Jornal Mundo Espírita

Dezembro de 2018 Número 1613 Ano 86
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Dor suprema

setembro/2015 - Por Marco Antonio Negrão

Há, no sul da Europa, um país afamado, de céu sempre azul, clima suave, frutas deliciosas, separado de outras nações fronteiriças por elevadas serranias – balizas de granito e neve – os Alpes – parecendo pedestais da estátua de um Prometeu invisível, erigida por arquitetos visionários, a fim de que pudesse ele escalar o Infinito constelado,  para lhe roubar as luzes inextinguíveis e resplandecentes dos astros, para, de seus blocos, poder plasmar as efígies dos heróis e dos deuses imortais…

Assim, o Espírito Vitor Hugo inicia o quarto romance ditado mediunicamente a Zilda Gama, editado pela Federação Espírita Brasileira.

Em parágrafo adiante, esclarece: Já sabeis, leitor amigo e perspicaz, que me refiro à Itália, a pátria maravilhosa de Alighieri, de Da Vinci, de Cícero, de Petrarca, de Marco Aurélio… e reporta o leitor aos dias do reinado de Júlio César, que viveu entre 100 a. C a 44 a. C., para o início da sua narrativa.

O enredo desse romance se desdobra antes e depois da vinda do Cristo, na poderosa Itália dos Césares, onde, de permeio com a devassidão e a crueldade, se destacam exemplos de nobre heroísmo, que comovem e despertam a admiração do leitor. Dor Suprema relata diferentes encarnações dos personagens e a continuidade de suas existências, interligadas por sentimentos de amor e ódio, de forma a demonstrar o processo de evolução da alma humana, comprovando a inexorável Justiça Divina, retratada na lei de causa e efeito.

A obra compreende nove livros, divididos em diversos capítulos. Com a mesma verve de Os miseráveis, aquele especial dom de descrever a miséria e a dor, denunciando a torpeza de almas que no mundo utilizam seu poder para a opressão e a crueldade, o autor espiritual inicia relatando as desventuras de Clotilde Moréti, obrigada a se consorciar com o cruel e sanguinário Numa Tarquínio.

Infelizmente, Clotilde se permite a fuga, em noite de desespero, pela falsa porta do suicídio, iniciando ali uma cruzada de dores ainda maiores, ela que estava prestes a consumar seu resgate, houvesse aguardado apenas mais algumas horas…

Fatalidade de nascimento, preconceitos de raça, ódio inatos, catástrofes políticas, tudo isso, que faz o tormento e a ilusória felicidade do mundo, perpassa nessa obra mediúnica, cujas personagens vivem com padrões indeléveis e inconfundíveis.

As tramas, os desencantos, as consequências das ações e reações, o livre-arbítrio, as provas e as expiações, levando a efeito o seu processo educativo e despertador da conscientização do trabalho no bem. É o passo ajustado para a humanidade atingir o progresso moral.

Os personagens do livro acreditam na Lei das Reencarnações e, para dar um cunho de verossimilhança, uma vez que viveram em eras pregressas antes do advento da chegada do Espiritismo na Terra, a médium transcreve em nota final, trechos de conferência proferida, em 1925, no templo de Ebenézer, no Maranhão, pelo Dr. Correia de Araújo:

A reencarnação é uma doutrina antiquíssima e tão universal como a doutrina da imortalidade de que é corolário lógico.

Os gregos criam que as almas, depois de alguns séculos, bebiam água do Letes para esquecimento das suas vidas passadas, e voltavam em seguida à Terra.

E conclui: Não devem, pois, causar  surpresa aos leitores de Dor Suprema os fenômenos nela descritos, tratando-se de Espíritos evolvidos e que já possuíam conhecimentos das religiões do Oriente e da doutrina pitagórica, que antecedeu o advento do Cristianismo. Lembre-se também de que suas palavras foram ditadas pelo emérito reencarnacionista, Victor Hugo, com a lucidez que lhe é peculiar. Relatou ele o que, certamente, observou através dos séculos, pois o seu espírito fúlgido, de grande tirocínio, deve ter sido habitante deste planeta desde épocas imemoriais … Eu nelas creio com fé inabalável.

O contato, em existência posterior, com o Apóstolo Pedro e algumas descrições de reuniões dos tempos primitivos do Cristianismo igualmente são descritas, bem assim a morte de Pedro e menção à de Paulo de Tarso.

O despertar na Espiritualidade de Pedro, o seu reencontro com Jesus iniciam o livro oitavo, com diálogos comovedores.

E se a obra encerra com a morte coletiva violenta, na qual se encontram personagens que, com lágrimas e resignação, haviam resgatado seus equívocos, alude ao plano espiritual em descrição poética:

A neblina viva e luminosa – constituída por miríades de almas libertas em um só instante – alçou-se, dos escombros fumegantes, tomou formas humanas e, algumas destas atingiram o Espaço, alçadas, naves de luz e névoas, escoltadas pelos Mensageiros siderais, a fim de que despertassem em alguma ditosa Região do Universo – conforme as conquistas espirituais efetuadas no Planeta das Lágrimas… tornando-se, desse modo, habitantes da Criação, cujas Pátrias não têm limites, nem fronteiras.

Uma lição de perseverança, otimismo e, sobretudo de que por mais se sofra, Deus está sempre atento e, embora nem sempre nos demos conta, Sua providência e Seu amor nos acompanham os passos.

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