Jornal Mundo Espírita

Julho de 2019 Número 1620 Ano 87

Da autocompaixão para o autoamor

agosto/2016 - Por Cristiane Maria Lenzi Beira

Durante trinta e oito anos aquele enfermo ansiou por um milagre. Permanecia às margens da piscina de Betesda, cujas águas acreditavam serem revolvidas por anjos que, periodicamente, desciam para oferecer chance de cura aos sofredores que as buscavam.

Quando Jesus, chegando a Jerusalém, intercedeu por aquele doente, curando-o depois de uma longa vida de espera, despertou a indignação dos judeus, por haver produzido o milagre em dia de sábado.1

Desde aquele tempo, alguns milhares de anos se passaram, porém, ainda hoje, em diversas ocasiões, assemelhamo-nos ao doente da parábola, aguardando um milagre, que viria resolver nossos problemas.

No caso do personagem da história, certamente não havia muitas outras possibilidades de melhoria de sua situação, que não fosse um milagre, uma vez que os recursos da época eram limitados, tanto os medicinais, quanto outros auxílios sociais.

Mas no século XXI, a situação é bem diversa. Há inúmeras possibilidades de mudança daquilo que nos perturba. São muitos os caminhos que nos levam à solução de nossos problemas, por esforço próprio, sem a dependência de um salvador que faria o trabalho por nós. No entanto, como uma tendência atávica, é comum permanecermos paralisados, acomodados em nossas reclamações e complexo de vítima, diante das aflições da vida.

Permanecemos inflexíveis, rígidos, como crianças mimadas, que não se sentem capazes de providenciar a própria melhoria e que não possuem autoestima necessária para se acreditarem fortes a ponto de sanarem suas próprias dificuldades, preferindo interpretar papéis de pessoas perseguidas, abandonadas ou injustiçadas.

Ao escolhermos essa lente, a da autocompaixão, como vítimas frágeis e indefesas, deixamos de enxergar os tantos benefícios que recebemos, e outros tantos talentos pessoais que nos ajudariam a vencer a dificuldade, para focar somente nas frustrações e desgraças que nos sucedem. Joanna de Ângelis nos alerta quanto a esse perigo, o de permanecer na infância espiritual:

Aquele que se entrega à autocompaixão nunca se satisfaz com o que tem, com o que é, com os valores de que dispõe e pode movimentar. Não raro, encontra-se mais bem aquinhoado do que a maioria das pessoas no seu grupo social; no entanto, reclama e convence-se da desdita que imagina, encarcerando-se no sofrimento e exteriorizando mal-estar à volta […]2

Talvez seja por esse motivo que Jesus, ao oferecer a cura, iniciava sempre com perguntas do tipo: Queres ficar são? Acreditas que te posso curar? Embora de forma sutil, ao propor esse questionamento, envolvia o beneficiado no processo, apresentando-lhe a oportunidade de desejar e de buscar a cura. A contrapartida pedida era a fé daquele que seria favorecido. A cura da mulher hemorrágica3 é uma demonstração da importância da participação do doente no processo de cura, lutando pela própria transformação.

Quando, então, nos conscientizarmos realmente, de que cabe a nós próprios nossa salvação, pelo esforço e vontade pessoal, pela busca individual e perseverança, é que daremos o primeiro passo em direção ao crescimento e à salvação desejada.

Enquanto, no entanto, permanecermos anestesiando e adiando o processo, aguardando o outro que nos salvará, maior se avolumará a dor. Joanna de Ângelis nos convida, então, ao autocrescimento, assumindo a responsabilidade pela nossa própria felicidade:

Descobrindo-se herdeiro de si mesmo, o indivíduo trabalha-se, a fim de crescer emocionalmente, amadurecendo conceitos e reflexões, aspirações e programas, a cuja materialização se entrega.

Reconhece as próprias dificuldades e esforça-se para superá-las, evitando a autocompaixão anestesiante quão deprimente […]4

Um dos primeiros benefícios colhidos quando assumimos a responsabilidade por nós mesmos, é o surgimento ou incremento da autoestima e da autoconfiança. Passamos a nos ver como pessoas fortes, Espíritos com potencial para deuses. Automaticamente nossa vinculação com Deus se fortalece e passamos a usufruir de Seu amor, ânimo e coragem. A vida passa a ser vista como transitória e nos damos conta de que não estamos sozinhos na jornada, nem precisamos esperar alguém vir fazer por nós a parte que nos cabe.

Jesus nos ensina que essa mudança de comportamento, saindo da estagnação do coitadismo para a atividade do autoamor requer luta. Essa luta é a mais difícil, porque acontece no íntimo do ser humano, um lugar desconhecido e, para alguns, aterrorizante. Ela requer a presença da fé e do esforço, mas, sobretudo, da coragem de desembainhar a espada que promove a luta da transformação e da renovação. O resultado é o surgimento do autoamor, esse despertar da consciência a respeito de si mesmo, descobrindo o herói que se encontra adormecido dentro de nós.

Depois, então, que descobrimos o prazer de nos amar, o que não quer dizer criar histórias fantasiosas a respeito de nós próprios, nas quais somos melhores, maiores, mais poderosos, mais bonitos, etc., mas aceitando-nos e valorizando-nos como realmente somos, daí, sim, estaremos livres para a prática do amor além do eu, acolhendo os outros, como acolhemos essa criança temerosa que existe em nós. Mais uma vez Joanna de Ângelis nos ensina que:

Somente é capaz de amar a outrem aquele que se ama. É indispensável, portanto, que nele haja o autoamor, o autorrespeito, a consciência de dignidade humana, a fim de que as suas aspirações sejam dignificantes, com metas de excelente qualidade.5

Esse é, portanto, o processo e o objetivo de nossa encarnação: crescer, progredir, melhorar e não esperar a salvação chegar pelas mãos e esforço de outras pessoas, sem nossa contrapartida. A vida é nossa! Lutemos por ela!

 

BÍBLIA, N. T. João. Português. Bíblia sagrada. Tradução de Antônio Pereira de Figueiredo. São Paulo: Paumape, 1979. cap. 5, vers. 1-23.

2FRANCO, Divaldo Pereira. O ser consciente. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. 10. ed. Salvador: LEAL, 2002. cap. 4.

3 BÍBLIA, N. T. Marcos. Português. Bíblia sagrada. Tradução de Antônio Pereira de Figueiredo. São Paulo: Paumape, 1979. cap. 5, vers. 25-34.

4 FRANCO, Divaldo Pereira. Amor, imbatível amor. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. 10. ed. Salvador: LEAL, 2002.  cap. 11.

5 __________. Conflitos existenciais. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL, 2005. cap. 19.

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