Jornal Mundo Espírita

Dezembro de 2017 Número 1601 Ano 85

Dividiu; caiu!…

setembro/2013 - Por Rogério Coelho

A discussão, por mais proveitosa, nunca deve distrair-nos do serviço que o Senhor nos deu a fazer.

Se uma casa se divide contra si mesma, tal casa não subsistirá. Jesus. (Mc. 3:25).

A emblemática figura do feixe de varas é por demais significativa: reunidas em feixes, as varas não se quebram, mas isoladas… Os obsessores são experts em desatar as amarras do feixe de varas, para depois quebrá-las uma a uma, na maior facilidade!  E, mesmo sabendo desta verdade, não é difícil verificar a divisão, a desunião no seio do movimento espírita.

Jesus ensinou[1] que a vara de si mesma não pode dar frutos, se não estiver ligada à videira.  Ele é a Videira, nós as varas.  Mais adiante ainda acrescenta[2]: O meu mandamento é este: que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei. Aí está a diretriz fundamental!… Estamos seguindo-a?  Ou estamos desatando as amarras do feixe de varas?!  Eis a questão que se coloca!

É mais do que natural que nem sempre todos estarão de acordo, sob o mesmo denominador comum, pois tal não se deu nem mesmo no Colégio Apostólico mas, embora discordantes, não se pode permitir prejuízos na Seara do Mestre.

Segundo Deolindo Amorim[3]:

(…) Nem sempre divergência significa desunião. Se é ver­dade que as divergências ou discordâncias algumas ve­zes já comprometeram a união entre pessoas e grupos, não se deve dar a este fato a extensão de uma regra ge­ral, pois é apenas um episódio discrepante. Onde há duas pessoas frente a frente, sempre há o que ou em que dis­cordar…  Seria impossível a existência de um grupo huma­no, por menor que fosse, sem um pensamento discordan­te, sem uma opinião contrária a qualquer coisa.  Entre dois amigos, como entre dois irmãos muito afins pode haver divergência frontal inconciliável em matéria política, reli­giosa, social etc., sem que haja qualquer arranhão na ami­zade.  Discutem, discordam, assumem posições opostas, mas continuam unidos…  Justamente por isso e pelo que observo na vida coti­diana, não creio que seja necessário abafar as divergên­cias ou evitar qualquer discussão, ainda que em termos altos, simplesmente para preservar a união de um grupo ou de uma coletividade inteira. O diálogo é uma necessidade, pois é dialogando que trocamos ideias e permutamos opiniões e experiências…  Uma comunidade que não admite o diálo­go está condenada, por si mesma, a ficar parada no tem­po. Cada qual naturalmente deve preparar-se ou educar-se espiritualmente para discutir ou divergir sem prevenções ou ressentimentos. 

O fato de não concordarmos com a opi­nião de um companheiro neste ou naquele sentido ou de não adotarmos a linha de pensamento de uma instituição deve ser encarado com naturalidade, mas não deve servir de motivo (jamais!) para que mudemos a maneira de tra­tar ou viremos as costas a alguém.  Seria o caso de per­guntar: E onde fica o Evangelho, que se prega a todo o momento?! Como falar em Evangelho, que é humildade e amor e fugir a um abraço sincero ou negar um aperto de mão por causa de uma divergência ou de um ponto de vis­ta?!   Então, não é a divergência aqui e ali que porventura “cava o abismo da desunião”.  É a incompreensão, o perso­nalismo, o radicalismo do elemento humano em qualquer campo do pensamento.  Já ouvi dizer mais de uma vez que os espíritas são desunidos por causa de divergências in­ternas.  Sinceramente, não acompanho este ponto de vis­ta. Acho que não há propriamente desunião, mas apenas desencontro de ideias, fora dos pontos cardeais da Dou­trina. 

Eis a conclamação do Espírito de Verdade aos espíritas, em especial[4]:

(…) Trabalhemos juntos e unamos os nossos esforços, a fim de que o Senhor, ao chegar, encontre acabada a obra, porquanto o Senhor lhes dirá: “Vinde a mim, vós que sois bons servidores, vós que soubestes impor silêncio aos vossos ciúmes e às vossas discórdias, a fim de que daí não viesse dano para a obra! Mas, ai daqueles que, por efeito das suas dissensões, houverem retardado a hora da colheita, pois a tempestade virá e eles serão levados no turbilhão! Clamarão: “Graça! graça!” O Senhor, porém, lhes dirá: “Como implorais graças, vós que não tivestes piedade dos vossos irmãos e que vos negastes a estender-lhes as mãos, que esmagastes o fraco, em vez de o amparardes? Como suplicais graças, vós que buscastes a vossa recompensa nos gozos da Terra e na satisfação do vosso orgulho?  Já recebestes a vossa recompensa, tal qual a quisestes.  Nada mais vos cabe pedir; as recompensas celestes são para os que não tenham buscado as recompensas da Terra.

Deus procede, neste momento, ao censo dos Seus servidores fiéis e já marcou com o dedo aqueles cujo devotamento é apenas aparente, a fim de que não usurpem o salário dos servidores animosos, pois aos que não recuarem diante de suas tarefas é que ele vai confiar os postos mais difíceis na grande obra da regeneração pelo Espiritismo”.

Neio Lúcio (Espírito) oferece-nos esclarecedora e singela lição  numa página intitulada[5]:

OS MENSAGEIROS DISTRAÍDOS

(…) Um grande senhor recebeu alarmantes notícias de vasto agrupamento de servos, em zona distante da sede do seu governo, que se viam fustigados por febre maligna e, desejoso de socorrer os tutelados quesofriam na região remota de seus domínios, enviou-lhes mensageiros de confiança, conduzindo remé­dios adequados à situação e providências alusivas ao reajustamento geral.

Os emissários saíram do palácio com grandes pro­messas de trabalho, segurança e eficiência na missão; todavia, assim que se viram fora das portas do senhor, começaram a rixar pela escolha dos caminhos.

Uns reclamavam o atalho, outros a planície sem espinheiros e outros, ainda, pediam a passagem atra­vés dos montes.

Longos dias perderam na disputa, até que o gru­po se desuniu, cada falange atendendo aos próprios caprichos, com absoluto esquecimento do objetivo fundamental.

As dificuldades, porém, não foram soluciona­das com decisão.  Criados  os roteiros  diferentes, como que se dilataram os conflitos.  Reduzidas ago­ra, numericamente, as expedições sofreram, com mais rigor, os golpes esterilizantes das opiniões pessoais.  Os viajantes não cuidavam senão de inventar novos motivos para o atrito inútil. Entre os que marchavam pelo trilho mais curto, pela vargem e pela serra lavraram discussões improdutivas e intermináveis. Dias e noites precio­sos eram despendidos em comentários ruidosos quanto à febre, quanto à condição dos enfermos ou quanto às paisagens em torno.(…)  Tanto se atrasaram os viajores do ata­lho, quanto os da planície e do monte, de vez que se encontraram no vale da peste a um só tempo, com enorme e irremediável desapontamento para todos, porquanto, à míngua do prometido recurso, não so­brara nenhum doente vivo na carne.

A morte devorara-os, um a um, enquanto os men­sageiros discutidores matavam o tempo, através da viagem.

— Neste símbolo, temos o mundo atacado pela peste da maldade e da descrença e vemos o retrato dos portadores da medicação celeste, que são os religiosos de todos os matizes, que falam na Terra, em nome do Pai. Os homens iluminados pela sabedoria da fé, entretanto, apesar de haverem recebido valiosos recursos do Céu para os que sofrem e choram, em consequên­cia da ignorância e da aflição dominantes no mundo, olvidam as obrigações que lhes assinalam a vida e, so­brepondo os próprios caprichos aos propósitos do Supremo Senhor, se desmandam em desvarios verbais de toda espécie.  Enquanto alimentam o distúrbio, le­vianos e distraídos, os necessitados de luz e socorro desfalecem à falta de assistência e dedicação.



[1] – Jo., 15:4 e 5.

[2] – Jo., 15:12.

[3] – Artigo publicado no jornal “Mundo Espírita”  da Federação Espírita do Paraná em abril de 1984.

[4] – KARDEC, Allan. O Evangelho  segundo o Espiritismo. 129.ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 2009, cap. XX, item 5.

[5] – XAVIER, F. Cândido. Jesus no Lar. 37. ed. Rio [de janeiro]: FEV, 2008, cap. 23.

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