Jornal Mundo Espírita

Dezembro de 2018 Número 1613 Ano 86
Trabalhadores do Bem Envie para um amigo Imprimir

Cora Coralina

abril/2018 - Por Mary Ishiyama

Este nome não inventei, existe mesmo, é de uma mulher que vive em Goiás: Cora Coralina. Assim Carlos Drummond de Andrade projetou para o mundo a grande contista e poetisa, que se escondia sob o nome de Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, nascida em 1889, às margens do rio Assunção, rio ao qual, segundo ela, pedia bênção todas as manhãs.

Teve pouco estudo, mas isso não a impediu de ser reconhecida por Drummond: Cora Coralina, para mim é a pessoa mais importante de Goiás. Uma velhinha sem posses, rica apenas de sua poesia, de sua invenção, e identificada com a vida como é, por exemplo, uma estrada. Na estrada que é Cora Coralina passam o Brasil velho e o atual, passam as crianças e os miseráveis de hoje.1

Escreveu seus primeiros textos aos 14 anos, publicando-os, posteriormente, nos jornais de Goiânia. Foi colaboradora da Tribuna Espírita, do Rio de Janeiro; do semanário Folha do Sul, da cidade goiana de Bela Vista; da revista A Informação Goiana, do Rio de Janeiro. Seu primeiro livro, Poemas dos becos de Goiás e estórias mais, foi publicado em junho de 1965, aos 76 anos.

Não há registros de Cora ter sido espírita, mas está claro que era simpatizante da Doutrina. Incentivada a escrever por seu amigo goiano Raul Peixoto, precursor da Doutrina no Estado, publicou artigos na Tribuna Espírita, sendo o primeiro em outubro de 1908.

Dizia que a Doutrina parecia ser dos moços porque os moços abrem melhor os olhos, não aceitam a dúvida e querem a explicação do mistério.

Tem o Espiritismo bases sólidas inamovíveis, inatacáveis e jamais será abalado.  É uma montanha colossal, da qual Allan Kardec formou a base; ela subirá tão alto como nunca subiu a torre de Babel, e do seu cume poder-se-á um dia contemplar a perfeição da Humanidade!

A sua essência é tão pura, tão superior, que não deixará de atrair os que buscam a luz.

É o Espiritismo em Goiás e em toda a parte que dá crença aos ateus, materialistas e positivistas. Os sofredores, os desgraçados, os desesperados encontram, na sua prática, suave e infinito alívio. O Espiritismo é, sobretudo a religião que não tem mistério, nem interrogações mudas. Não gosto de mistérios, e ante um mistério paira a minha dúvida.  Prefiro cegar-me na luz a viver lutando na sombra. Allan Kardec, Léon Denis, Flammarion e tantos outros abriram, mandados por Deus, o caminho que nos levará à luz da verdade. 2

Em outros artigos, Cora fala sobre as mesas girantes, mediunidade, Eusápia Paladino, os registros iniciais do Espiritismo em Goiás e o nome de seus mais antigos precursores.

As dificuldades de sua vida, Cora as tornava poesia. Poetas não têm idade. Ela se identificava com os jovens, embora avançada em anos.

Escreveu: Saiu o semeador a semear. Semeou o dia todo e a noite o apanhou ainda com as mãos cheias de sementes. Ele semeava tranquilo, sem pensar na colheita porque muito tinha colhido do que outros semearam. 

Jovem, seja você esse semeador. Semeie com otimismo, semeie com idealismo as sementes vivas da Paz e da Justiça.

Cora muitas mulheres Coralina enfrentou todas as dificuldades.  Transladou-se para São Paulo, aos 20 anos, unindo-se a um homem vinte anos mais velho. Viveram juntos por 45 anos e tiveram quatro filhos. Viúva, precisou vender flores, linguiça e banha de porco para sobreviver.

Aos 67 anos, retornou para Goiás velho, para a casa da ponte, às margens do rio. Sua volta à cidade auxiliou, politicamente, a projetar Goiás no cenário estadual e nacional, em um momento em que se analisava a transferência da capital. Paralelamente a isso, ela começou a fazer doces para vender e abriu sua casa para o turismo, trazendo uma nova realidade para a localidade.

Em 1983, recebeu da Universidade Federal de Goiás o título de Doutora Honoris Causa. Em 1984, foi escolhida a intelectual do ano pela União Brasileira de Escritores e recebeu o troféu Juca Pato, do jornal Folha de São Paulo. Foi uma das maiores poetisas do Século XX.

Morreu em 1985, aos 95 anos de idade, sem nunca perder a doçura e a simplicidade. Dizia: Estou no fim da vida, nada tenho e nada me falta.

Quatro anos depois, pelo centenário de seu nascimento, sua casa foi transformada em museu. A casa de Cora Coralina tem a finalidade de incentivar atividades culturais, artísticas, educacionais e filantrópicas, visando a valorização sociocultural do povo goiano, bem como preservar e divulgar a obra de Cora.

Ela viveu a religiosidade, a simplicidade, trabalhando, auxiliando quanto pôde.

E morrerei tranquilamente dentro de um campo de trigo ou milharal, ouvindo ao longe o cântico alegre dos ceifeiros. Eu voltarei.

Sendo mestra das palavras deixou escrito seu epitáfio:

 
Morta… serei árvore,
serei tronco, serei fronde
e minhas raízes
enlaçadas às pedras de meu berço
são as cordas que brotam de uma lira.

Enfeitei de folhas verdes
a pedra de meu túmulo
num simbolismo
de vida vegetal.

Não morre aquele
que deixou na Terra
a melodia de seu cântico
na música de seus versos.

 

Referências:

  1. http://www.jb.com.br/especial-drummond/noticias/2012/07/04/a-cronica-cora-coralina-de-goias-descortinou-o-talento-da-escritora/

2.http://www.forumespirita.net/fe/artigos-espiritas/f-pessoa-machado-de-assis-monteiro-lobato-(dentre-outros)-e-a-visao-espirita/

  1. https://www.youtube.com/watch?v=T1sKF7ga9jI
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