Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

Empecilhos

julho/2018 - Por Rogério Coelho

(…) pois que por muitas tribulações nos importa entrar no Reino de Deus.
At, 14:22

 José era o seu nome!… Tudo lhe corria bem: negócios exitosos, casamento estável e feliz, filhos adoráveis, saúde para dar e vender!

Paradoxalmente, tanto sua vida interior quanto exterior transformaram-se num caos total a partir do momento em que começou a ler a Bíblia e a frequentar uma igreja, coisa que nunca havia feito antes, totalmente desligado que era de todo e qualquer comportamento dosado pela transcendência da vida.

Mas a história da vida de José é a mesma de tantos outros José, Joaquim, João, Maria. Não fica difícil entender tais ocorrências quando se leva em conta, na equação da vida, o histórico construído pelas reencarnações dos indivíduos.  Assim, enquanto as dívidas cármicas e limitações variadas estiverem onerando nossa economia espiritual vamos enfrentar toda sorte de vicissitudes e essas – não raro – chegam mais ostensivas quando damos início ao processo de autoaprimoramento.

Os nobres Benfeitores espirituais são pródigos em alertas e avisos quanto a essas ocorrências que tolhem os passos tanto dos neófitos quanto dos veteranos em seus trânsitos pelas ásperas estradas que levam ao Mais Alto e Mais Além.

Inteiremo-nos do pensamento de Emmanuel nesse passo[1]: Enquanto nosso barco espiritual navega nas águas da inferioridade, não podemos aguardar isenção de ásperos conflitos interiores. Mormente na esfera carnal, toda vez que empreendemos a melhoria da alma, utilizando os trabalhos e obstáculos do mundo, devemos esperar a multiplicação das dificuldades que se nos deparam, em pleno caminho do conhecimento iluminativo.

Contra o nosso anseio de claridade, temos milênios de sombra. Antepondo-se-nos à mais humilde aspiração de crescer no bem, vigoram os séculos em que nos comprazíamos no mal.

É por isso que, de permeio com as bênçãos do Alto, sobram na senda dos discípulos as tentações de todos os matizes.

Por vezes, o aprendiz acredita-se preparado a vencer os dragões da animalidade que lhe rondam as portas; todavia, quando menos espera, eis que as sugestões degradantes o espreitam de novo, compelindo-o à porfiada batalha.

Haja, pois, tolerância construtiva em derredor da caminhada humana, porque as insinuações malignas nos cercarão em toda parte, enquanto nos demoramos na realização parcial do bem.

Somente alcançaremos libertação quando atingirmos plena luz.

(…) Impossível, por agora, qualquer referência ao triunfo absoluto, porque vivemos ainda muito distantes da condição angélica; entretanto bem-aventurados seremos se bem sofrermos esse gênero de lutas, controlando os impulsos do sentimento menos aprimorado e aperfeiçoando-o, pouco a pouco, à custa do esforço próprio, a fim de que não nos entreguemos inermes às sugestões inferiores que procuram converter-nos em vivos instrumentos do mal.

No mesmo diapasão de Emmanuel, esclarece a nobre Mentora de Divaldo Franco[2]:

Quando o homem se resolve por modificar a conduta moral para melhor, parece defrontar uma conspiração geral contra os seus propósitos de enobrecimento.

Tudo se altera e desgoverna.

As mínimas coisas fazem-se complicadas, e o ritmo dos acontecimentos, por algum tempo, muda para pior.

Esse estado de coisas leva o candidato à reforma íntima a retroceder, a desistir.

É natural, porém, que assim aconteça.

Toda transferência modifica o habitual.

Na área das ações morais a reação é maior, porquanto se penetra nas raízes do mal para extirpá-lo, a fim de dar surgimento a novos e equilibrados costumes.

Não falece dúvida que a Doutrina Espírita permite conheçamos a fundo as razões de todos os percalços existenciais e oferece-nos instrumentação eficiente para o bom combate referido pelo vidente de Damasco.  Ela mostra-nos o valor do esforço pessoal, exaltando o livre-arbítrio que nos torna artífices do próprio destino e aponta-nos o rumo certo nos meandros intricados da senda evolutiva.

Referências:

1 – XAVIER, Francisco Cândido. Pão nosso. 30. ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 2016. cap. 101.

2 – FRANCO, Divaldo Pereira. Vida feliz. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. 14. ed. Salvador: LEAL, 1992. cap. CLIX.

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