Jornal Mundo Espírita

Fevereiro de 2021 Número 1639 Ano 88

Entre a flexibilidade e a firmeza na educação dos filhos

janeiro/2021 - Por Cristiane Lenzi Beira

Em um estudo sobre as virtudes, o filósofo Aristóteles as localiza como a medida entre dois vícios, como o meio-termo entre o excesso e a falta, que não é nem demasiado nem muito pouco, ou seja, aquilo que é equidistante em relação aos extremos1. Assim, a generosidade, por exemplo, seria a virtude, enquanto a avareza e a prodigalidade seriam os vícios correspondentes, pela escassez ou exagero do uso dos recursos financeiros direcionados aos que necessitam, respectivamente.

O raciocínio apresentado pelo filósofo pode ser um bom instrumento norteador de vidas, no que se refere a comportamentos e escolhas, por trazer um convite à prática do equilíbrio e do bom senso. E esse método pode ser aplicado em todas áreas e âmbitos das relações humanas, inclusive na forma como os pais educam seus filhos.

A educação poderia ser explicada como um processo no qual a figura de autoridade e responsabilidade conduz o bebê da total inconsciência até se tornar adulto, consciente. Durante o período em que vive mergulhado no inconsciente, durante os primeiros meses de vida, o bebê se encontra num ambiente em que vive a dependência, a fragilidade, mas é, também, acessível aos estímulos recebidos de suas figuras de referência. Essa fase se estende, gradativamente, em direção à consciência.

Desde seu nascimento até se tornarem adultos e, portanto, responsabilizarem-se por si mesmos, a criança e o jovem sofrem a influência dos pais no processo de estruturação da própria vida. Os benfeitores espirituais descrevem os filhos como sendo brandos e acessíveis aos conselhos da experiência e dos que devam fazê-los progredir2. É a forma que a Divindade se utilizou para impulsionar o progresso espiritual, como se o ser humano pudesse, a cada reencarnação, recomeçar a construção da vida, com a sensação de que tudo é novo.

Espera-se que o adulto, fruto de uma educação equilibrada e suficiente, seja consciente e, portanto, capaz de utilizar recursos como: pensamento racional, coerência e bom senso, decisões pautadas no equilíbrio, autonomia e continue seu processo de autoconhecimento, cada vez mais próximo do Si mesmo, ou seja, de sua essência, a fim de viver a própria vida, buscando suprir as próprias necessidades, sem estar impregnado demasiadamente por conteúdos que não sejam seus, mas projeções alheias.

Para alcançar essa meta, partindo da dependência natural dos primeiros anos de vida e reconhecendo a fragilidade existente naquele período, é necessária a participação comprometida e atenciosa das figuras de referência, responsáveis pela vida que se desenvolve.

Talvez, um bom conselho aos pais e àqueles envolvidos em processos de educação de crianças e jovens, seja a recomendação de Aristóteles: o caminho do meio. Assim, para se conduzir um bebê até a fase adulta, precisa-se reconhecer suas reais necessidades em cada etapa dessa jornada, a fim de lhe oferecer o que é equilibrado, nem mais, nem menos, respeitando o tempo e o temperamento de cada alma.

Ser flexível, na educação dos filhos, é estar aberto ao diálogo, com escuta empática; abrir mão das próprias expectativas quanto às escolhas de vida dos filhos, a fim de lhes permitir aprender com as experiências (levando em consideração a segurança e o bom senso); aceitar mudanças, quando necessário para o bom desenvolvimento dos filhos, ainda que isso implique em se distanciar de algum interesse pessoal; ser humilde para reconhecer as próprias dúvidas e buscar ajuda adequada.

Ser firme, na educação dos filhos, é priorizar os valores éticos em sociedades nas quais os convites às tentações são abundantes; sustentar uma ordem necessária, mesmo que os filhos não compreendam sua importância e se aborreçam; manter limites, em relação a comportamentos, fundamentais ao desenvolvimento equilibrado da autonomia dos filhos, ainda que o senso comum deboche de tais cuidados, interpretando-os como obsoletos.

Flexibilidade e firmeza, nesse caso, são virtudes essenciais à educação dos filhos, respeitando-se o momento, a situação e as necessidades envolvidas em cada situação. São ferramentas para que os vícios correspondentes, conforme explicação de Aristóteles, não se apresentem:

Assim sendo, cabe aos pais e responsáveis pela educação de crianças e jovens, a consciência de seu grandíssimo dever, uma verdadeira missão, por receber em seus braços um ser humano, cuja organização débil e delicada, requer a proteção de seus tutores, esperando que estes o dirijam pela senda do bem3.

E essa orientação deve ser pautada em práticas virtuosas, comprometidas com o equilíbrio, o bom senso e a coragem de se manter fiel aos princípios éticos, ainda que estejam fora de moda na atual circunstância social de vida na Terra.

 

Referências:

  1. ARISTÓTELES, Ética a Nicômaco. Tradução de Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2006. livro II.
  2. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1974. pt. 2, cap. VII, q. 385.
  3. Op. cit. pt. 2, cap. X, q. 582.

 

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