Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

Entrevista: Francisco Ferraz Batista

“Não há como existir Espiritismo sem Jesus...”

agosto/2010

O presidente da Federação Espírita do Paraná diz que nossas prioridades devem ser
a busca incessante de conhecimento, que liberta; a busca da paz íntima, mas acima de tudo a
prioridade pelo amor.

Marcelo Borela de Oliveira (mbo_imortal@yahoo.com.br – de Londrina)

Francisco Ferraz Batista (foto), natural de Guarapuava (PR), atual presidente da Federação Espírita do Paraná (FEP) e secretário da Comissão Regional Sul da Federação Espírita Brasileira – FEB, que reúne as Federações Espíritas do Rio de janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, é o nosso entrevistado do mês.

Advogado, pós graduado em Direito Empresarial com especialização em Direito do Trabalho, Francisco residiu desde um ano de idade até os 17 anos na cidade de Cruzeiro do Oeste, próxima de Maringá, quando se mudou para Curitiba com objetivo de trabalhar e cursar o ensino superior. Na presente entrevista, além de abordar assuntos relacionados especificamente com o Movimento Espírita no Estado, o confrade expõe com clareza suas ideias acerca de diversas questões doutrinárias que certamente interessarão aos nossos leitores.

Que fato o levou a se interessar pelo Espiritismo, e quando isso se deu?

A necessidade de encontrar respostas para diversos conflitos de ordem pessoal; a prática anterior da Umbanda e o conhecimento com um Pai de Santo de Candomblé, que nos disse textualmente, a mim e à esposa, que o nosso caminho a seguir era o do conhecimento e prática da Doutrina Espírita, sendo ele quem primeiro me levou a um Centro Espírita, a Unificação Kardecista Eurípedes Barsanulfo, na cidade de Ribeirão Preto, no ano de 1984.

Qual foi a reação de sua família ante sua adesão à Doutrina Espírita?

Não tive dificuldades com a família, até porque minha esposa e filhos se encaminharam junto comigo. Quanto às nossas famílias paternas, estas não ofertaram resistência.

Que cargos você já exerceu no Movimento Espírita?

Diretor de DIJ – Departamento de Infância e Juventude, conselheiro e presidente, por cinco mandatos, do Centro Espírita Paz Amor e Caridade, de Curitiba, no qual sou atualmente conselheiro, membro do Departamento Doutrinário e vice-presidente; presidente da União Regional Espírita Metropolitana Leste, de Curitiba, por dez anos; diretor do Departamento de Assistência Social Espírita da FEP; 2° vice-presidente e 1º vice-presidente da FEP.

Dos três aspectos do Espiritismo – científico, filosófico e religioso, qual mais o atrai?

Todos os três aspectos me atraem, eis que são indissociáveis, contudo tenho mais apreço pelo lado filosófico e religioso da doutrina.

Que autores espíritas mais lhe agradam?

Allan Kardec, Léon Denis, Camille Flammarion, Gabriel Delanne, Wallace Leal Rodrigues, Hermínio Miranda e, dentre os Espíritos, Emmanuel, Joanna de Ângelis e Amélia Rodrigues.

As divergências doutrinárias em nosso meio reduzem-se a poucos assuntos. Um deles diz respeito ao chamado Espiritismo laico. Para você, o Espiritismo é uma religião?

Em princípio se deve registrar que a Doutrina Espírita é de livre exame. Assim, qualquer pessoa pode fazer o juízo de valor que lhe aprouver; contudo, tenho a mais absoluta convicção da existência de Deus e de sua ação, logo, todo ato do pensamento que nos liga a Deus, como bem definiu Emmanuel, é o sentimento religioso da vida, dizendo ainda que religião é o ato de ligar a criatura ao Criador, do latim religare. Dessa forma, por mais que queiramos negar o sentimento de religiosidade, a realidade é que, ao falar da Justiça Divina e de suas consequências, o Espiritismo é todo religião, não no sentido de culto exterior, como definiu o próprio Allan Kardec, mas no sentido da alma, do sentimento, ocasião em que ele afirmaria taxativamente: “O Espiritismo, senhores, é sim religião, pois trata das Leis de Deus, de sua Justiça e da Vida Futura”. Respeito aqueles que assim não aceitam, mas prefiro perfilar-me à corrente daqueles que compreendem que o Espiritismo é a materialização do Consolador Prometido por Jesus.

Outro tema que suscita geralmente debates acalorados diz respeito à obra publicada na França por Roustaing. Qual é sua apreciação dessa obra?

Com todo respeito às pessoas que imaginam serem as obras do Sr. Roustaing a revelação da revelação, eu não comungo dessas ideias nem dos ideais prescritos nessas obras. Não vejo nelas a isenção absoluta em face das diversas teologias, principalmente a teologia católica, mas o que mais repele nessas obras é a possibilidade de o Espírito retrogradar e animar corpos de animais e até de lesmas. Assim, prefiro as doutrinas que pregam o progresso constante, sem ilusões ou crendices dogmáticas; e convenhamos, se as ideias apregoadas por essas obras fossem mesmo imortais, o roustainguismo não tenderia a desaparecer, como de fato está acontecendo.

A preparação do advento do mundo de regeneração em nosso planeta já deu, como sabemos, seus primeiros passos. Daqui a quantos anos você acredita que a Terra deixará de ser um mundo de provas e expiações, passando plenamente à condição de um mundo de regeneração?

Que o nosso planeta já se encontra na obra da regeneração de seus habitantes e, por conseguinte, dele próprio, não há dúvida, entretanto, falar em tempo se traduz em algo, para mim, impossível de precisar, até porque temos ainda pela frente 990 anos deste Terceiro Milênio; logo, não há pressa.

Você acha válida a proposta de Kardec pertinente à atualização periódica dos ensinamentos espíritas em face do avanço da Ciência? Em caso afirmativo, como seria, a seu ver, implementada essa medida?

Temos dificuldades grandes de interpretar as inovações e isso estendo ao próprio pensamento do Codificador, Allan Kardec. Segundo o que penso, ele não poderia engessar o Espiritismo, como se fez ao longo do tempo com várias doutrinas que, dado o engessamento, formaram adeptos e não fiéis lúcidos e conscientes.

Quando o Codificador se referiu à atualização periódica, por certo detinha a possibilidade de saber que iria ocorrer no futuro, o que é explicável no capítulo da presciência do livro A Gênese, ou seja, que muitos outros Espíritos viriam após ele e trariam as novas revelações, novas verdades e novas afirmações, desdobrando o conteúdo da Codificação Espírita e formando um corpo maior doutrinário, como de fato ocorreu nas pessoas de desbravadores como: André Luiz, Emmanuel, Joanna de Ângelis, só para citar alguns.

Mas o fato mais significativo é que o Codificador teve o cuidado de dizer que o Espiritismo, como Doutrina, é uma Ciência nova e dinâmica, é uma Filosofia progressiva e é a Religião da alma, que acompanhará as novas descobertas, pelo que reprisamos a sua fala, a saber: “O Espiritismo, avançando com o progresso, jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrarem que está em erro acerca de um ponto, ele se modificará nesse ponto; se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará.” (A Gênese, cap. I – Caráter da Revelação Espírita). Dessa forma, o apressamento de muitas pessoas em não buscar entender esse fato tem levado ao açodamento de muitos que dizem estar o Espiritismo ultrapassado e que deve ser atualizado. Pergunto: Onde? Não obtenho resposta, pois todos os avanços científicos e filosóficos do mundo hodierno, ao menos até aqui, encontram eco nas verdades e orientações dispostas em O Livro dos Espíritos, o que não quer dizer que não haja verdades novas que poderão surgir e às quais o Espiritismo poderá perfeitamente se adaptar e com elas caminhar lado a lado.

Como você vê a questão da apometria?

Com respeito, respeito aliás que devemos estender a todos, mas com profunda preocupação no tocante à sua prática nos Centros Espíritas, dado que não é e nunca foi uma metodologia espírita. Imperioso reprisar que o Espiritismo é uma ciência, definida, testada e aplicada e se sustenta na revelação, através da Universalidade dos Ensinos dos Espíritos, ao passo que a chamada prática da apometria é uma metodologia não espírita que não tem sustentação científica nem sequer filosófica. Desse modo, respeito quem queira utilizar-se dessa prática, mas, por dever de respeito à Doutrina Espírita, as pessoas que desejam aprofundar-se em tal prática deveriam fundar um Centro Apométrico, porque Espiritismo ela definitivamente não é.

Trata-se de uma técnica assimilável pelas instituições espíritas filiadas à Federação Espírita do Paraná?

Entendo que não deva ser. Não é essa a orientação que a FEP fornece às suas Instituições filiadas.

Qual deve ser a atitude dos dirigentes espíritas relativamente a essa enxurrada de obras mediúnicas de origem duvidosa que têm infestado o mercado de publicações espíritas nos últimos tempos?

Devem os dirigentes espíritas adotar a atitude que se espera deles, ou seja, estudo permanente para saber separar o que é bom do que não é, o que é doutrinário do que não é, e, a partir disso, a coragem de lutar pela pureza doutrinária, o que pode levar a contrariar interesses pessoais e de grupos, conscientes de que esse tipo de interesse não constrói doutrina nenhuma, ao contrário, produz fendas na Codificação Espírita. Ante nossos compromissos, cuidemos muito para não cometermos o crime de “lesa doutrina”, o que poderá acontecer se aceitarmos essa enxurrada de inverdades.

Em face da insistência com que alguns confrades têm-se manifestado sobre os assuntos seguintes, perguntamos objetivamente: a) Você acredita que Kardec e Chico Xavier sejam encarnações de um mesmo Espírito? b) André Luiz e o médico Carlos Chagas seriam uma mesma pessoa? c) Ocorre gravidez entre Espíritos desencarnados?

Todas essas ilações para mim significam perda de tempo e desvio de foco. Não comungo dessas interpretações e muito menos de obras que inovam em face do Mundo Espiritual, sem bases científicas e sem a observância do método kardequiano.

O Movimento Espírita em nosso Estado lhe agrada ou falta algo nele que favoreça uma melhor divulgação da Doutrina?

O Movimento Espírita do Paraná me agrada e muito. Há muitos anos que a Federação Espírita do Paraná tem-se dedicado a organizar um movimento espírita doutrinariamente seguro, lógico, sensato, pelo que o Paraná espírita, sem detrimento aos outros Estados, é reconhecido, no contexto nacional, como um novimento lúcido, sadio e operoso. Penso que o que faltava nele estamos, com os pares da Diretoria que assumiu em 2008, conseguindo realizar, ou seja, um movimento de mais fraternidade, de mais auxílio mútuo, seja aos Centros Espíritas, seja às Uniões Regionais Espíritas, de modo que a Federação Espírita do Paraná, podemos dizer, com absoluta ressonância em todo o Estado, hoje é a Casa de todos os espíritas do Paraná, em que o Presidente e demais Diretores da Federação são trabalhadores iguais aos demais trabalhadores dos Centros Espíritas, sem radicalismo, sem divisionismo. A resposta disso tivemos nesses dois anos e três meses de gestão – portanto, em 27 meses – quando filiamos 34 novos Centros Espíritas à FEP, numa proporção de mais de um Centro por mês, ou seja, mais de 10% de todo o total filiado à FEP nos seus 107 anos de existência. Essa é, seguramente, uma resposta que fala mais do que palavras.

O que, na condição de presidente da Federação Espírita do Paraná, você gostaria de fazer e ainda não pôde fazer em nosso Estado?

Graças a Deus e a Jesus, e ainda aos Bons Espíritos, o que planejamos encontrou perfeita ressonância e apoio em todas as regiões do Estado e por esse motivo conseguimos realizar. Certamente temos ainda muitos planos que, com o auxílio de todo esse movimento coeso e operoso e da Espiritualidade superior, haveremos de realizar. Aguarda-se para julho a inauguração oficial do Centro de Treinamento Lins de Vasconcellos, em Balsa Nova, na Grande Curitiba, um complexo de hotelaria para 400 pessoas, com refeitório, auditório, salas de apoio para estudos etc., que já vem atendendo cerca de 180 pessoas, o qual será um marco na preparação dos trabalhadores espíritas de todas as regiões de nosso Estado, proporcionando uma união ainda mais ampliada dos espíritas paranaenses.

Historicamente, a Federação Espírita Brasileira moveu-se sob o signo do assistencialismo, orientado, sobretudo, pelo princípio da caridade. Sem abandonar isso, há, neste momento, no caso do Paraná, uma tendência mais articulada à educação e à evangelização das pessoas?

O caminho certo é o da autoiluminação, a ampliação do conhecimento que leva inclusive a compreender que a fé sem obras é estéril, como a figueira seca. Assim, a FEP centra seu trabalho, em face dos espíritas, na ampliação do conhecimento espírita e, em face dos necessitados, na promoção social, com instrução, pelo que, dentre suas atividades, há que se destacar a Escola Profissional Maria Ruth Junqueira, que completa este ano 50 anos de atividade ininterrupta e que opera hoje com duas unidades em Curitiba, com 34 cursos profissionalizantes em três turnos, formando uma gama anual de 16.000 alunos, de forma direta e em parceria com o setor público, mais precisamente a Fundação de Ação Social do Município de Curitiba.

O que você acha que os espíritas podem fazer para que o movimento espírita atue de forma mais intensa junto aos diversos setores da Sociedade?

Participando das ações comunitárias; envolvendo-se com as questões sociais, e mesmo as questões de políticas sérias, sejam públicas ou ideológicas; estabelecendo parcerias com os setores privados e públicos; dando a sua contribuição efetiva para uma Sociedade mais justa e mais fraterna.

Como você analisa o nível da criminalidade e da violência que parece aumentar em nosso Estado, e como nós, espíritas, podemos cooperar para que essa situação seja revertida?

A criminalidade e a violência são distúrbios de uma sociedade ainda doentia, e uma sociedade é doente quando a maioria dos Espíritos que a compõem também o é. Mas o fato não ocorre somente em nosso Estado, e sim em todo o mundo. Quanto mais o homem teimar em se afastar de Deus, o que significa descumprir as suas leis, mais a Sociedade, como diz Joanna de Ângelis, se enfraquece e estertora. Às religiões sérias, e há várias, dentre elas o Espiritismo, cabe o papel de debelar a ignorância dos Espíritos, fazer com que eles busquem sua melhoria íntima, falando-lhes de Deus, de suas Soberanas Leis, do erro e das suas consequências, da dor e do seu papel de agente de correção, e da esperança da felicidade. Quando pudermos pacificar o nosso espírito, aí seremos também pacificadores dos outros e, por consequência, da Sociedade terrena, e o crime desaparecerá, como também a violência. Mas, para que isto aconteça, é necessário muito esforço individual e coletivo.

Em face de todos os problemas que a Sociedade terrena está enfrentando – terrorismo, corrupção, desigualdades sociais, consumo desenfreado de drogas, guerras incessantes – qual deve ser a prioridade dos que dirigem atualmente o Movimento Espírita no âmbito municipal, regional e nacional?

São muitas as prioridades: a busca incessante do conhecimento, que liberta; a busca da paz íntima, mas acima de tudo a prioridade pelo amor. Amar é o verbo que devemos conjugar em todos os segundos, minutos e horas de nossa existência. Viver Jesus!… Não há como existir Espiritismo sem Jesus.

O Mestre nos falou, há quase dois mil anos: O que falo, falo por meu Pai, que me enviou. Desse modo, o trabalho dos dirigentes espíritas deve ser incansável, primeiro, domando as imperfeições próprias e, depois, doando-se na direção de difundir esse Consolador que ampara e orienta, levanta e promove, sem cogitar de satisfações pessoais e interesseiras, que nos afastam da vera Doutrina e, portanto, nos afastam do Cristo de Deus.

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