Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

Entrevista – Alessandro Viana Vieira de Paula

abril/2018

Qual a sua visão do Movimento Espírita, em geral: não estamos perdendo o rumo estabelecido pela Codificação, em termos de unidade de pensamento, considerando a enxurrada de publicações ditas espíritas, nem sempre de boa qualidade?

Isso tem acontecido. Não teria condições de dimensionar em termos de porcentagem do nosso Movimento Espírita.  Encontramos muitas Casas Espíritas boas, trabalhadores, pessoas estudiosas, mas também encontramos uma grande parte de desinteressados em estudar verdadeiramente a Doutrina.

Quando se fala em unidade de pensamento, de doutrina, não podemos esquecer da unificação do sentimento que, muitas vezes, decorre da falta de estudo. Percebem-se no Movimento Espírita os melindres, brigas, divisões. Enquanto não aprendermos a conviver pacificamente, essa unificação doutrinária fica muito complicada. É verdade que tem faltado estudo à grande parte do Movimento Espírita, abrindo uma brecha para que obras de péssima qualidade surjam e sejam aceitas. O problema não é a obra surgir, o problema é ser aplaudida, enaltecida, amplamente divulgada dentro do Movimento Espírita, sem nenhum critério, sem nenhum bom senso. Esquecemos de uma premissa que o Codificador anota na Revista Espírita e nas demais obras da Codificação, que é a universalidade do ensino [dos Espíritos]. Muitas obras de má qualidade, que trazem ideias esquisitas, confusas, vêm por um médium só. Allan Kardec fala da universalidade do ensino. A falta de estudo faz com que essas ideias estranhas cheguem à Doutrina Espírita, sejam aceitas e acabem gerando divisões, confusões, atritos. Verificamos isso por parte do Movimento Espírita, por conta dessa carência em estudar a Codificação, voltar aos clássicos da Doutrina Espírita. Quando se pergunta sobre Léon Denis, Gabriel Delanne, Camille Flammarion, Herculano Pires, Cairbar Schutel, Deolindo Amorim, Yvonne do Amaral Pereira, não encontramos  referência deles.

.Então, é o momento de resgatarmos Kardec e os clássicos da Doutrina, Chico Xavier, para que possamos ter base sólida doutrinária. Daí, essas obras de má qualidade, naturalmente, não serão aceitas, irão deixando de existir dentro do Movimento Espírita.

Em sua opinião, as mídias sociais, com suas possibilidades enormes, tanto para o bem quanto utilizadas negativamente, favorecem ou constituem um entrave à nossa evolução, ao surgimento do homem novo?

Nós podemos fazer uma análise sob duas perspectivas. É fato que a mídia, a tecnologia, a Internet, as redes sociais são uma ferramenta neutra. Cabe ao indivíduo fazer bom ou mau uso, mas, como a maioria das criaturas humanas tem essa dificuldade moral, Joanna de Ângelis aponta que, por falta de moral, a criatura humana ainda não aprendeu a usar bem a tecnologia.

Ela se distrai demais com a tecnologia, perde tempo com as conexões da Internet. Às vezes, passa muito tempo com bate-papos vazios. Vemos pessoas a todo momento conectadas, mexendo no celular sem que isso lhes traga nenhum aprendizado, nenhum crescimento.  Como, às vezes, faltam recursos morais, para grande parte dos habitantes da Terra, esse excesso de tecnologia pode gerar essa distração para as questões reais.

Também é verdade que as pessoas conscientes podem usar essas ferramentas para ajudar, e muito, na divulgação espírita. Allan Kardec, quando dividiu os quatro períodos do Espiritismo, na Revista Espírita, assinalou como quarto período – A influência sobre a ordem social.  É o que estamos vivendo no momento.  Ele fala que um dos meios de influenciar a ordem social é atingir as massas e atingimos as massas também pelas redes sociais. Então, publicando uma mensagem, um texto, uma palestra no Youtube, podemos gerar essa colaboração para a divulgação do Espiritismo, para o bem do Evangelho.

Deixamos essas duas perspectivas, uma negativa, do ponto de vista moral, pelas distrações que traz. Há pessoas que ficam horas na Internet sem fazer nada, matando tempo, perdendo tempo. E há outras que ficam muito tempo, divulgando, aprendendo, estudando, consultando.

Sabemos do seu projeto com respeito à Revista Espírita, de Allan Kardec, numa parceria entre a FEB e a editora Fráter. Poderia nos falar a respeito?

Nas nossas palestras, visitas a Casas Espíritas, sempre tive o hábito de fazer uma enquete, perguntar sobre a Revista Espírita. Notei que menos de 1% do público espírita já a leu integralmente. Onze anos e quatro meses, aproximadamente, de Revista Espírita. Eu queria, de alguma forma, colaborar para a sua divulgação. Então, inicialmente, fui incorporando às minhas palestras mais textos da Revista Espírita para chamar a atenção. Depois, surgiu a ideia de estudar toda a Revista Espírita, fazer uma aglutinação por temas. Criei oito temas para que rendesse um livro de três volumes. Isso nos diz quanto a Revista Espírita é grandiosa. O título, Um tesouro inestimável, é exatamente isso, temos um tesouro imenso na Doutrina Espírita, que é a Revista Espírita, que tem ficado um pouco à margem, esquecida.

Trouxe uma parte, quinze a vinte por cento, da Revista Espírita para esses três volumes, para despertar o interesse para quem, inicialmente, em lendo a obra, possa buscar integralmente a Revista Espírita, que é algo interessante. Muitas pessoas se esquecem disso.

Particularmente, nela aprendi a conhecer mais Allan Kardec. Ali, temos textos mais longos do Codificador, permitindo conhecer um pouco melhor a sua personalidade. Muitas vezes, o Espiritismo é atacado. Allan Kardec defendia o Espiritismo, mas com elevação, pacífico, sem devolver ofensa, sem agredir ninguém. Algo que também muito me chamou a atenção é essa personalidade pacífica de Allan Kardec, o seu bom senso e a sua pedagogia, o que se verifica bastante nos textos da Revista Espírita.

 

Extrato de entrevista concedida ao setor de Comunicação Social Espírita
da Federação Espírita do Paraná, na XIX Conferência Estadual Espírita,
no Expotrade, em Pinhais, em 18.3.2017.

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