Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

Eles têm culpa

março/2017 - Por Rogério Coelho

Poderia sempre o homem, pelos seus esforços, vencer as suas más inclinações?
– O livro dos Espíritos – item 909

 

Segundo os Benfeitores Espirituais1 quando o homem crê que não pode vencer as suas paixões, é que seu Espírito se compraz nelas, em consequência da sua inferioridade e não propriamente por causa do meio-ambiente desfavorável, como muitos especialistas do comportamento acreditam…

Quando a criatura está consciente de sua destinação espiritual seus esforços de melhoria são mais efetivos, facilitando, assim, a vitória do Espírito sobre a matéria.

Na edição 2230 de 17.8.2011 da revista Veja, lemos a entrevista, concedida pelo psiquiatra e escritor inglês Antony Daniels, na qual ele afirma que as teorias sociológicas e psicológicas que tentam explicar o crime e o vício em drogas, produzem cidadãos que não assumem suas responsabilidades.

Daniels declara que até mesmo Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), difundia a ideia de que o ser humano é naturalmente bom, e que a sociedade o corrompe.

Eu não sou religioso – afirma o lúcido psiquiatra – mas considero a visão cristã de que o homem nasce com o pecado original mais realista.  

Na verdade, é bem mais realista do que imagina o Dr. Daniels, pois se conhecesse o Espiritismo entenderia que o que ele chama de pecado original, longe das conceituações da lenda paradisíaca de Adão e Eva, outra coisa não é senão o acervo dos equívocos perpetrados nas reencarnações passadas que ainda oneram nossa economia espiritual.

Quando o Dr. Daniels trabalhava como médico em prisões inglesas, com frequência, ouvia detentos sem uma boa formação repetindo teorias sociológicas e psicológicas difundidas pelas universidades. E com isso, não apenas se sentiam menos culpados por seus atos criminosos, como de fato eram tratados dessa maneira. Trata-se de uma situação muito conveniente para os criminosos, pois lhes permite manter a consciência tranquila. Podem dizer que roubam porque não tiveram oportunidade de estudo, porque nasceram na pobreza ou porque sofreram algum trauma na infância, entre outras desculpas…

Enquanto a sociedade não mudar, não se pode esperar que eu me comporte de outra forma, era o discurso corrente entre os presos ingleses.

Quando os intelectuais criam explicações sociológicas e psicológicas para desvios do comportamento, acabam por desumanizar os criminosos.

Em sua experiência com os presos da Inglaterra, Dr. Daniels pôde observar que os envolvidos numa onda de furtos de carros que assolou o país, além de lucrar regiamente com isso, realmente gostavam da emoção de furtar muitos veículos em curto espaço de tempo.

Alguns criminologistas e psicólogos, ao analisar o fenômeno, passaram a afirmar que furtar carro era uma forma de vício… Ora, em pouco tempo, os ladrões de carros começaram a dizer (na cadeia) que eram viciados em furtar veículos. Eles, obviamente, não chegaram a essa conclusão sozinhos, apenas estavam repetindo uma tese produzida por intelectuais de classe média que desconsideravam o fato de os bandidos serem capazes de escolher entre o certo e o errado, independentemente de fatores externos. Negar a capacidade de discernimento do criminoso é o mesmo que diminuir a sua humanidade.

Segundo, ainda, Dr. Daniels, a maneira de vermos o vício de drogas é errada, uma vez que tratamos os viciados como vítimas, incapazes de serem responsabilizados por suas escolhas.  Portanto, eles não são vítimas de seu próprio comportamento, e ademais, não existe droga tão viciante a ponto de ser impossível livrar-se dela.

Os usuários de entorpecentes optam por isso por uma decisão livre e pessoal. Evidentemente isso não significa que não mereçam a nossa solidariedade.

Os Espíritos Amigos ensinam que o meio mais eficiente de se combater o predomínio da natureza corpórea é praticar a abnegação.2 Segundo Fénelon3, isso se aplica inclusive no combate ao carro-chefe dos vícios que é o egoísmo. E aí entra o Espiritismo, pois quando este estiver bem compreendido, e se houver identificado com os costumes e as crenças, ele terá o condão de transformar os hábitos, os usos, as relações sociais, enfim…

Segundo o ínclito Mestre Lionês4, os males mais numerosos são os que o homem cria pelos seus vícios, os que provêm do seu orgulho, do seu egoísmo, da sua ambição, da sua cupidez, de seus excessos em tudo.  Se o homem se conformasse rigorosamente com as leis divinas, não há duvidar de que se pouparia aos mais agudos males e viveria ditoso na Terra.  Se assim não procede, é por virtude do seu livre-arbítrio: sofre, então, as consequências do seu proceder.

(…)Deus somente quer o bem; só do homem procede o mal. (…) mas tendo o homem a causa do mal em SI MESMO, tendo simultaneamente o livre-arbítrio e por guia as leis divinas, evitá-lo-á sempre que o queira.

Finalmente, ensina Hahnemann:5 Segundo a falsíssima ideia de que lhe não é possível reformar a sua própria natureza, o homem se julga dispensado de empregar esforços para se corrigir dos defeitos em que de boa-vontade se compraz, ou que exigiriam muita perseverança para serem extirpados. É assim, por exemplo, que o indivíduo, propenso a encolerizar-se, quase sempre se desculpa com o seu temperamento. Em vez de se confessar culpado, lança a culpa ao seu organismo, acusando a Deus, dessa forma, de suas próprias faltas. É ainda uma consequência do orgulho que se encontra de permeio a todas as suas imperfeições.

(…) Todas as virtudes e todos os vícios são inerentes ao Espírito. A não ser assim, onde estariam o mérito e a responsabilidade?

(…) Compenetrai-vos, pois, de que o homem não se conserva vicioso, senão porque quer permanecer vicioso; de que aquele que queira corrigir-se sempre o pode. De outro modo, não existiria para o homem a lei do progresso.

Pratiquemos, portanto, a abnegação que, segundo o entendimento de Emmanuel significa ir além do dever, além da obrigação, a fim de que possamos erradicar de nosso acervo espiritual tudo que não presta e atrasa a nossa caminhada evolutiva…  Façamos isso em regime de urgência para não sermos flagrados na situação exposta pelo Evangelista Lucas6: Somos servos inúteis, porque fizemos somente o que devíamos fazer.                                 

Bibliografia:

1.KARDEC, Allan. O livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1974. pt. 3, cap. XII, item 911.

2.Op. cit. pt. 3, cap, XII, item 912.

3.Op. cit. pt. 3, cap. XII, item 917.

4.______. A gênese. Rio de Janeiro: FEB, 2002. cap. III, itens 6 a 8.

5.______. O evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2001. cap. IX, item 10.

6.BÍBLIA, N. T. Lucas. Português. Bíblia sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. Campinas: Os Gideões Internacionais no Brasil, 1988. cap. 17, vers. 10.

 

Assine a versão impressa
Leia também