Jornal Mundo Espírita

Agosto de 2020 Número 1633 Ano 88

Crescer com Jesus

julho/2020 - Por Cristiane Lenzi Beira

A Parábola das Mães Felizes, narrada por Malba Tahan1, conta a história de uma mãe que pediu a Deus Sua bênção para sua jornada pela Terra e a vida de seus filhos. O Senhor lhe respondeu, dizendo que sua vida seria recortada de dores, tapetada de fadigas e semeada de angústias, mas que ela finalizaria sua passagem pela vida, sentindo-se realizada e feliz. A mãe seguiu, então, seu caminho, conduzindo seus filhos e protegendo-os carinhosamente.

Ao finalizar seu primeiro dia de viagem, que havia sido calmo, sob um lindo sol brilhante, ela se preparou para descansar, alegre por ter podido brincar com seus filhos durante aquele prazeroso dia. Aninhou-os perto de si e agradeceu o dia de luz, de saúde e de alegrias com eles, afirmando: Nada haverá, Senhor, de mais belo! Jamais serei, na companhia de meus filhos, mais feliz do que sou agora!

Mas veio a noite e com ela uma forte e amedrontadora tempestade. Os filhos, trêmulos de medo, soluçavam. A mãe os agasalhou sob sua túnica e os protegeu. Os pequenos agradeceram-na por lhes oferecer segurança quando estavam vulneráveis. E a mãezinha voltou seu olhar para Deus e O louvou: Isto para mim, ó Deus, é mais belo e grandioso do que a jornada pelo caminho tranquilo, sob o esplendor do dia. Sinto-me realmente feliz! Mais feliz que ontem, por poder cuidar de meus filhos quando eles não eram capazes ainda de se cuidarem.

No dia seguinte, a família se deparou com uma montanha muito íngreme e perigosa para ser escalada. Todos estavam fracos pela fome, mas a mãe, uma vez mais, mostrou-se entusiasmada para animar os filhos, motivando-os a subir, com confiança. Suas palavras estimulavam-lhes a coragem e venceram o terreno, em segurança. Os pequenos voltaram a agradecer à mãe, que lhes havia ensinado a superar, com suas próprias forças, os terrenos difíceis da jornada, acreditando em si mesmos. Novamente ela dirigiu suas palavras a Deus: Ó Deus, clemente e justo! O dia de hoje foi para mim melhor ainda do que o de ontem! Sinto-me mais feliz do que nunca, por poder ensinar aos filhos como enfrentar os reveses da vida.

E na última etapa da jornada, a família se deparou com um enorme cataclismo: a gigantesca montanha tremeu, descolando rochas descomunais, que rolaram para abismos apavorantes. Não havia onde buscar abrigo naquele lugar e a morte, com suas garras de fogo, rondava por toda parte. Nesse momento a mãe, buscando acalmar os filhos, os convidou: Em Deus confiai, meus filhos! Olhai para cima! Deus não nos abandonará! Os filhos lhe seguiram a sugestão e Deus os livrou da fúria. Como sempre, a mãe se colocou em conversa com o Criador, cheia de gratidão: Este foi o dia melhor de minha vida, Senhor! Ensinei meus filhos a crer em Vós, a confiar em Vós, só em Vós, ó Deus Misericordioso!

E assim a mãe finalizava sua participação na construção dos seres humanos que Deus lhe havia confiado. Viveu com eles até sua velhice, mas depois apenas desfrutando de suas companhias. Sua responsabilidade havia sido concluída antes, durante a jornada descrita. Ela não era mais necessária a eles, ainda que lhes fosse muito querida!

O respeitado pediatra e psicanalista inglês, Donald W. Winnicott (1896-1972), pesquisador do desenvolvimento infantil, apresentou o conceito de mãe suficientemente boa, para explicar o que narra a parábola de Malba Tahan: a mãe suficientemente boa se relaciona com seu filho como sujeito que ele é, e não objeto, ou seja, cuidar do filho não é seu objetivo final. Ao cuidar do filho, a mãe suficientemente boa objetiva ajudá-lo a aprender a cuidar de si mesmo, futuramente. Para isso, ela deve estar atenta à necessidade de seus dependentes, a fim de não cair na negligência, sendo-lhes insuficiente frente às suas demandas, nem tampouco se equivocar quanto à superproteção, sendo mais que suficiente e, por isso, tolhendo a iniciativa dos filhos em cuidarem de si mesmos.

A mãe suficientemente boa permite ao filho experimentar o mundo, sob sua orientação e acompanhamento, mas na forma de sujeito da própria vida, desenvolvendo seu verdadeiro self, ou seja, o ser que é. Caso o filho cresça em função da vontade e experiência de sua mãe,  provavelmente será um adulto privado de liberdade, espontaneidade e criatividade, porque viverá de acordo com o self emprestado da mãe.

 

Malba Tahan descreve, de forma poética e emocionante, uma mãe suficientemente boa, que preparou seus filhos para serem adultos, fornecendo-lhes:

  • convívio, brincando com eles e oferecendo-lhes sua atenção e sua presença dedicada;
  • segurança, protegendo-os quando eram ainda indefesos;
  • autonomia, motivando-os a caminharem por si mesmos quando estavam em condições para isso;
  • espiritualidade, ensinando-os a se conectarem com Deus, pela fé, e poderem futuramente serem figuras de referência para seus próprios filhos.

 

Essa metodologia resumida de como educar filhos para serem autônomos, independentes e felizes parece ter sido usada, inclusive, por Jesus para nos preparar, pois conviveu em sociedade, como viviam as pessoas da época, dando atenção a cada um que O buscasse, estando presente no dia a dia daquelas comunidades. Ofereceu segurança aos necessitados, agasalhando os excluídos, atendendo os doentes e dando voz aos perseguidos incapazes de se defenderem. Também buscou desenvolver a autonomia das pessoas, ajudando-as a se fortalecerem a acreditarem em si mesmas, lembrando-as de que eram como deuses2. E, por fim, apresentou a verdadeira , não aquela baseada em dogmas e ritos vazios, mas a real conexão com Deus, capaz de operar maravilhas e mover montanhas3.

A partir dos estudos de Winnicott, poderíamos pensar numa analogia entre a função de uma mãe e a de Jesus, concluindo que devemos nos relacionar com o Mestre de Nazaré colocando-O na condição de suficientemente bom para as nossas vidas.  Assim, nem ficaríamos distantes dEle, negligenciando nosso convívio com o Cristo, apartando-nos de Sua presença, nem tampouco permaneceríamos dependentes dEle para sempre, mas desenvolveríamos nossa autonomia e independência, a partir de nossa relação com Sua vida, Sua história e Seus ensinos, de forma que cresceríamos com Ele, como certamente Ele espera que seja.

E quando nos percebermos adultos em Cristo, no sentido de havermos conquistado o modo crístico de viver, então não precisaremos mais de orientações de outras fontes além de nosso próprio ser, de nosso próprio coração. Ser como o Cristo é ter desenvolvido o amor e a humildade em nosso mundo íntimo, duas principais características de nosso Modelo e Guia, Jesus, que tem nos sido, desde sempre, um exemplo suficientemente bom!

 

Referências:

  1. TAHAN, Malba. Os melhores contos. Rio de Janeiro: Record, 1995. p. 129.
  2. BÍBLIA, N. T. João. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1966. cap. 10, vers. 34.
  3. cit. Mateus. cap. 17, vers. 20.
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