Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

Divaldo Pereira Franco

Entrevista 235 – Jornal do Almoço - Porto Alegre-RS -

agosto/2009

Jornalista – Um dos mais importantes divulgadores da Doutrina Espírita da atualidade. Há sessenta anos espalha pelo mundo palavras de amor, de conforto. Psicografou mais de duzentos livros traduzidos para dezesseis idiomas e, na Bahia,mantém uma casa que abriga cerca de três mil crianças e adolescentes pobres. Divaldo Pereira Franco, que diz que, desde pequeno, se comunica com os Espíritos está em Porto Alegre para oferecer conforto e explicações da Doutrina de Kardec às pessoas que perderam parentes e amigos.

– Boa tarde, bem vindo mais uma vez ao Jornal do Almoço.

 Jornalista – Bom, eu começo perguntando sobre a questão da morte. Em todos os lugares, todos os dias alguém perde uma pessoa querida. A dor é dela e de mais ninguém, mas muitas vezes acontecem grandes tragédias que marcam a vida de várias pessoas que nem se conhecem pra vida toda, como, por exemplo, o acidente da TAM. Por que isso acontece, qual é a lógica?

Divaldo – A Divindade muitas vezes escolhe esses acidentes para poder despertar-nos para a transitoriedade da vida. No acidente da TAM, por exemplo, nós temos outros fatores; negligência de uns, circunstâncias negativas de outros, invigilância de terceiros levando a uma calamidade que até hoje comove toda a Nação. No entanto, para nós, os chamados flagelos destruidores, têm uma finalidade de promover o progresso. Como a vida física é sempre muito rápida, por mais longa que seja, nós acreditamos que, através da reencarnação, chegaremos à plenitude. Através dessas dores coletivas, depuramo-nos de faltas do passado e avançamos.

 

Jornalista – Bom, este é o tema da sua palestra hoje a partir das 7h30 da noite, no Ginásio Tesourinho, em Porto Alegre, onde o ingresso é um quilo de alimento não perecível. Agora, por que a gente pode entender que a perda de pessoas em grandes tragédias,principalmente, nos serve de lição? Por que a gente precisa de uma lição tão dolorosa?

Divaldo – Allan Kardec fez esta pergunta em outros termos. No Livro dos Espíritos, na questão 742, ele interroga, por que a guerra? Então os Espíritos responderam: por causa do domínio da natureza animal sobre a natureza espiritual. Pelo normal nós deveríamos ser pessoas com raciocínio que atuássemos devidamente, mas nos deixamos empolgar pelos prazeres, pelo hedonismo, as circunstâncias do imediatismo levam-nos a esquecer da realidade. Uma grande dor, um grande choque faz-nos recuar para a essência que somos nós mesmos, e a Divindade se utiliza, às vezes, de uma forma dolorosa para nos colocar no caminho do bem, objetivando a nossa felicidade após a morte.

 

Jornalista – Está certa a afirmação então, que a gente recebe o que a gente merece?

Divaldo – Sem dúvida. É a velha proposta: todo efeito provém de uma causa, logo, nós somos semeadores. Aquilo que semeamos, nós colhemos, se não imediatamente, noutras existências.

 

JORNALISTA – Agora, a gente vê tanta injustiça nesse mundo, tanta gente corrupta, tanta corrupção, tanto roubo, tanta gente morrendo de fome, tanta gente explorada e essas pessoas muitas vezes, aos nossos olhos, elas estão felizes, deitam e dormem tranquilas, enquanto pessoas que são tidas como boas pessoas, sofrem muito. Qual é a lógica nisso?

Divaldo – É a da reencarnação. Esses, que hoje desfrutam de prazeres imerecidos, que exploram, que desviam o alimento do povo para contas particulares nos paraísos fiscais, voltarão na condição de miseráveis. Esses que hoje são honestos e sofrem, são aqueles mesmos que um dia foram corruptos e corruptores e que estão atravessando a estrada da purificação para poder fazer a paz com a consciência. Parece uma coisa folclórica, remota, mas é a Lei de Causa e Efeito; ninguém consegue fugir, primeiro da própria consciência. Às vezes, notamos que esses indivíduos que não correspondem à expectativa, dormem em paz, sob a ação de produtos químicos. A sua consciência de culpa, a sua insaciabilidade os tornam  profundamente infelizes. A aparência sim, este ego que projetam, a imagem que vendem é que nos iludem, mas eles são profundamente infelizes, porque eles sabem que são desonestos.

 

Jornalista – Quer dizer, têm consciência disto?

Divaldo – Têm consciência. Por mais que procurem anestesiá-la, a consciência é terrível. É Deus em nós julgando-nos, defendendo-nos, acusando-nos.

 

Jornalista – E, muitas vezes, não têm, segundo o Espiritismo, um retorno, um pagamento dessas ações aqui nessa vida?

Divaldo – De imediato, às vezes, não acontece. Acontece posteriormente. Atiramos um bumerangue, ele vai, mas ele volta.

 

Jornalista – Agora voltando na questão da perda. Eu lhe pergunto, porque certamente os nossos telespectadores, todo mundo já viveu ou vive uma situação de dor extrema da perda de uma pessoa querida. Qual é sua dica, o seu conselho pra que a pessoa que perdeu alguém querido consiga confortar o coração, consiga aceitar, ter uma aceitação, digamos assim, não porque não possa fazer nada, mas uma aceitação de amor até?

Divaldo – Normalmente nós lamentamos aquilo que já não temos, por que não agradecer a Deus o que tivemos? Ao invés de recordarmos o momento fatal, o instante da morte, evoquemos todo período que viveu conosco, porque todos iremos morrer antes ou depois, é uma fatalidade biológica. Então agradeçamos a Deus o período maravilhoso da convivência, as alegrias. Cultivemos a saudade e a esperança de que esses seres queridos vivem, esperam por nós, podem comunicar-se conosco em silêncio. Se cada um de nós ao invés do desespero, orar, realizar o estado de paz interior e fizer silêncio, nós captaremos os pensamentos deles. Entraremos em contato nos estados oníricos e nos estados de lucidez.

 

Jornalista – Quer dizer, o segredo é a oração?

Divaldo – É o estado interior de oração, porque quando nós oramos, nós nos abrimos a Deus. Não é necessário recitar esta ou aquela prece; abrir-se a Deus. Alguém me diz: eu sou materialista. E daí? Você acredita na vida, abra-se à vida, porque o nome Deus é uma designação religiosa, mas a vida é uma realidade transcendental que não podemos negar.

 

Jornalista – E, agora, falando daquelas pessoas que já partiram, às vezes a pessoa parte numa tragédia, a pessoa parte num momento que não é esperado, porque esperada a morte nunca é, mas se a pessoa está bem, está saudável e morre num acidente, numa tragédia,como muitos morreram no acidente da TAM, o que acontece com esses Espíritos, como confortá-los?

Divaldo – Eles são recebidos carinhosamente por outros Espíritos nobres que já aguardavam aquele desfecho infeliz. Como partiram na condição de vítimas, eles despertam como alguém num pós-cirúrgico, um tanto aturdidos, mas logo os médicos, no caso da cirurgia, acalmam, os enfermeiros no além, os familiares que os precederam voltam, recebem-nos, falam-lhes que a vida continua. Quando eles constatam, ficam infinitamente felizes e perguntam pelos familiares que ficaram na Terra. Então esses mentores dizem: tenha calma, você vai visitá-los. Eles estão tristes e saudosos, mas estão bem. É um conforto fascinante.

 

Jornalista – Eles nos visitam?

Divaldo – Visitam-nos com frequência. Eu tenho tido oportunidade de vê-los despertar no além sob a tutela dos familiares que os precederam.

 

Jornalista – O senhor tem sessenta anos de pregação e oitenta anos?

Divaldo – Oitenta e dois.

 

Jornalista – Oitenta e dois, não parece. Para encerrar, o senhor é feliz?

Divaldo – Muitíssimo feliz. Muitos me perguntam: você não tem problemas? Claro, mas a minha felicidade é porque eu administro os problemas e quando nós administramos, somos felizes.

 

 

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