Jornal Mundo Espírita

Novembro de 2017 Número 1600 Ano 85

Despertar do sentimento religioso

novembro/2017

O Espiritismo se apresenta sob três aspectos: científico, filosófico e religioso. São os diversos ângulos de visão com que a Doutrina Espírita ou Doutrina dos Espíritos se apresenta à nossa observação.

Considerando que doutrina é um termo que significa um conjunto de princípios que servem de base a um certo sistema, para a designação de Doutrina Espírita, há que se compreender que o Espiritismo se conforma numa doutrina específica, por abrigar um conjunto de princípios que lhe são próprios, que lhe dão características próprias, mesmo encontrando-se esse ou aquele princípio em separado, em outras doutrinas. É o conjunto deles, num único contexto, que lhe dá configuração específica e distinta das demais doutrinas em geral. Isso vale para qualquer doutrina que como tal tenha se configurado.

A Doutrina Espírita tem o seu corpo doutrinário estabelecido inicialmente em O Livro dos Espíritos, que é a grande síntese dessa doutrina, donde se originaram outros quatro livros, todos codificados por Allan Kardec: O Livro dos Médiuns, O Evangelho Segundo o Espiritismo, O Céu e o Infernoou a Justiça Divina segundo o Espiritismo, e A Gênese – ou os milagres e as predições segundo o Espiritismo. O edifício doutrinário está, portanto, apoiado nesses cinco livros.

Os seus três aspectos são identificados na análise desse contexto doutrinário.

Observamos o aspecto científico no conjunto organizado de conhecimentos relativos ao objeto determinado do Espiritismo, que é o Espírito, sua natureza, origem e destino, bem como suas relações com o mundo corporal, obtidos especialmente mediante a observação, a experiência dos fatos, com um método próprio.

O aspecto filosófico compreende todas as consequências morais que dimanam das relações que se estabelecem entre nós e os Espíritos. A Doutrina Espírita abre-nos grande portal para estudos que nos permitem ampliar, incessantemente, a compreensão da realidade existencial, no sentido de apreendê-la na sua totalidade, ao englobar a realidade da imortalidade, o que nos oferece uma nova compreensão da vida, de suas razões, de seu valor.

O aspecto religioso decorre da compreensão, além da simples observação, da filosofia espírita e suas propostas, notadamente quando afirma que Fora da caridade não há salvação. Quando se alcança essa compreensão, diversos são os seus efeitos, conforme lemos em O Livro dos Espíritos, Conclusão, item VII:

O primeiro e mais geral consiste em desenvolver o sentimento religioso até naquele que, sem ser materialista, olha com absoluta indiferença para as questões espirituais.(…)

O segundo efeito, quase tão geral quanto o primeiro, é a resignação nas vicissitudes da vida. (…)

O terceiro efeito é o estimular no homem a indulgência para com os defeitos alheios.(…)

O Livro dos Espíritos, agora no item V, nos diz que o Espiritismo é forte porque assenta sobre as próprias bases da religião; Deus, a alma, as penas e as recompensas futuras; sobretudo, porque mostra que essas penas e recompensas são corolários naturais da vida terrestre e, ainda, porque, no quadro que apresenta do futuro, nada há que a razão mais exigente possa recusar.

Esse posicionamento de Kardec é didaticamente esclarecido por ele, quando, no citado item VII de O Livro dos Espíritos, discorre:

O Espiritismo se apresenta sob três aspectos diferentes: o das manifestações, o dos princípios e da filosofia que delas decorrem e o da aplicação desses princípios. Daí, três classes, ou, antes, três graus de adeptos: 1° os que creem nas manifestações e se limitam a comprová-las; para esses, o Espiritismo é uma ciência experimental; 2° os que lhe percebem as consequências morais; 3° os que praticam ou se esforçam por praticar essa moral. Qualquer que seja o ponto de vista, científico ou moral, sob que considerem esses estranhos fenômenos, todos compreendem constituírem eles uma ordem, inteiramente nova, de ideias que surge e da qual não pode deixar de resultar uma profunda modificação no estado da Humanidade e compreendem igualmente que essa modificação não pode deixar de operar-se no sentido do bem.

Notemos que o Codificador Allan Kardec nos fala de sentimento religioso, o despertar da consciência da religiosidade, e não de uma religião constituída, como seria de nosso entendimento apressado.

Desde a primeira pergunta de O Livro dos Espíritos: Que é Deus?, essa magistral obra discorre sobre as causas primárias, o mundo dos Espíritos, levando-nos ao Divino Código: as Leis Morais, e apresentando-nos as esperanças e consolações.

Essa grande jornada objetiva trazer Deus para bem perto de nós, ao tempo em que nos ensina a encontrá-lO na simples observação da natureza, desde o micro ao macrocosmo. Constatando, por decorrência, o despertar em nós de uma renovada crença no Criador. E a manifestação de tal crença por meio de doutrina própria que envolve preceitos éticos, é como o dicionarista Aurélio Buarque de Holanda define Religião.

Esse aspecto do Espiritismo, o religioso, é o corolário, portanto, da proposição essencial e dos objetivos maiores traçados para o advento dessa Doutrina nova em benefício da Humanidade.

Podemos figurar os aspectos científico e filosófico como degraus da escada e escalada da compreensão, alcançando-se, por fim, o aspecto religioso.

O despertar da consciência da religiosidade, do sentimento religioso, em cada um, é o que nos fará caminhar em busca da renovação moral para melhor, pois, a fé é a mãe de todas as virtudes.

O Espiritismo nos reapresenta Jesus, como Guia e Modelo, a fim de encetarmos essa jornada, pelos caminhos da alma, rumo ao coração, onde deverá ser erigido o reino de Deus.

Ele, o Mestre, é que nos ensina que o reino de Deus está dentro de nós.

O Espiritismo é religião cujas paredes estão nos limites das estrelas e o altar está no coração de cada um.

O despertar da consciência da religiosidade é o nosso encontro com Deus, com o próximo e conosco mesmo, o que resulta na religiosidade da consciência, nossa integração com Deus, causa primeira de todas as coisas.

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