Jornal Mundo Espírita

Dezembro de 2019 Número 1625 Ano 87

Entrevista – Divaldo Pereira Franco

fevereiro/2018

Divaldo, 90 anos de vida, 70 anos de oratória espírita, uma semeadura de bênçãos inigualável. Fazendo um balanço de tudo que produziu e continua produzindo, como você vê sua própria trajetória? Foi além do esperado, do concebido por você, na juventude, ao iniciar a sua caminhada?

Quando era jovem tinha a preocupação de que breve seria a minha existência na Terra. Relativamente, os jovens, em geral, têm essa preocupação de que não lograrão uma existência longa. Desde o dia em que proferi a primeira palestra, 27 de março de 1947, em Aracaju, passei a ter a certeza de que o Espiritismo ao deslumbrar-me, preencher-me o vazio existencial, me proporcionaria oportunidades muito vastas de levar a mensagem adiante. Eu era muito jovem e, àquela época, os jovens, invariavelmente, não se envolviam com as questões da Doutrina a exceções grandiosas, como Ivan de Albuquerque e outros.

Para nós, no Nordeste, não havia nenhum exemplo e eu sentia uma necessidade imensa não só de expor, mas de viver. A primeira preocupação que tinha era incorporar o Espiritismo ao meu modo de vida. Felizmente, as minhas bases religiosas da Doutrina Católica favoreceram-me porque tinha o hábito de orar, tinha o hábito de meditar, havia adquirido o hábito de aprofundar os conceitos em torno do pensamento de Jesus. Foi muito fácil, tirei somente as anfractuosidades dogmáticas e encontrei na essência o pensamento do Mestre. Entreguei-me, de tal forma, que me esqueci das outras coisas. Certo dia, alguém me perguntou: “Por que você não se casou?”

Eu disse: “Porque não me lembrei.”

A Doutrina me preencheu de tal forma que não me ocorreu. Quero dizer, evocando Chico Xavier com Emmanuel – afinal, o verdadeiro casamento, que é um compromisso legalizado pelas determinações de cada país, é esse sentimento de união, com qualquer coisa, com qualquer ideal e, principalmente com um parceiro que seja realmente parte da nossa vida para a grande obra. Então, realmente, às vésperas dos noventa anos, posso dizer que lamento não ter sabido aproveitar melhor o tempo e não ter podido entregar-me de todo a essa Doutrina fascinante e libertadora.

Os grandes médiuns como Francisco Cândido Xavier, Yvonne do Amaral Pereira já adentraram a Espiritualidade. Não temos visto surgirem médiuns seguros, de potencial semelhante a desses missionários.

Isso sinaliza que adentraremos em nova fase da Doutrina Espírita, uma fase em que não teremos produção tão vasta e tão segura de obras mediúnicas?

Quando vejo algumas mensagens frívolas, rotuladas com nomes de alta importância; quando vejo indivíduos cultos tornarem-se menos para venderem livros, por causa da mística que envolve o médium; confesso que sinto uma grande dor no coração porque se nasce médium, não se fabrica a mediunidade.

Kardec, com propriedade, disse que a mediunidade é uma faculdade orgânica, então, ela tem seus primórdios, tem as suas manifestações empíricas, perturbadoras, tem as obsessões, as experiências com os Espíritos mais materializados até poder desenvolver-se através do esforço moral do médium. Conheço pessoas que jamais tiveram essa sensibilidade, são excelentes escritores e passaram a se rotular como médiuns, recebendo Entidades venerandas cujo conteúdo não corresponde ao valor que o Espírito possui.  E vendem porque as pessoas não estão esclarecidas da universalidade do ensinamento. Isso traz um pouco de melancolia. As figuras ímpares de Chico Xavier, de Yvonne do Amaral Pereira, de Zilda Gama e de um número enorme de pioneiros da mediunidade fazem lembrar da seriedade, dos sofrimentos, do calvário que viveram, antes do festival da mediunidade aplaudida em detrimento da transformação moral do próprio médium.

Penso que recebemos informações tão valiosas até este momento que novas adições seriam desnecessárias porque necessitamos incorporar o que recebemos. Um dia, me disse Chico Xavier: “Ao desencarnar eu não virei ditar mensagem alguma porque tudo o que eu posso dizer já foi dito por Emmanuel. Não irei repeti-lo com a mesma grandeza, irei para outro trabalho e não me complicarei.”

De fato, tenho lido algumas páginas a ele atribuídas e que nada têm a ver. Isso é um grito de alerta para que leiamos também os autores encarnados, portadores de um longo patrimônio, e que este momento é o da vivência de todo esse material que nos foi dado. André Luiz permanece ainda desconhecido. Cada vez que se faz uma descoberta que confirma André Luiz é fascinante. Emmanuel, nas interpretações evangélicas. Vemos hoje a psicologia transpessoal repetir ipsis verbis aquilo que Emmanuel já havia dito. E assim por diante. As revelações através de Yvonne do Amaral Pereira tão profundas. Essa senhora foi crucificada em vida para colocar a mediunidade nos padrões kardequianos, sem nenhum equívoco, até a morte gloriosa.

Então, parece que nesta transição, essas novidades fazem parte do período e logo mais a mediunidade, como está prevista no capítulo II, dos Atos dos Apóstolos, se espalhará entre todas as criaturas. Médiuns, em potenciais diferentes, poderemos exercer os fenômenos da telepatia, os fenômenos anímicos, de incorporações de Entidades venerandas em nossas Casas de Beneficência, de caridade, de desobsessão, de socorro. Sob esse aspecto, assim acredito.

Extrato de entrevista concedida ao setor de Comunicação Social Espírita da Federação Espírita do Paraná, na XIX Conferência Estadual Espírita, no Expotrade, em Pinhais, em 18.3.2017.

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