Jornal Mundo Espírita

Janeiro de 2020 Número 1626 Ano 87

Dança comigo?

março/2019 - Por Maria Helena Marcon

Trata-se de uma refilmagem do filme homônimo japonês, de 1996 e envolve relacionamento conjugal, ciúme, preconceito, felicidade.

A primeira questão que surge à mente é o que um homem bem sucedido, com sólida carreira, casado e pai de dois filhos poderia mais desejar, além da vida tranquila e feliz de que usufrui?

Esse é exatamente o drama vivido por John Clark, casado com Beverly. Todos os dias ele toma o trem para o trabalho. Certa noite, na viagem de volta para casa, seus olhos se erguem e observa a janela de uma escola de dança. Também um rosto muito expressivo de mulher.

Inicialmente pensando em se aproximar daquela belíssima mulher, ele se inscreve para ter aulas de dança. Paulina, a bela professora, lhe deixa claro, no entanto, que não se envolve com seus alunos. Se o seu intuito é se aproximar dela, que ele abandone a ideia e a escola.

Mas, ele persiste. E logo mostrará a sua vontade de aprender. A música o envolve e o deixa feliz. Em casa, às escondidas, em seu escritório, ensaia passos. Enquanto aguarda o trem, na plataforma, noite adentro, igualmente.

Participam de aulas, com ele, outros dois rapazes. Chama a atenção Vern, um jovem obeso que afirma querer aprender para dançar bem na sua festa de casamento.  Diz que somente formulará o pedido, quando souber dançar muito bem.

Em verdade, ninguém acredita que ele tenha uma noiva. Ele não é atraente, nem elegante, é desajeitado e sua demais.

A professora Bobbie chega a ridicularizá-lo, em certo momento e rejeita continuar a treiná-lo na dança, sendo seu par. São momentos tensos que evocam o bullying. O mesmo sofrido por um colega de trabalho de John que, também secretamente, toma aulas de dança.

Será John que, perante os demais colegas do escritório, o defenderá, de forma aberta, dizendo, em síntese, que não há mal algum em um homem gostar de dançar, frequentar aulas para melhorar a sua performance. Esse mesmo colega, mais tarde, deixará de ocultar a calvície com uma cabeleira, permitindo-se ostentar a careca, superando algo que entendia como dificuldade. Uma lição de autoestima, aceitação de si mesmo.

Por sua vez, Bobbie, que se mostra irreverente, um tanto agressiva com as pessoas, terá seu segredo revelado pela filha, ao passar mal e precisar ser internada. Ela trabalhava em demasia, de manhã, tarde, noite, para atender as suas e as necessidades da garota.

O que se evidencia, em vários momentos do filme, é que o pré-julgamento é sempre danoso. É preciso conhecer as pessoas, saber do seu passado, da sua vida, antes de julgar sem conhecimento, deixando-se levar pelas aparências.

É o que nos ensinou o Mestre dos Mestres com seu1 Não julgueis, para que não sejais julgados.  Pois com o critério com que julgardes, sereis julgados; e com a medida que usardes para medir a outros, igualmente medirão a vós. 

De um modo geral, somos muito ágeis em julgar à primeira vista, a falar, a tecer considerações sobre a vida alheia, desconhecendo a sua realidade.

E com essa maneira de agir, destroçamos vidas laboriosas, colocamos pedras e obstáculos para nosso semelhante, destruímos a sua autoestima.

Paulina também é alvo de críticas e fofocas. Ninguém lhe conhece a intimidade, o que verdadeiramente acontecera, no concurso de dança para o qual, no passado, fora com seu par, também seu amor e do qual retornara sem troféu e sem o companheiro.

Tudo era um grande mistério e os comentários aludiam a muitas hipóteses, sem nenhuma delas traduzir os verdadeiros acontecimentos. Algo que ela revelará, por fim, a John Clark, desvelando a própria infelicidade, o que a fizera perder o gosto pela dança, que passara a lhe constituir simples rotina, dever profissional.

Para ela, que dançava desde os oito anos de idade, no entanto, ver a dedicação em aprender e a felicidade do aluno John, lhe trará de volta o entusiasmo. Tornará a dançar com mais vigor e amor e não pela simples obrigação da profissão.

Esta é uma das belas lições do filme: a de que, enquanto profissionais, jamais nos devemos limitar ao nosso oficio diário e por muitos anos, envolvidos na rotina. Pelo contrário, devemos cultivar o prazer no que fazemos, não abandonando a paixão pela profissão que escolhemos e redescobrindo essa alegria de servir ao próximo, a partir do que oferecemos como professores, médicos, advogados, comerciantes, empresários, industriais, servidores públicos de qualquer ordem.

Outra lição se refere à convivência conjugal. A esposa de John começa a desconfiar dos horários de sua chegada ao lar, da alegria que ele passa a demonstrar. Um contentamento que ele não demonstrava, há muito tempo.

Pensando que ele estivesse em um relacionamento extraconjugal, contrata um detetive e tudo descobre, surpreendendo-o, exatamente na hora em que ele dança num concurso. Ao vê-la, acompanhada da filha, nas arquibancadas, ele acaba por se atrapalhar, perde o ritmo, pisa na roupa do seu par e passa por um grande vexame.

Beverly, inconformada, deseja saber por que ele nada lhe contara. Por que esconder algo assim?

A resposta de John é desconcertante. Com a maior sinceridade do mundo, ele diz que tinha vergonha.

Sim, vergonha, porque sabia que desfrutava de uma vida boa e feliz e não queria admitir que, mesmo assim, sentia que faltava alguma coisa. E que o que lhe faltava não era culpa de sua mulher. No entanto, dançando, ele se sentia mais feliz.

Descobre-se nessas frases o quanto ele amava e respeitava sua mulher. Ele não desejava que ela pensasse que ele não era totalmente feliz por causa dela.

Mas, embora a esposa, ciente agora, de que não havia nenhuma traição, lhe diga que continue dançando, ele abandona as aulas por perceber que poderia dançar e ser feliz mas com sua mulher, sem culpa e sem esconder nada. Aliás, será a filha quem, de forma espontânea, argumentará: Por que você não dança com a mamãe?

Uma das cenas mais impactantes do filme é, com certeza, quando ele recebe o convite para estar na festa de despedida de Paulina, a bela professora.

É a própria esposa que lhe prepara o smoking, o calçado, tudo maravilhosamente disposto sobre a cama do casal para que ele compareça. Ela própria está trabalhando, naquelas horas, numa grande loja.

E a cena o mostra todo arrumado, com uma linda rosa na mão, subindo a escada rolante para se encontrar… com quem? Com a bela professora?

É o que se pensa, no primeiro momento.

Mas, não, ele vai ao encontro da esposa e ali mesmo, no meio da loja, sem música, ele a convida a dançar. Ela é a sua companheira de vida. Também deve ser a companheira de dança.

As cenas emocionam pela declaração de amor tão surpreendente e afirmam que se pode conviver ao lado de alguém, anos e anos, descobrindo e redescobrindo como é bom estar junto, vivendo uma relação em que se misturam alegrias, tristezas, conquistas. Tudo compartilhado, vivenciado.

Um grande e forte amor conjugal. Um amor que suplanta o tempo, a idade, as adversidades, as eventuais querelas cotidianas.

Com certeza, um filme que nos leva a reflexionar sobre nossa forma de ver o mundo, os outros, os que nos rodeiam, o cônjuge, a família.

Se ele vai, afinal, dançar com Paulina, em sua festa de despedida? Bom, isso somente quem assistiu ou assistirá ao filme, saberá…

 

Referências:

1.BÍBLIA, N. T. Mateus. Português. Bíblia Sagrada. 6. ed. São Paulo: PAULINAS, 1953. cap. 7, vers. 1 e 2.

Ficha Técnica:

Shall we dance?

Gênero: Comédia, romance

Direção: Peter Chelsom

Roteiro: Audrey Wells

Elenco: Richard Gere, Jennifer Lopez, Susan Sarandon, Stanley Tucci,  Bobby Cannavale,  Lisa Ann Walter, Omar Benson Miller

Produção: Simon Fields

Trilha Sonora:  John Altman, Gabriel Yared

Duração: 106 minutos

Ano: 2004

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