Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87
Trabalhadores do Bem Envie para um amigo Imprimir

Damião de Vesteur

março/2016 - Por Mary Ishiyama

O texto bíblico prescrevia: Portanto, todo aquele que estiver manchado de lepra, terá os seus vestidos descosidos, a cabeça descoberta, o rosto coberto com o seu vestido, e clamará que ele está imundo e sujo. Por todo o tempo que estiver leproso e imundo habitará só, fora do campo. (Levítico, XII, 45)

Os registros apontam a presença da lepra, hoje denominada hanseníase, desde 1.400 a.C. e na Pérsia, desde 800 a.C. O preconceito e o medo dessa doença fez com que os seus portadores tivessem tratamento desumano. Os relatos bíblicos se referem a banimento do infectado do seio da sociedade, serviços fúnebres sendo feitos, como se morto estivesse.

Natural seria que a prescrição do Levítico assustasse. Mas, para o jovem Josef de Vesteur o efeito foi o contrário, tomou-se de infinita compaixão.

Nasceu em Tremelo, Bélgica, em 3 de janeiro de 1840, de família grande, pobre, mas bem estruturada em questões morais. A mãe costumava reunir os filhos, ao final de tarde, e ler para eles. Josef se encantou com a Vida dos santos, sentia-se inspirado, identificando-se, especialmente, com Francisco Xavier e o Cura d’Ars.

Foi um jovem de poucas amizades, preferia as caminhadas solitárias observando a natureza e refletindo sobre as histórias que ouvira de sua mãe. De temperamento humanitário, era extremamente organizado, autoritário, mantinha um ritmo de trabalho incansável. Foi auxiliar de ferreiro enquanto estudava, adquirindo forma física saudável e forte, o que o auxiliaria nas tarefas que mais tarde se apresentariam.

Estudou Teologia, Medicina, Artes e Direito, na Universidade Católica de Louvain, Bélgica.

Aos vinte e quatro anos foi ordenado sacerdote. Em sua primeira missão, assumiu os papéis de arquiteto, carpinteiro, pedreiro para a construção de uma igreja. Para estimular aos demais para que o auxiliassem, de forma inteligente lançou um torneio para verificar quem seria o mais forte, carregando toras, ele mesmo se dizendo o mais forte dentre todos.

Em Kohala, paróquia grande e complicada, com aldeias distantes e de difícil acesso, enfrentou tubarões, navegando em pequenas canoas. Escalou montanhas, enfrentou tempestades, ao ponto de desmaiar de exaustão.

Quando a lepra se tornou uma verdadeira praga no Havaí, o governo decidiu controlar a epidemia de forma violenta. Os doentes foram caçados e enviados para Kalaupapa, na ilha de Molokai. O ano de 1866 assinala a chegada dos primeiros a serem deixados ali sem casas, abrigos, com pouca comida e roupas.

Damião se apresenta como voluntário para a ilha de Molokai, nela aportando em 10 de maio de 1873. Antes de partir, distribuiu retratos seus aos familiares, com a certeza de que eles jamais tornariam a vê-lo.

Nessa ilha, ele foi o médico, que lavava e enfaixava as feridas; o marceneiro que fazia caixões, também casas coloridas e escolas. Foi o professor que alfabetizou crianças e adultos, o incentivador à criação de hortas.

Levou água canalizada para a aldeia, conseguiu que as regras básicas da sociedade fossem respeitadas, estabelecendo organização e dignidade, num local em que vigiam a prostituição e o alcoolismo.

Seu trabalho chamou a atenção da princesa do Havaí, Lydia Lili’uokalani. Ela foi a Molokai, onde foi recebida por oitocentos leprosos com faixas coloridas de boas vindas.  De tal forma se emocionou, que não conseguiu ler seu discurso. Manifestou a Damião a dificuldade de acreditar que alguém viesse para aquela ilha, por livre vontade. E, quando Damião afirmou é meu trabalho e são meus fiéis, ela acrescentou: e meu povo.

Foi condecorado como Cavaleiro da Real Ordem de Kalakaua, embora nunca tenha usado a medalha que lhe foi outorgada. A princesa divulgou o trabalho do Padre Damião na Europa e nos Estados Unidos. A resposta foi extraordinária: os protestantes levantaram fundos e os anglicanos enviaram mantimentos, roupas, remédios e material médico.

Damião olhava aqueles enfermos e os via como irmãos. Jamais se negou a tocá-los, abraçá-los. Certa feita, quando seu confessor foi à ilha, ele foi impedido, pelo comandante, de entrar no navio para se confessar, como desejava. Precisou fazê-lo de uma canoa, em voz alta, diante de todos.

Ao dirigir seus sermões, iniciava sempre Meus irmãos… Contudo, em dezembro de 1884, ao colocar os pés em água fervente e nada sentir, deu-se conta de que contraíra a lepra. A partir de então, dizia: Nós, os leprosos…

Aumentou seu ritmo de trabalho, tornando-se mais exigente, mais enérgico, sentia que o tempo se esvaía e desejava deixar seu povo mais independente possível.  Difícil conseguir quem acompanhasse seu ritmo.

Esse homem singular, quando fisicamente impossibilitado de trabalhar, percebeu que ainda poderia ajudar. Mudou seu semblante sério por um mais descontraído, procurando demonstrar alegria, esperança, confiança e fé em Deus, que ele tão bem soube representar levando bom ânimo para os que ficariam no vale de lágrimas um tanto mais.

Desencarnou aos quarenta e nove anos, no dia 15 de abril de 1889.

Quando, em 1965, o Havaí se tornou o quinquagésimo Estado da Federação norte-americana, escolheu ser representado por Damião de Molokai, no Statuary Hall do Capitólio, em Washington.

Em 1995, foi beatificado pelo Papa João Paulo II e considerado Servo da Humanidade. Em 2009, foi canonizado pelo Papa Bento XVI.

 

Bibliografia:

1. SCHWEITZER, Paulo A., S.J. Damião de Molokai: Modelo e Desafio. Rio de Janeiro: Fórum Nacional, 2013. 28 p.

2. FRANCO, Divaldo Pereira. Sublime expiação. Pelo Espírito Victor Hugo. Rio de Janeiro: FEB, 1992. pt. 1, cap.3.

3.http://afamiliacatolica.blogspot.com.br/2008/06/pe-damio-de-molokai-damio-de-veuster.html

4. http://www.damientheleper.org/

Assine a versão impressa
Leia também