Jornal Mundo Espírita

Agosto de 2020 Número 1633 Ano 88

Entrevista – Alberto Almeida

junho/2017

Estamos habituados a ouvir o conferencista, a ler o escritor espírita. Como é o homem Alberto Almeida, no mundo, na administração do atendimento à família, à profissão, ao movimento espírita?

É uma articulação que está estabelecida desde o início das minhas atividades, à medida que fui saindo para a divulgação do Espiritismo. Há um contrato familiar, nessa composição, de modo que as coisas pudessem ficar bem distribuídas e a contento de todas as partes. Digo que quando viajo, eu experimento o relaxamento e quando eu volto, trabalho e vice-versa.

Certa feita, passei um mês e meio sem viajar e a impressão que eu tinha é que estava de férias. Estava faltando alguma coisa. Dei-me conta do quanto também as viagens representam responsabilidades. Isso gera um nível de preocupação, de tensão que é relativo ao grau de desafio do trabalho proposto. Quando uma atividade é, por exemplo, muito conflitiva, encontro de trabalhadores ou numa região, que é um terreno minado, onde existem divergências, às vezes acentuadas, percebo que há uma necessidade de uma melhor preparação. Esse investimento interno gera uma tensão psíquica. Então, esse período em que fiquei um mês e meio sem viajar, me pareceu estar de férias do trabalho. Mas, eu estava trabalhando profissionalmente, normalmente, as atividades espíritas em Belém regularmente.

Essa composição é muito saudável porque é a mudança de atividades e essa mudança relaxa numa perspectiva e proporciona vitalização em outra.

Alberto, você nos tem trazido palestras e seminários em que destaca a amorosidade como estratégia nos relacionamentos interpessoais. Em se falando de atividade junto a crianças de rua ou com nossos próprios filhos, essa estratégia sempre dá certo? Não existem criaturas que parecem inacessíveis a essas demonstrações, reagindo mal, inclusive?

Penso que o relacionamento humano é o que há de mais desafiador na Terra. Quando há uma contraposição que ressalte diferenças, esse relacionamento é mais enriquecedor. Lidar com os filhos em casa demanda diferenças menores porque há uma hierarquia de comando, no sentido da educação; há princípios e valores que vão sendo cultivados desde criança, desde que os Espíritos estão renascendo. Então, se tem um ambiente mais ou menos controlado. Quando se vai para debaixo de uma marquise, numa praça pública, esse processo está completamente oposto porque há uma vulnerabilidade e uma imprevisibilidade do que vai acontecer e se precisa, portanto, mobilizar outros conteúdos da alma.

Às vezes, chegamos para desenvolver atividades com crianças de rua e apenas deixamos o alimento, não conseguimos ficar, tal, naquele dia, o nível de risco. Não podemos, de modo algum, ficar. De outras vezes, não. Então, esses espaços de rua e de casa e, entre eles, a Instituição na periferia, são níveis diferentes que, de alguma forma, demandam conteúdos internos, que nos acionam possibilidades de exercícios no campo da amorosidade e que nos premiam porque crescemos muito nessa relação.

Quanto mais diferente a relação, mais rica ela é. Diferença de idade, de cultura, de classe social, de religiosidade, de competências intelectuais… Penso que o amor pode trafegar em todos esses níveis, não são processos excludentes – daí o exercício da amorosidade.

Quando Jesus resolve nos exemplificar, Ele vai desde a sinagoga, do templo, que é o espaço com alta respeitabilidade dentro daquela cultura, até a via pública, até o contato com uma meretriz, com aquele que por onde Ele passa, pede ajuda. Ele vai para os diferentes movimentos. Creio que a amorosidade se espraia, na medida em que  conseguimos articular um processo relacional que afere como estamos conosco mesmos e nos habilita a desenvolver recursos e talentos de que ainda não dispomos. Ou dispomos, de uma forma, às vezes, precária, ou de forma até razoável e abre espaço para que esse conteúdo possa emergir numa troca sempre muito rica. Penso que precisamos  valorizar a amorosidade em qualquer espaço onde sejamos convidados a conviver.

Alguns estudos apontam que as redes sociais podem provocar um isolamento em termos de contatos reais. Qual sua visão a respeito? Estamos caminhando para nos distanciarmos uns dos outros? Isso não estaria em desacordo com a Lei de Amor que deve reinar na Nova Era?

Como tudo na vida, depende da forma como se estabelece o uso. A rede social pode estar a serviço de uma comunicação muito rica, mas pode estar a serviço da defesa de alguém que tem dificuldade de fazer relações presenciais, que se exclui de interações mais ricas. Há muitas pessoas que chegam a processos psiquiátricos usando rede social para não fazer contato presencial com as pessoas. Isso pode se dar dentro de casa. Às vezes, os jogos para as crianças, o acesso ao celular, ao Youtube, por exemplo, empobrece a relação presencial.

Nessa cultura do celular hoje, pode-se correr o risco de um isolamento social. Você chega numa sala que tem sete pessoas e cada uma está com seu celular. As relações ficam empobrecidas porque cada uma estando com seu celular não se troca. Quando estamos juntos, sem celular, começamos a perguntar um ao outro:“E, aí, como é que estão em casa, sua mãe, seu pai?”

E se começa a tecer uma relação, eu começo a interagir com você, a acessar a sua vida, você a minha. Começamos a criar laços, presencialmente, que escasseiam quando nos encontramos em qualquer espaço social, seja o profissional, o familiar, companheiros espíritas porque todo mundo tem que atualizar a sua comunicação virtual.

O whatsapp ainda está num sistema de viciação, não conseguimos adquirir habilidade para usá-lo, de forma adequada. Eu ainda não tenho o Whatsapp, por incrível que pareça, muito embora reconheça que é uma ferramenta fundamental nos dias modernos, imprescindível.

O progresso vem mas, a forma como vamos nos educando para lidar com o Facebook, com o Instagram, o Whatsapp, com as redes sociais, de um modo geral, demanda tempo. Enquanto isso vai se estabelecendo, é algo que faz com que o jovem esteja conectado com cem jovens, sem sair da sua cama, sem sair de casa. Ao mesmo tempo em que ele está articulando um encontro, um movimento ou uma ONG, ele pode estar usando isso para permanecer na solidão, para não fazer contato presencial, para defender-se de uma fobia social que experimenta. Ele se esconde através dos jogos ou através das atividades, contatos que são virtuais.

 Penso que tudo tem uma medida certa. Tudo nos é licito, na fala de Paulo [Apóstolo], mas, nem tudo nos convém. Se você tem cem grupos de Whatsapp, não consegue atualizar-se ou você fica dependente do Whatsapp. É muito difícil porque ainda estamos aprendendo a lidar com as mídias sociais. De modo algum, elas devem comprometer a qualidade das nossas interações.

 

Entrevista concedida ao setor de Comunicação Social Espírita da Federação Espírita do Paraná,
na XIX Conferência Estadual Espírita, no Expotrade, em Pinhais, em 18.3.2017.

 

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