Jornal Mundo Espírita

Agosto de 2019 Número 1621 Ano 87
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Daniel Comboni: a vida pelo Evangelho e pela África

abril/2012 - Por Manoel de Andrade

Contam os fatos que o padre italiano Daniel Comboni foi canonizado em 2003, pelo fato de ter salvado da morte, por infecção generalizada, a menina brasileira Maria José Paixão Oliveira, internada num Hospital do município de São Mateus, no Estado do Espírito Santo. A cura, inexplicável pela medicina acadêmica, ocorreu, no início da década de 70, depois de uma noite de preces dirigida ao Espírito Daniel Comboni, pela freira camboniana Luigia Polli.

Considerado um dos maiores missionários na História da Igreja, Daniel Comboni nasceu na pobreza, em Limone (Itália), em 15 de março de 1831 e consagrou sua vida à evangelização dos negros da África. Ordenado padre pela congregação mazziana em 1854 e, sensibilizado com o que ouvira sobre a miséria que devorava as populações africanas, partiu para o continente negro em 1857. Viajando de navio, em pequenas embarcações pelo rio Nilo, chegou a Cartum, depois de quatro extenuantes meses de viagem, onde encontrou um povo entregue à própria sorte, vitimado pelas doenças, numa paisagem de extrema miséria social e um clima insuportável. Apesar dessa impactante visão escreve a seus pais:

Teremos que  fatigar-nos, suar, morrer; mas a ideia de que se sua e se morre por amor

de Jesus Cristo e pela salvação das almas mais abandonadas do mundo é demasiado doce para que nos faça desistir dessa grande obra.

Tudo conspirava para o desânimo e a desesperança. O calor abrasador do centro da África, a doença dos companheiros de viagem, a morte de um deles e o forte estado febril  de Combone, determina o fracasso de sua primeira viagem ao Sudão e o seu retorno com os demais sacerdotes mazzianos à Europa. Diante de uma realidade tão cruel, muitas missões eram interrompidas. Havia vinte anos que as intenções de evangelizar as populações centroafricanas custaram a vida de 64 missionários de várias congregações.

Apesar desse impasse, seu sonho de evangelizar os africanos continua inalterado. Em 1864, enquanto orava junto à tumba de São Pedro, recebe a intuição de que a África deve ser evangelizada pelos próprios sacerdotes africanos, antecipando em cem anos o que disse Paulo VI na sua visita a Uganda em 1969: Desde agora, vocês, os africanos, sois os evangelizadores de vós mesmos. A partir de 1864, com apoio do papa Pio IX e dos dirigentes da instituição católica Propaganda Fide, Comboni percorre quase toda a Europa em busca de auxílio para seu retorno ao Sudão. Nesse período, funda a primeira revista missionária da Itália  e estuda  francês, inglês, árabe e algumas línguas africanas. Em 1867 cria, em Verona, o Instituto dos Missionários Cambonianos  e, cinco anos depois, o Instituto das Irmãs Missionárias Cambonianas, que seriam as primeiras religiosas a evangelizar a África Central. Ainda em 1867, vai ao Cairo, em busca de vocações missionárias locais e, três anos depois, a Instituição masculina já contava com 31 candidatos.

Em 1870, apresenta seu plano ao Concílio Vaticano I, de Salvar a África com a África, enfatizando que somente com missionários africanos — educados na própria região e não na Europa, onde se iludiam com o conforto e não mais regressavam aos seus países  — é que se poderia reverter a desamparada situação da África, naquela época  algemada pelo tráfico da escravidão e prostrada pelo colonialismo.

Com sua petição aprovada, a Santa Sé reabre, em maio de 1870, a missão para a África Central, abandonada cinco anos antes, diante de tantos reveses e adversidades. A Comboni é confiada a responsabilidade do vigariato mais extenso do mundo, com circunscrição eclesiástica de cinco milhões de quilômetros quadrados. A partir de então se entrega, incondicionalmente, ao hercúleo trabalho de salvar os africanos da ignorância, da miséria e da escravidão. Montado em camelo, atravessa o deserto para fundar em El Obeid, sul do Sudão, três missões de amparo aos escravos. Naqueles anos, o tráfico negreiro estava culturalmente tão consentido que, tanto no Sudão quanto no Egito, o único refúgio seguro para os escravos eram as missões fundadas por Comboni.

Por suas decisões corajosas e seu incansável trabalho missionário, seu nome passa a ser conhecido em toda a Europa, para onde viajou, muitas vezes, contatando com associações de apoio missionário, dialogando com reis, bispos e altas autoridades,  em busca de recursos materiais, organizando grupos missionários para o imenso desafio de sustentar seu trabalho de evangelização, ameaçado pelos crescentes interesses dos países europeus em explorar a região com o trabalho escravo.  A luta de Daniel Comboni é desigual, de um Davi contra Golias. Sua esperança está na disposição humana e religiosa dos próprios africanos. Quando, aos 46 anos, é consagrado bispo e nomeado vigário apostólico da África Central, um de seus primeiros atos foi ordenar como sacerdote um ex-escravo africano, num tempo em que, na Europa, negava-se aos negros a condição humana.

Sua luta contra a escravidão é cobrada com perseguições, difamações e imensas dificuldades materiais para a sobrevivência missionária. Contudo, seu grande amor pelos desamparados da África e os passos, tantas vezes solitários, da sua luta, levam-no a dizer um dia:Eu tenho uma vida somente para consagrá-la ao bem dos Africanos: desejaria ter mil vidas para consumi-las nesse sonho.

Em 1877, a grande estiagem e a carestia que se abateu sobre o Sudão dizimaram a população e abalaram a sobrevivência da Missão. Quase abandonado, Comboni volta à Europa em busca de mais socorro. Em 1880, retorna à África pela oitava e última vez, chegando a Cartum em junho de 1881, já gravemente enfermo pela febre que levou à morte quase todos os padres e freiras da Missão. Além desse drama, a situação material se agravava pelos empecilhos políticos e religiosos colocados no caminho de sua obra. Abate-se também pela omissão de alguns colaboradores. Invencível pela perseverança, mas abalado por um calvário tão íngreme, Comboni começa a vergar pelo extremo esgotamento, pela morte de tantos companheiros, amargurado por acusações injustas e as maldosas calúnias dos escravocratas. Em 10 de outubro de 1881, aos 50 anos, deixa o plano físico para habitar um mundo maior. Dez anos depois de sua morte, os Institutos que fundou começaram a ensaiar seus primeiros passos fora da África. Na atualidade, os cambonianos têm missões em quatro continentes. Contam com 14 bispos e quase 1.600 padres, de 35 nacionalidades e com cerca de 1.900 irmãs de 27 países. Têm inúmeras missões na América Latina. No Brasil estão presentes em São Paulo, na Bahia e outros Estados. Espiritualmente é relevante destacar aqui que, em suas últimas palavras, Daniel Comboni visualizou profeticamente a imensa expansão de sua obra pelo mundo inteiro:

Tende confiança nesta hora difícil e mais ainda nos tempos vindouros. Não desistais, nem renuncieis nunca. Eu morro, mas a minha obra não morrerá.

(*) Para escrever este artigo o autor consultou, sobretudo,  a obra  de Fidel González : Comboni en el corazón de la misión africana. Editorial Mundo Negro,  Madrid, 1993 – 608 páginas.

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