Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

Entrevista – Jorge Godinho Barreto Nery

março/2018

Como é o homem, o profissional, o espírita Jorge Godinho Barreto Nery?

Falar de si mesmo nem sempre é bom, mas, posso dizer que nasci em ambiente espírita. Minha mãe era espírita. Desde pequeno, convivi com a mediunidade da minha mãe e, ao mesmo tempo, com as suas orientações. Eu morava no interior da Bahia e não havia, à época, a infância e a juventude, com os estudos, como nos dias de hoje, mas ela me obrigava ir ao Centro Espírita, embora eu gostasse de, no domingo pela manhã, jogar futebol com os amigos.

Eu andava em torno de uns cinco quilômetros para chegar lá. A reunião era realizada por um senhor, praticamente a minha idade [atual] e mais duas senhoras que deveriam ser jovens, embora para mim nenhum dos três parecesse ser. Estudavam-se assuntos do Velho Testamento, do Evangelho, da Doutrina. Fui aprendendo com eles e, convivendo no meio espírita até ir para a Força Aérea. Estava com dezessete, dezoito anos. Ingressei na Força Aérea, onde permaneci até 2014, quarenta e oito anos.

Ao longo desse período, conheci minha esposa, que também é espírita, numa casa de idosos, em Feira de Santana, que minha mãe cuidava. Olhei para ela e senti alguma coisa, uma empatia. Casamos e estamos juntos há quarenta e cinco anos. Durante todo esse período, permanecemos com a Doutrina Espírita em nossas vidas, fazendo um equilíbrio, porque temos uma responsabilidade, todo cidadão tem responsabilidade com a sociedade, com a família, com o trabalho e com a religião que abrace.

Na realidade, podemos dizer que se fizermos esse papel, somos equilibristas com quatro pratos, como são os chineses. Dediquei-me à Doutrina, obviamente, no tempo que tinha disponível. Quando fomos para a reserva, passamos a ter vinte e quatro horas para toda a dedicação.

Tivemos oportunidade de trabalhar no Exterior, junto com os companheiros, nos Estados Unidos e na Suíça. Voltei do Exterior em 2014 e procuramos nos integrar ao Movimento Espírita. Retornamos em 2015 para outra programação, chegando ao Brasil no dia 5 de março. No dia 25, houve eleição na Federação Espírita Brasileira e, quando me vi, eu estava presidente. Essa é a minha vida, da qual, graças a Deus, desde pequeno, a Doutrina Espírita faz parte.

Como presidente da FEB, como é coordenar o Movimento Espírita de um país gigante como o nosso, com diversidades gritantes entre umas e outras regiões?

A palavra que você usou é a correta – coordenar. Coordenar é fácil. Depende apenas de ter habilidade. Mas, o Movimento Espírita, apesar do nosso país ser um continente, eu não digo país, digo continente país, temos essa característica, no mundo não existe outro igual. É um aprendizado. Temos a mancheias todas as informações que  necessitamos.

Quem faz o Movimento Espírita somos nós, as pessoas e, naturalmente, por sermos pessoas, temos, no mundo em que vivemos, saindo de provas e expiações para regeneração, as características próprias de Espíritos endividados que ainda passam por provas e expiações. Então a coordenação desse trabalho traz dinamismo porque há sempre as mudanças das pessoas que fazem o Movimento Espírita.

No Brasil, digo que, se tivermos todos a consciência do dever, dos compromissos que assumimos antes do nascimento, fica fácil coordenar. Não quer dizer que não tenhamos os embates, os desafios naturais, mas, se encararmos com essa naturalidade de estarmos sempre conectados com o Alto, os desafios e as dificuldades se tornam experiências para o crescimento de todos.

Temos que lembrar da regra do Codificador, quando falou sobre a questão de nós, os espíritas e o Movimento Espírita: Trabalho, Solidariedade e Tolerância. O trabalho é comum a todos, mas, ele tem que ser impessoal. O grande problema é quando o personalismo começa a aparecer. A única persona que tem que aparecer é a do Cristo. Temos que ter esse cuidado para fazer com que essas questões sejam trabalhadas de tal forma que tenhamos solidariedade.
Com a solidariedade vem a fraternidade universal. Jesus, na última ceia, falou para os Apóstolos, que deveriam se amar como Ele os amou. Aquilo não ficou restrito apenas àquele momento, foi uma informação de uma fraternidade universal para todos os que desejamos ser discípulos do Mestre. Esse mandamento não pode ser esquecido.

A tolerância vem como sendo aquele momento em que temos que praticá-la, conforme a palavra do Evangelho, no capítulo XIII, item 9, quando Irmã Rosália, falando sobre a caridade moral, diz que temos que nos suportarmos. Observamos que é uma palavra muito forte. Mas, se pudermos praticar no trabalho, a solidariedade e a tolerância, fica fácil. Basta coordenar a equipe toda, com essa consciência. Quando os desvios acontecem e os problemas aparecem, é porque nos desviamos dessas orientações.

Considerando os tempos que vivemos, de novidadeiros, de surgimento de teorias e práticas estranhas à própria Codificação Espírita, surgindo aqui e ali, acredita que podemos falar em unificação do Movimento Espírita?

O grande desafio, neste momento, é conviver com o mal, ou seja, a ausência do bem, sem se contaminar por ele. Somos detentores de um conhecimento para o qual a maioria da Humanidade ainda não despertou. Nossa responsabilidade é maior desde que o conhecimento proporciona responsabilidade. A nossa obrigação é dar o contraponto, a diferença, sermos alegres, termos pensamentos positivos. O pensamento positivo tem poder saneador. Quando o emitimos, essa satisfação começa em nós, no momento em que transmitimos com sinceridade. Para os que temos a visão da imortalidade, sabemos que tudo passa, tudo isso é necessário. E, de tudo temos que tirar o que é bom. O bom é o expurgo que a Terra passa para mundo de regeneração.

Vamos dar um exemplo muito simples: se temos um ambiente para limpar e estamos na escuridão, fica difícil. Só depois que os olhos começam a se acomodar é que varremos naquela escuridão e achamos que ficou limpo. Vem uma lâmpada de quarenta velas. Fica claro e limpamos. No dia em que chega uma lâmpada de cem velas, vamos observar que não limpamos tão bem. É a luz que chega. Então, estamos num momento em que a luz está chegando.

Extrato de entrevista concedida ao setor de
Comunicação Social Espírita da Federação Espírita do Paraná,
na XIX Conferência Estadual Espírita, no Expotrade, em Pinhais,
em 18.3.2017.

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