Jornal Mundo Espírita

Abril de 2019 Número 1617 Ano 87

Encantamento pernicioso

setembro/2017 - Por Rogério Coelho

Tal é a influência dos Espíritos que, de ordinário,
são eles que dirigem os encarnados.
O livro dos Espíritos, item 459.

Qualquer reunião mediúnica, em especial aquelas que são as mais produtivas e eficientes, estão sujeitas, mais dia, menos dia, ao ataque dos agentes das sombras, verdadeiros lobos rapaces vestidos com pele de ovelha. Tão verdade é isso que Kardec[1] considera o melhor aquele que, simpatizando unicamente com os bons Espíritos, tem sido o menos enganado.

Normalmente, a vinculação entre os encarnados e os Espíritos malfazejos se dá através dos plugs constituídos pelas mazelas deformadoras do caráter que ainda oneram a economia espiritual de quem as permite em seu psiquismo. São as mais variadas e atendem pelo nome de ciúme, ambição, orgulho, vaidade, personalismo, presunção, comodismo, invigilância, egoísmo, ignorância, má-fé, mágoas mordentes, maledicência, ódio, cólera, vingança, autopiedade, preguiça, desmazelo, sexo desvairado e vai por aí afora!…

O fascínio exercido pelos obsessores é, às vezes, tão sutil e eficiente que até mesmo os médiuns mais sagazes podem, inadvertidamente, sofrer-lhes o assédio, cuja finalidade não é outra senão desarticular as reuniões mediúnicas da qual fazem parte, bem como inutilizar-lhes os dons mediúnicos.  E não é raro que logrem o seu desiderato, haja vista o inexplicável amadorismo de que se revestem os procedimentos nesse setor de trabalho espírita, cujos integrantes não são dados ao devido estudo básico para lidar em tão delicado e grave labor.

André Luiz narra[2] um episódio de encantamento pernicioso protagonizado por uma médium. Trata-se de Dona Isaura Silva, que se deixou enovelar pelos sufocantes e dolorosos tentáculos do ciúme exacerbado, da invigilância, da cólera e da autopiedade… Enquanto perdurava a reunião mediúnica, ela mostrava irradiações brilhantes; entretanto, após os trabalhos cercava-se de emissões de substância fluídica cinzento-escura.

O instrutor Sidônio explica para André Luiz2: A pobrezinha encontra-se debaixo de verdadeira tempestade de fluidos malignos que lhe vão sendo desfechados por entidades menos esclareci­das, com as quais se sintonizou, inadvertidamente, pelos fios negros do ciúme.  Enquanto se acha sob nossa influência direta, mormente nos trabalhos es­pirituais de ordem coletiva, em que age como vál­vula captadora das forças gerais dos assistentes, desfruta bom ânimo e alegria, (…) terminada, contudo, a tarefa, Isaura volta às tristes condições a que se relegou.

É valorosa cooperadora, revela qualida­des apreciáveis e dignas, porém, não perdeu ainda a noção de exclusivismo sobre a vida do companheiro e, através dessa brecha que a induz a vio­lentas vibrações de cólera, perde excelentes oportu­nidades de servir e elevar-se. Hoje, viveu um dos seus dias mais infelizes, entregando-se totalmente a esse gênero de flagelação interior. Reclama-nos concurso ativo, nesta noite, pois cada servo acor­dado para o bem, quando se projeta em determi­nada faixa de vibrações inferiores durante o dia, marca quase sempre uma entrevista pessoal, para a noite, com os seres e as forças que a povoam.

 Enquanto a criatura é vulgar e não se des­taca por aspirações de ordem superior, as inteli­gências pervertidas não se preocupam com ela; no entanto, logo que demonstre propósitos de sublimação, apura-se-lhe o tom vibratório, passa a ser notada pelos característicos de elevação e é natu­ralmente perseguida por quem se refugia na inveja,(…) visto não conformar-se com o progresso alheio.

Uma vez fora do corpo físico Dona Isaura apresentava o perispírito intensamente obscuro.

(…) dois malfeitores desencarnados, inimigos sagazes do serviço de libertação espiritual de que se tornara devotada servidora, aproximaram-se dela, (…)com o propósito deliberado de intoxicar-lhe o pensamento.

Nessa altura, Sidônio esclarece para André Luiz:  Antes de tudo, os agentes da desarmonia perturbam-lhe os sentimentos de mulher, para, em seguida, lhe aniquilarem as possibilidades de mis­sionária. O ciúme e o egoísmo constituem portas fáceis de acesso à obsessão arrasadora do bem. Pelo exclusivismo afetivo, a médium, nesta conversação, já se ligou mentalmente aos ardilosos adversários de seus compromissos sublimes.

O interlocutor, na intenção de destruir a cé­lula iluminativa que funcionava com imenso pro­veito no santuário doméstico da jovem senhora, assediada agora por seus argumentos adocicados e venenosos, observou com malícia: (…) Não permita a transformação de sua casa em sala de espetáculo. Seu marido e suas relações sociais exageram-lhe as faculdades.  Pre­cisa de mais tempo para desenvolver-se (…).

E envolvendo-a nos pesados véus da dúvida que anulam tantos trabalhadores bem intenciona­dos, aduziu: Já meditou bastante na mistificação in­consciente? Está convencida de que não engana os outros? E’ indispensável acautelar-se. Se estu­dar a grave questão do Espiritismo, com inteli­gência e acerto, reconhecerá que as mensagens escritas por seu intermédio e as incorporações de entidades supostamente benfeitoras não passam de pálidas influências de Espíritos perturbados e de alta percentagem dos produtos de seu próprio cére­bro e de sua sensibilidade agitada pelas exigências descabidas das pessoas que lhe frequentam a casa. (…)

A ingênua criatura registrava com visível terror aquela conceituação do assunto.

(…)Muitos missionários se deixam atropelar pela falsa argumentação que acabamos de ouvir e menosprezam as sublimes oportunidades de fazer o bem, (…)

 (…)Enquanto um trabalhador da mediunidade em­presta ouvidos a histórias que lhe lisonjeiem a es­fera pessoal, disso fazendo condição para cooperar na obra do bem, quer dizer que ainda estima o personalismo inferior e o fenômeno, acima do ser­viço que lhe cabe no plano divino. Nessa posição, demorar-se-á longo tempo entre desencarnados ocio­sos que disputam a mesma presa, anulando valiosa ocasião de elevar-se, porque, depois de certo tempo de auxílio desaproveitado, perde provisoriamente a companhia edificante de irmãos mais evolvidos.

 

  1. KARDEC, Allan.O livro dos médiuns.71ª ed. Rio de Janeiro: FEB, 2003. 2ª parte, cap. XX, item 226, perg. 9ª
  2. XAVIER, Francisco Cândido.Libertação.7ª ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 1978. cap. XVI.
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