Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

Entre interpretações e certezas

outubro/2019 - Por Cristiane Maria Lenzi Beira

O equipamento cerebral humano é tão complexo que, mesmo diante do impressionante conhecimento acumulado e da moderna tecnologia desenvolvida pela Humanidade, ao longo dos milênios, hoje pouco ainda se conhece a respeito desse órgão, levando-se em consideração toda sua potencialidade e habilidades.

Alguns pesquisadores da mente, na tentativa de desvendar o funcionamento dos recursos mentais, descobriram, dentre outras coisas, que nosso cérebro processa as informações captadas pelos órgãos do sentido, de maneira não apenas objetiva, mas também interpretativa, realçando, inclusive alguns aspectos de tais dados4. É como se houvesse um outro em nós, ajudando-nos com análises, comparações e conclusões a partir do que percebemos do mundo exterior.

Kant, para explicar sua percepção a respeito desse tema, afirmava que nós construímos ativamente uma imagem do mundo, não apenas documentamos eventos objetivos; nossa percepção não se baseia apenas no que existe, mas é de alguma forma criada – e restringida – pelos aspectos gerais da mente (KANT apud  MLODINOW, 2013, p. 39).

É por isso que, muitas vezes, juramos ter visto ou ouvido algo que, em verdade, não existiu (excluindo os efeitos gerados mediunicamente), mas foram criados pelo nosso cérebro, antecipando acontecimentos, com base em situações previamente vivenciadas. Por exemplo, ao nos depararmos com uma mancha escura numa parede, podemos visualizar, primeiramente, um inseto, chegando a enxergar detalhes dele para depois perceber que era apenas a sombra de um objeto. Outras vezes, ao avistarmos alguém na rua, temos a certeza de ser um amigo conhecido até notarmos que apenas se parecem, mas não são a mesma pessoa.

Algo semelhante a essas interpretações pode acontecer no âmbito das relações sociais e culturais. Ao observarmos algum acontecimento social, por exemplo, podemos tirar conclusões, crentes de que estamos vendo claramente a situação quando, em realidade, aquilo que chamamos de certeza, pode não ser nada mais do que a interpretação do outro (ou outros) que existe em nós, a partir dos dados colhidos pela nossa percepção de mundo.

É por isso que, em tempos de debates de opiniões na sociedade, verificamos a presença de tantas certezas contraditórias. Todos os lados que participam das trocas de opiniões se mostram absolutamente certos com relação ao que pregam, não compreendendo como os outros lados envolvidos podem se apresentar tão cegos diante da verdade, sem nos darmos conta de que aquilo que chamamos de verdade é simplesmente nossa interpretação da realidade!

O mecanismo cerebral por trás das análises mentais, que parece funcionar de forma automática, foi desenvolvido ao longo do processo de evolução humana. O cérebro foi sendo estruturado para auxiliar na sobrevivência de nossa espécie.

Ao se depararem com um animal grande, peludo e com dentes fortes à mostra, nossos ancestrais não poderiam ficar muito tempo na presença dele, reunindo informações para então decidirem se haveria risco ou não. Caso isso acontecesse, seriam devorados, certamente! O cérebro, então, organizou-se para que, com o mínimo de informações colhidas pelos órgãos do sentido, fosse disparado o mecanismo de preservação, como a liberação de adrenalina no sangue, por exemplo, e nossos ancestrais pudessem fugir o quanto antes5. Talvez algumas vezes os homens primitivos escaparam do que consideraram perigo sem precisar, assustados, sem notarem que, na verdade, o suposto animal ameaçador não era nada mais do que a sombra de um arbusto. No entanto, de maneira geral, esse outro que existe em nós e que nos faz acreditar em coisas que parecem reais, mas são apenas produto de interpretações da realidade, é que nos permitiu chegar onde estamos hoje, seguros e mais evoluídos.

Nossa forma de encarar o mundo, de analisar os acontecimentos e de elaborar pontos de vista com aparência de verdades, então, é resultado de milhões de anos de aprimoramento cerebral. Ao fazermos nossas observações a respeito do que percebemos do mundo exterior, elaborando estratégias de adaptação, estamos garantindo maior chance de sobrevivência. Para isso, nosso cérebro se tornou especialista em comparar, classificar, categorizar e diferenciar. Isso facilita nossa vida e nos poupa energia mental, por ser um mecanismo praticamente automático. Simplesmente temos a sensação de receber uma análise de dados pronta, oferecida por esse outro que existe em nós.

O problema, no entanto, não está no funcionamento desse mecanismo de análise em nosso cérebro, pelo contrário, pois é uma evolução para a espécie humana, mas no fato de acreditarmos que ele está sempre e absolutamente certo. As versões elaboradas por nossa mente, a partir do panorama situacional captado pelos órgãos de sentido, ajuda-nos na tomada de decisões mais acertadas, mas não significa que descobrimos a verdade absoluta, e sim que temos uma possibilidade de explicação ou de entendimento.

Talvez seja por causa disso que Jesus nos ofereceu o alerta do não julgueis.1 Fisiologicamente falando, isso é praticamente impossível, justamente porque a ciência hoje nos prova que nosso cérebro foi desenvolvido para avaliar, discriminar, categorizar, ou seja, julgar as situações a partir das informações registradas, oferecendo-nos, então, possibilidades de compreensão da realidade. Decerto o Mestre de Nazaré desejava nos prevenir quanto à tentação de entendermos nossos julgamentos como sinônimos de verdades absolutas.

Dessa forma, avaliar situações, analisando-as conforme nossas experiências anteriores nos permitem, estando mais habilitados para as escolhas que fazemos, é um tipo de julgamento correto e inteligente, programado em nossa mente pelo processo de evolução. A falha apontada por Jesus nos procedimentos de julgamento não está na análise em si, mas no resultado dela, caso avaliemos nossas conclusões como sendo verdades e as decretemos, desconsiderando as opiniões de outras mentes.

Os benfeitores espirituais nos oferecem maiores esclarecimentos, quando Kardec os interroga a respeito da análise de defeitos alheios, desejando saber se esse comportamento deveria ser considerado contrário à moral e recebendo a seguinte orientação: Se o fizer, para tirar daí proveito, para evitá-los, tal estudo poderá ser-lhe de alguma utilidade3.

Percebemos, então, que a análise dos comportamentos e atitudes alheias não constitui um mal em si, mas o uso que de tal observação faremos é que lhe dará um teor positivo ou negativo.

A advertência de Jesus para não julgarmos, portanto, não se refere ao fato de evitarmos observar os acontecimentos e atitudes dos nossos semelhantes, até porque nosso cérebro está equipado para estabelecer comparações de forma autônoma. O que o Mestre nos recomenda é que tenhamos sempre em mente a utilidade de tal ação, procurando ampliar nossa consciência a respeito do tema em observação, mas também cientes de que nossas considerações não representam necessariamente a verdade, ainda que tenhamos a sensação de que estamos muito certos a respeito de nosso ponto de vista.

Diante de tal constatação, seria interessante revisitarmos nossas opiniões a respeito dos temas em debate em nossa sociedade atualmente, mantendo atenção no fato de que, por mais que sintamos em nosso mundo íntimo que nosso ponto de vista é coerente e irretocável, a verdade é que nossa teoria pode ser apenas uma possibilidade de explicação, fruto da análise de nosso cérebro, ao compararmos elementos do mundo de fora, a partir das informações registradas em seu equipamento mental.

O psicanalista Erich Fromm apresenta uma teoria que busca explicar as raízes de muitos comportamentos sociais, demonstrando que grande parte das dificuldades geradas nos relacionamentos se deve ao fato de que o ser humano interpreta equivocadamente sua relação com o mundo, colocando-se numa posição ilusória. O autor afirma, por exemplo, que usamos demasiadamente o verbo ter, gerando-nos a impressão de que possuímos ou somos detentores de coisas que, de fato, são passageiras. Por exemplo, ao dizer tenho dor de cabeça, o ser humano pode, inconscientemente, fazer uma leitura como se fosse dono da dor, ou seja, a dor lhe pertence e, por isso, acaba delongando sua relação com ela mais do que seria necessário. Se dissesse, por outro lado, estou com dor de cabeça, poderia direcionar sua atitude mental de forma que acreditaria que em breve o incômodo passaria, por ser entendido como apenas um estado passageiro2.

No que se refere ao debate de temas e ideias, Fromm explica que quando nos acreditamos possuidores da verdade, afirmando, por exemplo: tenho certeza disso ou daquilo, colocamo-nos em atitude de donos da verdade, e, portanto, fechados ao diálogo e inflexíveis a diferentes pontos de vista. Nesse caso estaríamos nos distanciando da recomendação de Jesus para não julgarmos. Se, por outro lado, nos programássemos para a posição de quem percebe a situação de tal ou qual forma, conscientes de que nossa opinião pode ser revista, ampliada ou reformulada, então, estaríamos nos posicionando de forma mais aberta e flexível, evitando cair em julgamentos e nos precavendo de arrependimentos posteriores.

Não sabemos tudo, não estamos em condição, ainda, de explicar tudo e, por isso, encontramo-nos distantes de conseguir controlar tudo. Perseguir a condição de ser um sabe tudo – é gastar tempo de crescimento e gerar sofrimento futuro. É verdade que estamos fadados ao progresso e é fatal que um dia seremos perfeitos espiritualmente, mas enquanto estivermos no processo de evolução, quanto mais abertos aos diferentes pontos de vista e quanto menos seguros de nossas certezas, mais inteligentemente caminharemos pela Terra e nos relacionaremos socialmente.

Nesses tempos tumultuosos, então, quando cremos ter certeza de tudo e, ao mesmo tempo, pressentimos que, em verdade, estamos distantes da visão real dos acontecimentos, lembremos de Jesus, pacificando nossos sentimentos com Suas recomendações para não nos apressarmos em julgamentos, estabelecendo nossos pontos de vista como verdades decretadas e irrevogáveis, afinal, nosso mundo é passageiro e não ficará pedra sobre pedra, até que alcancemos graus de evolução onde o bem predomine e a verdade seja finalmente conhecida. É inteligente, portanto, de nossa parte a aceitação de nossos limites e imperfeições de pensamento, próprios de nosso grau de evolução.

Assim sendo, a recomendação evangélica do vigiai e orai nunca foi tão necessária! Menos certezas, mais vigilância de pensamento. Menos verdades, mais oração e conexão com Deus.

 

Referências:

1 BÍBLIA, N. T. Mateus. O novo testamento: português e inglês. Tradução de João Ferreira de Almeida. Campinas: Os Gideões Internacionais do Brasil, 1988. cap. 7, vers. 1.

2 FROMM, Erich. Ter ou ser? 4. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2011. p. 50.

3 KARDEC, Allan. O livro dos Espíritos. 83. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2002. pt. 3, cap. XII, q. 903.

4 MLODINOW, Leonard. Subliminar: como o inconsciente afeta nossas vidas.  Rio de Janeiro: Zahar, 2013.  p. 57.

5  Op. cit.  p. 174.

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