Jornal Mundo Espírita

Outubro de 2021 Número 1647 Ano 89

Ele cumpriu sua missão!

outubro/2021

Porque pelo fruto se conhece a árvore.[1]

O tempo-Terra marcava a chegada do Século XIX. O tempo-consciência humana ainda se mantinha muito aquém do desejado.

Os ideais sombrios, trazidos pelo orgulho, com a disputa das coisas e do domínio de uns sobre os outros, continuavam, no império dos corações.

Apesar de tantas guerras, o mundo ainda se vê em luta ininterrupta aqui ou ali, além de duas guerras, de amplitude mundial.

Não sem razão, pressagiou Albert Einstein, sobre o futuro nefasto das sociedades, caso sem as devidas reformas morais para melhor: Não sei como será a terceira guerra mundial, mas sei como será a quarta: com pedras e paus.

Nas páginas da História, encontramos muitas conquistas. Também, muita destruição, com monarcas e governos que massacraram a multidão e zombaram dos sábios. A hipocrisia, que difamou as salas sagradas da verdade, maculou doutrinas renovadoras, fez ruir valores de religiões, impôs filosofias desestruturantes.

Pedras da verdade que calçaram o Caminho Redentor, dando-lhe firmeza para a jornada, foram e, ainda são, intencionalmente, arrancadas pelas mãos de infelizes-infelicitadores, o que deixa o descuidado caminhante desnorteado e presa fácil para fins desprezíveis.

Diversas pontes de religação com Deus – religare: significado da palavra religião –, organizações constituídas (filosofias, religiões formais), ao longo das eras, tiveram seus alicerces missionários abaulados.

De um modo geral, mesmo nos meados do Século XIX, os homens continuavam sem maior despertamento espiritual, semelhando-se aos citados por João2: Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens. E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam.

Porém, para o Tempo de Deus, os dias preditos para a vinda do Consolador haviam chegado.

Em uma reunião, na noite de 30 abril de 18563, em casa do Sr. Roustan, em Paris, é anunciada, pelos Espíritos Luminares, a ponte novíssima, capaz de religar os homens a Deus.

Rivail, ali presente, recebia a primeira revelação da sua missão: Deixará de haver religião e uma se fará necessária, mas verdadeira, grande, bela e digna do Criador… Seus primeiros alicerces já foram colocados…  Quanto a ti, Rivail, a tua missão é aí…

Os dias transcorrem, operosos e reveladores.

Em 18 de abril de 1857, se faz a anunciação ao mundo da Nova Revelação: a Doutrina Espírita, que chegava com o vigor revivescente da mensagem de Jesus.

Allan Kardec, pseudônimo de Hippolyte Léon Denizard Rivail, o Codificador da Doutrina da Esperança, fez questão de traçar a abrangência da proposição espírita, que não veio para se resumir ao acanhado de quatro paredes, entre poucos, e constar em placa fixada numa parede.

Em outras palavras, reprisava o Apóstolo João, quando confirmava Jesus e Sua missão4: Ali estava a luz verdadeira, que ilumina a todo o homem que vem ao mundo.

Frisou que o Espiritismo não veio constituir uma religião, como comumente se entende seja uma, mas acordar consciências para a plenitude da religiosidade que deve ser sentida nos corações dos homens.

Não é uma Doutrina para discursos em tribunas, mas é ensinamento para a Vida verdadeira, remodeladora de pensamentos, sentimentos e atitudes5: Uma religião em sua acepção nata e verdadeira, é um laço que religa os homens numa comunhão de sentimentos, de princípios e de crenças.

Declarou, ainda, Kardec, sobre os propósitos da Doutrina Espírita, e lecionou, em essência, que religiosidade verdadeiramente sentida que se deseja e se busca, no coração de cada um, emerge do laço que nasce dessa comunhão – sentimentos nobres, princípios superiores e crenças verdadeiras.

Tais sentimentos estruturam a6 fé nos princípios fundamentais que toda gente pode aceitar e aceitará: Deus, a alma, o futuro, o progresso individual indefinido, a perpetuidade das relações entre os seres.

Essa a fé que o Espiritismo faculta e que doravante será o eixo em torno do qual girará o gênero humano, quaisquer que sejam os cultos e as crenças particulares.

Em outra reunião, em 12 de junho de 1856, o Espírito Verdade fala do livre-arbítrio àquele Espírito de escol que, em Lyon, França, veio à luz, no dia 3 de outubro de 1804, uma vez Rivail questioná-lo sobre sua missão e eventual insuficiência de suas capacidades7: a missão dos reformadores é prenhe de escolhos e perigos. Previno-te de que é rude a tua, porquanto se trata de abalar e transformar o mundo inteiro.

Para lutar contra os homens, são indispensáveis coragem, perseverança e inabalável firmeza. Também são de necessidade prudência e tato, a fim de conduzir as coisas de modo conveniente e não lhes comprometer o êxito com palavras ou medidas intempestivas. Exigem-se, por fim, devotamento, abnegação e disposição a todos os sacrifícios.

Vês, assim, que a tua missão está subordinada a condições que dependem de ti.

Ele cumpriu sua missão!

Para esse Benfeitor da Humanidade, Hippolyte Léon Denizard Rivail, Allan Kardec, a Federação Espírita do Paraná, nestas linhas, presta homenagem, com reconhecimento e gratidão.

 

Referência:

1 BÍBLIA, N. T. Mateus. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1966. cap. 12, vers. 33.

2 Op. cit. João. cap. 1, vers. 4 e 5.

3 KARDEC, Allan. Obras Póstumas. Rio de Janeiro: FEB, 2006. pt. 2, cap. Primeira revelação da minha missão, 30 de abril de 1856.

4 BÍBLIA, N. T. João. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1966. cap. 1, vers. 9.

5 KARDEC, Allan. Revista Espírita: Jornal de Estudos Psicológicos. Ano 1868, v. XII. São Paulo: EDICEL, 1999. Sessão anual comemorativa dos mortos. Discurso de abertura pelo Sr. Allan Kardec. O Espiritismo é uma religião?

6 ______. A gênese. Os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2002. cap. XVIII, item 17.

7 ______. Obras Póstumas. Rio de Janeiro: FEB, 2006. pt. 2, cap. Minha missão, 12 de junho de 1856.

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