Jornal Mundo Espírita

Janeiro de 2020 Número 1626 Ano 87

Crisol de purificação

março/2019 - Por Guillon Ribeiro

Momento outro não há, parece-nos, mais propício ou azado a encarar-se o problema da dor, em face dos sofrimentos humanos, do que o atual, em que quase todas as nações da Terra se empenham numa guerra que se entremostra aniquiladora de povos e civilizações. Mais do que nunca, esse problema, na hora atual, avulta aos olhos de todas as criaturas terrenas, mesmo das mais indiferentes e apáticas, sobrepondo-se a quantos outros incessantemente lhes surgem do orgulho e do egoísmo que as alucinam.

Uma vez mais, portanto, lícito nos seja falar da dor, da dor que, desde sempre, se há visto presa a Humanidade, neste orbe ainda presídio para os que delinquem, contravindo às leis divinas; da dor contra que se erguem os clamores de todos os presidiários e as imprecações do materialismo inconsciente e cego; da dor que, no entanto, é a melhor e mais amiga companheira do homem, na sua trajetória evolutiva pelo planeta, porque, com efeito, unicamente ela conduz a Deus as criaturas falidas, dado que estas, somente graças a ela, cuidam das coisas divinas.

Qual aquele que, constantemente rodeado de gozos, engolfado em prazeres inebriantes, desfrutando de completa felicidade, na acepção terrena deste vocábulo, se lembraria de dirigir as vistas para o Alto, em atitude de súplica? Qual o que cogitaria dos destinos humanos, com o Espírito subjugado sempre pela matéria satisfeita?

A fim de que o homem medite e se liberte dos grilhões que o prendem à vida material, a fim de que ame e respeite a essa mesma vida, que lhe é outorgada como meio de progredir intelectual e moralmente, por ser crisol de purificação, necessário se faz que a dor lhe abale a consciência e a desperte, rasgando-lhe horizontes novos, demonstrando-lhe que acima dos efêmeros gozos da existência física, há um dever a ser cumprido para com Aquele que rege os destinos do Universo e tudo ordenou de maneira a ter glória suprema na suprema bem-aventurança de todos os Espíritos que o Seu amor lançou à vida.

A dor há encaminhado o homem à arquitetação das mais diversas filosofias. Quer isso dizer que o tem obrigado a pensar. Ora, pelo pensamento, a maior força do Universo, porque força essencialmente divina, é que nos libertamos do escuro cárcere a que nós mesmos nos condenamos, quando cega trazemos a consciência. O mundo físico é patrimônio comum, porquanto as moléculas que hoje nos estruturam os corpos constituirão, amanhã, novos organismos, provando dessa forma a própria matéria, pela incessante circulação de seus átomos, que ela não nos pertence individualmente, visto que é tanto do vegetal como da pedra, do homem como do molusco.

O pensamento, só ele, é exclusivamente nosso, porque cada um de nós é uma mente a atuar no plano de vibrações correspondentes às suas, determinadas estas pelo desenvolvimento que haja conseguido. Decerto, foi, portanto, o pensamento que levou o homem primitivo, maravilhado com o espetáculo da natureza, a soltar o seu primeiro grito de assombro. Rodeava-o o mistério e ele, impotente para criar uma que fosse das maravilhas que se lhe ostentavam, assim no azul límpido do firmamento, como no verde tremeluzente das selvas, pensou num ente superior, oculto às suas vistas, e entoou, num arroubo espontâneo de admiração, o seu primeiro hino ao Criador de todas as coisas.

Mais tarde, como o conhecimento da própria natureza lhe fosse desvendando os atributos da Divindade, tornando-a infinitamente maior e, por isso, afastando-a da retina, acabou confundindo a obra com o Artífice e, alheando-se dEste, se prostrou diante daquela e entrou a adorá-la, orgulhoso de si mesmo, nisso a que chama a sua ciência, infinitesimal partícula da ciência universal, ou divina.

A natureza mesma, todavia, lhe mostrou que a dor a todos acompanha, qual sombra, do berço ao túmulo e ele inquiriu: Mas, como! Se Deus é bom, como pode ter-nos condenado à dor? Por outro lado, conceber a onisciência e a onipotência, associadas à maldade, à iniquidade, à injustiça fora absurdo. Mais lógico seria negar-lhe a existência. E o homem se fez negativista.

A dor, porém, continuou, calma e serenamente, a espiritualizá-lo, como quem cumpre dever estrito e sagrado.

Desviando do mundo físico para o mundo espiritual a atenção dos negadores, forçou-os ela a reconhecer, observando as grandes expiações coletivas que, de quando em quando, convulsionam o planeta, forças cegas e desordenadas não se poderiam conjugar em tão perfeito equilíbrio de ação e de ideias, tendentes sempre a encaminhar a Humanidade para destinos grandiosos.

Então, falaram e continuam a falar as vozes do céu, testificando que as guerras, as revoluções, as calamidades sociais de toda espécie, como serem consequência da cegueira moral do homem, são, simultaneamente, como processo de cura dessa cegueira, meios de progresso moral, mas de progresso a realizar-se, conforme essa mesma circunstância o mostra, à custa de lágrimas e aflições, de gemidos e sofrimentos acerbos. Assim, a dor é a eterna depuradora das almas pecaminosas, a redentora dos Espíritos que faliram.

Verdade tão profunda e insofismável é esta, que teve a consagrá-la o sacrifício do Justo no cimo do Calvário. Cumpre, pois, que, em penhor da sua felicidade real, deixe o homem de malsiná-la, que a ame, conforme lho ensinou Aquele mesmo Justo, dado que somente ela lhe apurará as qualidades afetivas, preparando-o para a fraternidade, sem a qual a paz na Terra será sempre uma utopia.

Disponham-se os homens a abrir o entendimento para a compreensão da grandiosa lei das reencarnações, lei de justiça misericordiosa, e, reconhecendo-se, em face dessa lei, Espíritos falidos de pretéritas existências, facilmente apreenderão, em toda a sua magnitude, o verdadeiro significado destas palavras de Jesus a Pedro: Quem com ferro fere com ferro será ferido.

Ontem, ferimos o coração dos nossos semelhantes, irmãos nossos, porque filhos, como  nós, do mesmo Pai: justo é sejamos agora golpeados no Espírito, para que não mais façamos aos outros o que não queremos que nos façam. E nem só justiça aí há, senão também misericórdia, misericórdia sobretudo, por isso que unicamente a dor nos ensinará a amar ao próximo e a bendizer da existência, por mais aflitiva que nos seja, induzindo-nos a buscar, penitentes, o perdão do amor infinito dAquele que não quer a morte, o aniquilamento do pecador, mas que este se converta, para viver, não vidas de tribulações e amarguras, porém a vida eterna, que é a integração da criatura no Criador, tornando-se, por assim dizer, partícipe da Sua divindade, por lograr conhecê-lO e senti-lO na majestade dos Seus atributos de perfeição absoluta.

Revista Reformador, da Federação Espírita Brasileira,
ano 61, n. 12, dezembro 1943.

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