Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

É necessário assumir o controle de nós mesmos

janeiro/2016 - Por Henrique Marcondes de Albuquerque

Os Espíritos, todos são criados simples e ignorantes e se instruem nas lutas e tribulações da vida corporal1

Em sua origem, o homem só tem instintos; quando mais avançado e corrompido, só tem sensações; quando instruído e depurado, tem sentimentos. E o ponto delicado do sentimento é o amor, não o amor no sentido vulgar do termo, mas esse sol interior que condensa e reúne em seu ardente foco todas as aspirações e todas as revelações sobre-humanas. 2

O progresso evolutivo se dá por etapas, com a aquisição de novos recursos intelectuais e morais, correção de erros anteriores, somando conquistas. Somos herdeiros de nós mesmos.

Conforme o estágio de nosso entendimento, formamos nossas verdades, nossas convicções, nossos hábitos, nossos condicionamentos. Essas convicções são responsáveis pela maneira como está organizado o nosso comportamento pessoal.

Naturalmente são relativas essas verdades, pois são mutáveis conforme novas experiências, novos conhecimentos adquiridos. Uma vez se dando modificação numa dessas convicções profundas, ocorre profunda reorganização interna, com mudanças comportamentais decorrentes.

Figuradamente, é como um demorado despertar de um sono profundo em que vamos nos familiarizando vagarosamente com o nosso entorno. À medida com que nos familiarizamos, agimos com mais segurança.

É o despertar do Espírito. O despertar da consciência que, ato contínuo, faz desabrochar os códigos divinos que jazem em germe em todos nós, facultando-nos mais amplo livre-arbítrio e, por conseguinte, maior responsabilidade correspondente aos atos.

Criado simples e ignorante, o espírito tem como fatalidade a perfeição que lhe está destinada. Alcançá-la com rapidez ou demorar-se por consegui-la, depende da sua vontade, do seu livre-arbítrio. 3

Segundo a Benfeitora Espiritual Joanna de Ângelis: Serás o que penses e planejes, pois que da tua mente e do sentimento procedem os valores que são cultivados.3

A maioria das pessoas não usa o cérebro de maneira ativa e refletida, e não está convencida de que ele não pode ser desligado e, não se lhe dando algo para fazer, ele continuará a funcionar.

Se tivemos um dia atribulado, mais tarde o cérebro irá repassar imagens vívidas dos acontecimentos, de forma incessante, dificultando inclusive o sono.

Outras vezes, as más recordações se fazem tão fortes, que voltamos a sentir todas as emoções relativas ao fato.

O gatilho da memória é acionado em milésimos de segundo por um estímulo externo (imagens, sons, sensações táteis, odores etc.) ou de nossa intimidade: pensamentos, fantasias, desejos, emoções e outros.

E, acionado o gatilho, ele abre janelas da memória, ativando a interpretação imediata do que mostra. Ouvimos uma palavra e, imediatamente, sabemos o significado dela (se a conhecíamos anteriormente) – abre-se janela correspondente, apresentando-se tudo aquilo que tal lembrança traz à tona, trazendo também as emoções que lhe estejam atreladas.

Podem ser janelas expondo conteúdos saudáveis ou não. Tranquilizadores ou perturbadores. E podem trazer lembranças com tal intensidade, que gera uma espécie de curto circuito mental que impede, momentaneamente, a capacidade de decidir, de escolher.

Não temos como impedir que o gatilho seja disparado, nem que as janelas se abram, por conseguinte, pois que isso se dá de modo alheio à nossa vontade, é inconsciente. Mas só se retira do fundo do baú o que ali um dia foi guardado.

Aprender a gerenciar os pensamentos perturbadores e a proteger a emoção faz toda a diferença para controlar-se o estresse e atingir o ponto de equilíbrio.

Portanto, busquemos assumir o controle de nós mesmos.

Um antigo sábio, de nome Hilel, disse: Se não eu por mim, quem?

Se abrirmos mão de escrever a nossa própria história, nossos erros, conflitos, culpas e traumas a escreverão, ou outras pessoas.

Façamos uma revisão de conceitos de vida, começando por reconhecer que os fatos se corporificam, de início, no campo mental, para depois se tornarem realidade no corpo físico. Assim, o que vitalizamos pelo pensamento, em dado momento converte-se em realidade no mundo das formas.

Precisamos rever com o que alimentamos nosso mundo mental, desde que a nossa vida se supre nesse depósito íntimo.

Conforme a qualidade do alimento, a saúde da vida.

O pior escravo não é aquele que é algemado por fora, mas aquele que não é livre por dentro.

A vontade bem canalizada consegue realizações gigantescas.

A energia mental é o fermento vivo que improvisa, altera, constringe, alarga, assimila, desassimila, integra, pulveriza ou recompõe a matéria em todas as dimensões.

Por isso mesmo, somos o que decidimos, possuímos o que desejamos, estamos onde preferimos e encontramos a vitória, a derrota ou a estagnação, conforme imaginamos. 4

Ensina-nos Joanna de Ângelis:

Programa um roteiro mental e passa a vivê-lo, afirmando-o, mentalmente, até que se te modele no mundo das formas.

A mente plasma tudo. Bem conduzida, de maneira inteligente, alcança o triunfo.

Com estes equipamentos mentais, as afirmações do triunfo facultarão as oportunidades para agires e edificares tudo quanto hajas planejado, pois que inspirarão o uso correto das tuas faculdades naturais.

Pouco te importem todos os insucessos anteriores.

Renasce deles, afirma ao bem e segue adiante. 5

O treinamento de novas maneiras de pensar, baseadas na ordem, no bem geral, na superação das próprias possibilidades, criará automatismos e reflexos que trabalharão pela nossa harmonia e saúde.

É necessário assumir o controle de nós mesmos.

Infinitas mensagens são dirigidas da mente ao corpo, produzindo hábitos que se arraigarão, substituindo aqueles que se responsabilizam pela desordem e doença.

O teu cérebro, com os seus extraordinários arquivos, está sempre armazenando dados com a capacidade de fixar dez novos fatos por segundo. 6

Sejamos seletivos sobre os valores morais que armazenamos em nossa intimidade, pois serão esses mesmos que nos servirão de orientação e nos suprirão as necessidades durante a caminhada, servindo-nos de vitalidade, ânimo, coragem, esperança, arrimo, enfim.

Guardemos a certeza de que saúde e doença, paz e conflito, alegria e tristeza podem ser eleitos através do discernimento que guia as ações.

Nosso pensamento é força motriz que faz movimentar os poderosos geradores de energia adormecida em nosso interior.

Basta uma chispa da boa vontade para iniciar esse processo de renovação de convicções, para melhor.

O amor é o nosso caminho e o bem é o nosso fanal, porque procedentes de
Deus, que nos criou.

A questão 909 de O Livro dos Espíritos traz: Poderia sempre o homem, pelos seus esforços, vencer as suas más inclinações?

E a resposta dos Espíritos Luminares leciona:

Sim, e, frequentemente, fazendo esforços muito insignificantes. O que lhe falta é a vontade. Ah! Quão poucos dentre vós fazem esforços!

Ouçamos o Espírito de Verdade7: Bebei na fonte viva do amor e preparai-vos, cativos da vida, a lançar-vos um dia, livres e alegres, no seio dAquele que vos criou fracos para vos tornar perfectíveis e que quer modeleis vós mesmos a vossa maleável argila, a fim de serdes os artífices da vossa imortalidade.

 

1 KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Brasília: FEB, 2006. questão 133.

2 _______. O Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília: FEB, 2009. cap. XI, item 8.

3 FRANCO, Divaldo Pereira. Momentos de consciência. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL, 1992. cap. 11.

4 XAVIER, Francisco Cândido. Roteiro. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, 1980. cap. 5.

5 FRANCO, Divaldo Pereira. Momentos de alegria. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL, 1990. cap. 6.

6 FRANCO, Divaldo Pereira. Momentos de consciência. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL, 1992. cap. 5.

7 KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Brasília: FEB, 2009. cap. VI, item 6.

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