Jornal Mundo Espírita

Outubro de 2020 Número 1635 Ano 88

Acorda, Senhor!

julho/2020

Abateu-se forte tempestade que fez o mundo parar.

Trazida por um vírus sorrateiro, que fez sombra nos corações humanos e ofuscou a luz do ânimo, da coragem.

Passam os dias e não chega notícia de que nós, os humanos, vencemos a grande batalha.

Enquanto aguardamos, diante das incertezas, podemos pensar, refletir mais demoradamente sobre isso tudo.

Ressalta, de imediato, a dedução de que estamos na mesma tempestade, não no mesmo barco.

Para uns, o momento presente é um largo período de férias; para outros, dias de angústia.

Uns estão em home office, outros sem emprego.

Enquanto alguns se isolam nas praias, outros se aglomeram nas filas de banco para resgatarem auxílio de emergência.

Alguns aproveitam para estar com a família, outros nem puderam comparecer ao sepultamento de ente querido.

Há os que se regozijam por estarem em família, outros ali transferem seus transtornos, maltratam as crianças. Os índices que registram a violência doméstica aumentaram muito.

Uns poucos alunos têm aulas remotamente, outros nem internet têm. O mesmo sonho para todos os estudantes, poucos o realizarão por agora.

Há quem valorize medidas de prevenção à saúde, enquanto há quem deseje a volta total às atividades comerciais.

Alguns têm reserva financeira para permanecerem inativos, outros não têm o mínimo necessário para o agora.

Alguns lucram com a tempestade da pandemia, outros perderam tudo.

De fato, a tempestade é a mesma para todos, o barco, não.

*

Hoje, não há nação mais poderosa que outra. Todas sofrem.

Não há moeda mais forte que outra. Nenhuma pode comprar o remédio que não existe.

Não há raça mais seleta que outra. A morte ronda todos os povos.

Não há religião que supere outra. No geral, vemo-nos temerosos e perdidos.

*

Mesmo quando leis comuns entre países afirmavam estarem em união, sem fronteiras e livre circulação, diante da tempestade, cerraram fronteiras, retiraram mãos solidárias, voltaram as costas aos padecimentos da comunidade ontem comum. Cidadãos que eram livres para ir e vir, acabaram retidos em países estrangeiros, com dificuldade para voltarem para casa.

Fica demonstrado que conveniência (social, política, econômica) não é sinônimo de lealdade e sinceridade, menos ainda de irmandade.

Uma comunidade, em seu verdadeiro sentido, não se faz por leis, mas com puras intenções, compreensão, participação, pertencimento e vivência de todos pelo bem comum.

A construção da união verdadeira, legitimada no coração de cada um, deve ser motivo de reflexão para os movimentos religiosos em geral, tanto no seio de seus adeptos, como na relação com as demais religiões e sociedade.

Do mesmo modo, a nossa relação com a Natureza, conosco mesmo, com o próximo, e com Deus, merece apurada análise.

Somos melhores construtores de muros do que de pontes.

Muros com tijolos de falsidade, mesquinhez, orgulho, arrogância, vaidade, calúnias, que desagregam e separam, se fazem de difícil transposição, enquanto não se facilitar a entrada do espírito cristão nos corações humanos.

*

Todos desejamos a superação.

Hoje se repartem conhecimentos gerais e específicos, graciosamente, em lives, enquanto ontem só mediante pagamento se teria acesso.

Os artistas se apresentam ao grande público, pelas redes sociais, sem cobrar ingresso.

Pessoas utilizam-se dos meios de comunicação para manifestar solidariedade, o que ontem, mesmo nos meios religiosos, culturais, sociais, que frequentavam, não o faziam.

É abertura de janelas por onde adentra a luz da compreensão de que o próximo existe, como é abertura de portas para que possamos sair em direção ao mundo, não para explorá-lo, mas para auxiliar na construção de dias melhores.

A duras penas, estamos por descobrir o caminho da solidariedade, da fraternidade.

*

A mensagem do Cristo é um hino de esperança.

Venham a mim os que estão cansados e aflitos…

Estarei com vocês até o fim dos tempos…

*

Estando os Apóstolos no barco, formou-se grande temporal. As ondas subiam, enchendo o barco de água.

No entanto, Jesus, na popa, dormia sobre uma almofada.

Na iminência do pior, despertaram-no: Mestre, estamos por perecer.

Ele se levantou, repreendeu o vento e a fúria da água. E fez-se bonança.

Surpresos, perguntavam-se entre si: Quem é este que até aos ventos e à água manda, e lhe obedecem?

Jesus pergunta-lhes: Onde está a vossa fé? Por que temeis?

*

Calam-nos n’alma as palavras de Jesus, pois, neste mundo que Ele ama, caminhávamos a toda velocidade, quais senhores absolutos, fortes e capazes de tudo controlar, mesmo com destruição.

A avidez do lucro, do ganho a se sobrepor à dignidade e à honradez, nos absorvia e, fascinados, vendemos coisas e compramos transtornos.

O apelo da fome, do frio, da violência e das guerras; o grito dos milhões de crianças órfãs nos campos de refugiados, não nos detiveram e não demos  importância.

A Mãe Terra desde há muito grita por socorro, sem ninguém lhe dar ouvidos.

Num mundo adoentado pelos vírus do orgulho, da ganância, da vaidade, da arrogância, filhos diletos do egoísmo massacrante, não nos demos conta de que essa caminhada não poderia levar ao aprisco do Senhor.

Enganamo-nos com supostos comportamentos saudáveis que tornaram o mundo doente. Usufruímos dele à exaustão, como se não houvesse o amanhã.

Dissimuladamente, ocultamos os próprios sentimentos e intenções, quais lobos mascarados de ovelhas, disfarçamos conveniências em solidariedade para alcançar poder de um sobre outro, de nação sobre nação, do homem sobre a vida, de esperteza sobre a inocência, de domínio sobre o bem-estar comum.

*

Trabalhemos para que o resultado da tempestade, tão logo cesse, altere nosso estado psíquico, espiritual, moral, de modo a surgir em nós verdadeiras atitudes religiosas, desperte nossa consciência e ali permita florir, qual flor de lótus de mil pétalas, a pura religiosidade.

*

Mestre, hoje, agora, nós, sentindo-nos em mar agitado, imploramos: Acorda, Senhor!… Estamos por perecer.

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