Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2020 Número 1634 Ano 88

Covid-19 – Mensagem para a Humanidade

agosto/2020 - Por Cleber Fabre

Epidemias e catástrofes sempre estiveram presentes no processo de evolução do nosso planeta. Não estamos aqui por acaso, todos temos responsabilidades por tudo que acontece em nossa Casa (Terra). Casa que nos foi oferecida pela benevolência divina para ser o lar dos Espíritos com necessidade de evoluir, num planeta em condições ao seu grau de evolução (moral e intelectual).

Encontramo-nos desnudos diante de um inimigo que não vemos, o medo se apresenta e instituições científicas, que se identificavam como salvadoras do mundo, estão estarrecidas diante de um conhecimento impotente para saber a que veio e como nos agride. A natureza nos está obrigando a nos curvarmos diante de nossa arrogância de não saber cuidar da mãe Terra (Gaia).

Essa pandemia nos obrigou a mudarmos comportamentos conosco, com a família, o trabalho, a sociedade e a relação com nosso ecossistema, valorizado de forma equivocada e que, agora, coloca em xeque todos os paradigmas, nos requerendo muitas reflexões.

A benfeitora espiritual Joanna de Ângelis1, em sua abordagem a respeito do dinheiro, elucida: Não compra a felicidade e muitas vezes, torna-se responsável por incontáveis desditas. (…) A aplicação que se lhe dá, torna-o agente do progresso social, do desenvolvimento técnico, do conforto físico e, às vezes, moral, ou causa de inomináveis desgraças.

O instinto de conservação inicia com a preocupação conosco, nosso bem-estar físico e psíquico, conservando nosso instrumento de evolução neste planeta (corpo físico e biológico) o maior tempo possível, para nossa evolução moral e intelectual. Infelizmente, muitos nos preocupamos mais com o intelecto, numa corrida desenfreada para adquirir informação e conhecimento, num movimento de alimentar o ego, em detrimento de olhar para a própria Alma. Alimentamos o ego, numa postura de Logos (uso da razão, hemisfério cerebral esquerdo), esquecendo que o autoconhecimento é um movimento de dentro para fora, na prática da Sofia (sabedoria), na busca do equilíbrio do consciente com o inconsciente, do feminino com o masculino. Centralizamos nossa energia no tempo Cronos, ocupados com as atividades diárias, esquecendo de priorizar esse tempo para ficarmos conosco e com nossa família, num exercício de nos beneficiarmos do Kairós. A Doutrina Espírita não é um alimento para o ego e sim para a nossa Alma.

A mente não sabe o que é o amor. O amor são as atitudes de nossa Alma. Enquanto não olharmos e não vislumbrarmos em nós as dificuldades e as tendências (sombra) não conseguiremos transformar as lições de Kardec e a mensagem do Evangelho (Jesus) em uma ferramenta de aprendizado e crescimento para o nosso processo de individuação, rumo ao autoencontro com o self.

Alertam-nos os luminares da Codificação Espírita2:  Preciso é que tudo se destrua para renascer e se regenerar. Porque, o que chamais destruição não passa de uma transformação, que tem por fim a renovação e melhoria dos seres vivos.

Temos visto, nesses dias da pandemia, que acometeram o nosso planeta, o medo estampado nas faces das pessoas, na divulgação da mídia, às vezes, com notícias exacerbadas, por desconhecimento da evolução natural de uma infecção viral nova para a comunidade científica.

A pessoa com medo agride ou foge, exagera ou se exime da iniciativa feliz, torna-se difícil de ser ajudada e contamina, muitas vezes, outras menos robustas na convicção interna, desesperando-as também.

O medo pode ser comparado à sombra que altera e dificulta a visão real.3

A Humanidade e o planeta estão doentes, convidando-nos a deixarmos de ser indivíduos e nos tornarmos seres humanos.

O chamado foi acionado: colocar a máscara para esconder a nossa máscara (persona) e olhar as nossas Almas com atitude de olhos nos olhos. O que não estamos vendo? Olhos de ver, como Jesus nos lembrou. Enxergamos a trave no olho do outro e não a vemos no nosso. Falar menos, observar e despertar nossas funções psicológicas irracionais: sensação e intuição.

Esse pequenino ser (coronavírus) fez evidenciar para a Humanidade o total descontrole que tínhamos dos nossos sistemas de saúde, lembrando do despreparo em cuidar de nós e de uns com os outros, colocando pobres e ricos num mesmo ambiente (UTI). Vem nos lembrar que o cuidado com todos os nossos semelhantes deveria ser intensivo, todos os dias de nossas vidas.

Sabemos que as infecções virais acometem mais os indivíduos com baixa imunidade. Países com falta de saneamento básico, dieta alimentar hipoproteica e sem uma política de educação para uma população que não compreende os mecanismos de higiene e meios necessários para prevenção, são os que mais sofrem. Constata-se, também, a deficiência imunológica em todas as classes sociais, em que a drogadição, os excessos alimentares e vícios debilitam os indivíduos. Pacientes com doenças crônicas e  obesidade facultam o maior poder de infecção viral, porta aberta para se instalar um outro microorganismo, lembrando-nos de que o corpo necessita ser observado,  precisa do necessário, independente de doenças congênitas ou não.

Urge a necessidade da prática do feminino que há em nós (Anima, Yin) se manifestando através do inconsciente coletivo para que cada homem e mulher coloque em ação as atividades: cuidar, acolher, alimentar, compartilhar e o olhar de ternura de uma mãe. Tudo isso a Mãe Terra nos proporciona, seu leite materno que nos sustenta. Devolver a ela o nosso reconhecimento e agradecimento é o mínimo que ela espera de nós.

Usarmos do nosso poder criador do masculino e do feminino (Anima, Animus, Yin, Yang) em busca do equilíbrio (Coniunctio, Tao) iniciando individualmente nossa mudança para que contamine o coletivo numa atitude de amor para com todos, sem preconceitos. O Amor transpassa fronteiras, que dividem países, mas não dividem pessoas. Somos todos filhos de um único Pai.

O combate de nossa existência despertará a necessidade do autoencontro e do agir na direção do outro em um gesto de solidariedade e compaixão, aceitando as diferenças e vendo que necessitamos do próximo para sermos felizes. Aplicar a Justiça para que não alimentemos no outro maior comprometimento, atraindo mais débitos para nós, perante as leis Divinas é o nosso Dever para com aqueles que ainda não compreenderam a Lei Universal de Causa e Efeito.

Várias situações nos proporcionam rever nossos conceitos, em que o trabalho pode ser realizado em casa. Escolas e instituições de ensino não serão as mesmas: mudança de comunicação entre professores e alunos. Nossos costumes, antes não valorizados, o encontro de famílias e com os amigos: nunca um abraço se fez tão acalentador como agora.

Nosso compromisso vai além da atuação nas Casas Espíritas. Como espíritas podemos, através de nossas atitudes, levar o Evangelho do Cristo a todos os lugares, pois os tempos são chegados. Eles nos exigem coragem, desprendimento e fé de que estamos no comando de nossas vidas, transformando o nosso períspirito (a fôrma da forma do nosso próximo corpo) através das várias reencarnações, vivenciando o Homem Tecnológicus e Informáticus rumo ao Numinoso.

Compreender a lição de Kardec e do Cristo, que nos ensinam que tudo começa no cuidado para conosco (Caridade), estendendo esse cuidado para com a família e com a preservação de todos os ecossistemas. Esse será um grande passo para iniciarmos a jornada de recuperação da nossa Mãe Terra e preservar a nossa existência, deixando de sermos indivíduos fisiológicos e consumistas, nos transformando em verdadeiros seres humanos.

O homem não muda, na morte, em sua parte imortal; ele é mortal e imortal ainda em vida, pois é tanto ego como self. – C. G. Jung.

A morte restitui-nos à vida do espaço; o nascimento faz-nos voltar ao mundo material, para recomeçar o combate da existência, a luta necessária ao nosso adiantamento.4

 

Referências:

1 FRANCO, Divaldo Pereira. Leis morais da vida. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL, 1976. pt. V, cap. 19.

KARDEC, Allan. O livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1974. pt. 3, cap. VI, q. 728.

3 FRANCO, Divaldo Pereira. Leis morais da vida. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL, 1976. pt. VI, cap. 26.

4 DENIS, Léon. Depois da morte. Rio de Janeiro: FEB, 1978. pt. 4, cap. XXIX.

5 KARDEC, Allan. A Gênese – Os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2002. cap. XVII, itens 56 e 57.

6 ______. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2001. cap. V, itens 1 a 10.

7 FRANCO, Divaldo Pereira. Psicologia da gratidão. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL, 2011. cap. 8, item A neurose coletiva.

8 ______. Liberta-te do mal. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Santo André: EBM, 2011. cap. Ante os flagelos destruidores.

9 ______. O ser consciente. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL, 1994. cap. 3, item Dificuldades do ego.

10 Op. cit. cap. 7.

11 FRANCO, Divaldo Pereira.  Triunfo pessoal. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL, 2002. cap. 7 e cap. 11, item O numinoso.

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