Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

Em nosso coração

junho/2017 - Por Maria Helena Marcon

Em maio de 2005, chegou às telas brasileiras, o filme Cruzada (Kingdom of Heaven), ambientado no século XII, envolvendo acontecimentos que desencadearam a Terceira Cruzada, pregada pelo Papa Gregório VIII, após a tomada de Jerusalém por Saladino, sultão do Egito e da Síria (1187).

Como ocorre, habitualmente, nos filmes hollywoodianos, o herói ganha uma auréola de honestidade, cavalheirismo, integridade. Ou seja, ao transpor para a tela certos trechos da História, o cinema, com sua romântica liberdade, altera fatos e feitos, aumenta as virtudes de um ou outro personagem. O objetivo é conquistar a simpatia do público para aquele que deverá ser o herói, o líder, o que deverá ser exaltado, amado e seguido.

Em Cruzada, o ferreiro Balian (Orlando Bloom), transformado em Cavaleiro, personifica o ideal do homem íntegro. Ele é um jovem sofrido, que rejeita os conceitos da religião da época, depois de não ter recebido consolo nenhum de quem, sob a capa de representante de Deus na face da Terra, deveria oferecer apoio, nos momentos de convulsionada dor.

Ante a morte do filho, sua esposa chega à quase demência e, num momento de insanidade, acaba por se suicidar. Possivelmente, por acreditar que, dessa forma, poderia ir ao encontro do filho ou talvez por não conseguir administrar o sofrimento que a envolve. Em virtude do seu gesto tresloucado, seu corpo é enterrado, sendo-lhe decepada a cabeça, o que, para a ignorância da época, lhe deveria constituir o maior castigo: ser condenada ao Inferno. E lá permanecer, para todos os evos, sem cabeça.

Por isso, Balian despreza a religião dominante e seus representantes. Contudo, em sua alma, o sentimento de Espiritualidade permanece ativo.

Ele vai a Jerusalém, no intuito de visitar o local onde o Mestre Jesus fora crucificado. Ali se deixa ficar, por horas, em profunda meditação, como à espera de algum sinal, alguma manifestação.

Por fim, toma da cruz que a esposa portava ao pescoço, em fina corrente, beija-a, faz um buraco na terra árida, enterra-a e a cobre com pedras, numa tentativa de preservação daquele tesouro.

E extravasa a sua dor, mistura de saudade pela ausência física e desconsolo por não ter certeza do destino daquela a quem tanto amou, numa frase: Como pode estar no inferno, se está no meu coração?

Uma frase de extraordinária lucidez. E, nesses tempos em que se avizinha a Nova Era, como se faz de importância meditar a respeito.

Causa-nos espanto o presenciar, ainda hoje, o desespero tomando conta daqueles a quem a morte arrebata os amores mais amados. Causa-nos espanto que pessoas de intelecto privilegiado, com diplomas e PhDs ainda acreditem que nada exista para além desta vida, que tudo termina no túmulo, que alguém que estudou, produziu, amou, se finde, assim, simplesmente, sem nada deixar senão uma lápide fria, ou cinzas, num cenário de doloridas lembranças.

Ou, como creem outros, que a criatura seja destinada a séculos de um sono sem sonhos, aguardando um eventual Dia de Juízo Final, quando e somente então, despertará, para um reencontro. Até lá, somente saudade intraduzível e não arrefecida.

Finalmente, as que creem que mesmo ante uma perenidade do Universo, que se encontra em expansão, um Universo do qual temos pálida ideia da exuberância, com nossos ainda parcos (embora nos pareçam extraordinários) recursos técnicos, seja possível que uma vida de apenas algumas décadas que, poderá, eventualmente, transpor um século, defina o destino da criatura para a eternidade.

Assim, se praticou o mal, se se permitiu envolver na criminalidade, na indiferença dos dias, irá para o Inferno, um lugar de intenso sofrimento, sem esperança de saída. Conforme escreveu Dante, em sua obra Divina Comédia: Deixai, ó vós que entrais, toda esperança!

Se algo fez de bom, e dizemos algo, porque, neste planeta, à exceção do Mestre Jesus, todos ainda somos Espíritos que cometemos equívocos, merecerá a ventura de um paraíso, que é fantasiado de muitas formas, obedecendo aos critérios da cultura de cada povo.

É de questionarmos como poderá ser feliz um coração materno, gozando de pretensas delícias dos céus, sabendo que seu filho padece nas geenas infernais? Acaso poderá gozar de uma felicidade irrestrita enquanto sofre aquele que, fruto das suas entranhas, foi objeto de cuidados extremos e devotamento?

Se, na Terra, ainda tão imperfeitos, amamos sem estabelecer condições, se aqui nos entregamos em holocausto pelos filhos, pelo ser amado, bastará acaso que a morte nos destrua o corpo físico, para esquecermos desse amor e nos felicitemos com venturas que nos sejam oferecidas?

Poderemos ser felizes sabendo da desventura de quem amamos?

Nesse particular, como em tantos outros, ressalta o entendimento espírita. Lúcido, coerente, partindo exatamente das palavras do Pastor das nossas almas: Nenhuma das ovelhas que meu Pai me confiou se perderá. (Jo, 6:39)

Por isso, tomamos do Código Penal da Vida Futura, na obra kardequiana O céu e o inferno, e nos extasiamos com cada um dos trinta e três itens, que exaltam a Justiça Divina,  que não deseja a morte do pecador, mas que ele se converta dos seus caminhos e viva. (Ez,18:23)

Quanto conforto aos corações saber que o amanhã traz a esperança do refazer o caminho, que Deus é Pai de Amor e Sua Justiça é perfeita.

Assim, toda falta cometida, todo mal realizado é uma dívida contraída que deverá ser paga. Se o não for em uma existência, sê-lo-á na seguinte ou seguintes. (item 9º)

Isso fala do amor que se perpetua, ecoando através das vidas, em reencontros, em ajustes da caminhada, em que os que estamos melhores auxiliamos os que se retardam na jornada, insistindo no erro.

E, contra a doutrina das penas eternas, o estabelecimento de que a duração do castigo depende da melhoria do Espírito culpado.

Nenhuma condenação por tempo determinado lhe é prescrita [ao Espírito]. O que Deus exige por termo de sofrimentos é um melhoramento sério, efetivo, sincero, de volta ao bem. (item 13º)

Quão mais doce é assim considerar a penalidade. Se devemos ressarcir nossos equívocos, o podemos fazer, na medida da nossa tomada de consciência, enquanto Espíritos determinados a alcançarmos a felicidade.

Mais do que isso, poder contar com os que nos amam, ao nosso lado, na carne, ou da Espiritualidade superior, insuflando-nos ânimo, coragem, em verdadeira torcida pelas nossas vitórias.

Exatamente como os pais o fazem, quando o filho se prepara para prestar o vestibular, um concurso ou qualquer outra prova que lhe vá honrar o futuro com melhores chances.

É óbvio que se, ainda tão imperfeitos, temos essa disposição e nos preocupamos pelos amados, por que deveríamos deixar de fazê-lo, simplesmente porque abandonamos a armadura da carne?

Acaso quando, ao findar do dia, retiramos o uniforme da empresa, alteramos a nossa forma de ser, de pensar, de sentir?

O amor é eterno e jamais pode compactuar com essa ideia de castigos perenes. Que o digam os pais, os filhos, os namorados, os cônjuges se, por faltas cometidas, condenariam para suplícios sem fim os seres amados…

Ora, se imperfeitos como somos, assim consideramos que tudo passa, que a pessoa pode se retratar, modificar, estaria Deus, a Perfeição, estabelecendo leis tão injustas?

Que podemos esperar desse Ser que Jesus nos apresentou como o Nosso Pai, senão o benefício da lei de progresso que dá a toda alma a possibilidade de adquirir o bem que lhe falta, como de despojar-se do que tem de mau, conforme o esforço e vontade próprios, sendo o futuro aberto a todas as criaturas.

Deus não repudia nenhum de seus filhos, antes recebe-os em seu seio à medida que atingem a perfeição, deixando a cada qual o mérito das suas obras.

Portanto, não há Espírito incapaz de nunca progredir, votado a eterna inferioridade, o que seria a negação da lei de progresso, que providencialmente rege todas as criaturas. (item 4º)

Consoladora Doutrina que leciona a Perfeição Divina, a Justiça equânime, em linhas de amor imperecível.

Verdadeiramente, como pode alguém estar no Inferno se reside em nosso coração?

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