismo independente.
  3. KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 118. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2001. cap. XVII, item 4.
  4. Op. cit. cap. 1, item 7.
  5. FRANCO, Divaldo. Aos Espíritas. Por diversos Espíritos. Organizado por Álvaro Chrispino. Salvador: LEAL, 2005. cap. 26.

7.BÍBLIA, N. T. João. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Campinas: Os Gideões Internacionais no Brasil, 1988. cap. 14, vers. 26.

  1. KARDEC, Allan. A Gênese. 43. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2003. cap. XV, item 25.

9.______.  O Evangelho segundo o Espiritismo. 118. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2001. cap. VI, item 7.

10.______. A Gênese. 43. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2003. cap. XV, item 35.

11.BÍBLIA, N. T. Mateus. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Campinas: Os Gideões Internacionais no Brasil, 1988. cap. 9, vers. 35.

  1. KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 118. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2001. cap. XVII, item 3.

13.BÍBLIA, N. T. Atos dos Apóstolos. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Campinas: Os Gideões Internacionais no Brasil, 1988. cap. 3, vers. 6.

14.Op. cit. cap. 3, vers. 8

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