Jornal Mundo Espírita

Outubro de 2021 Número 1647 Ano 89

Construção da Nova Humanidade

março/2021

Entendido que nossa maneira de pensar, sentir e agir é, em essência, nossa personalidade, e é nossa personalidade que cria nossa realidade pessoal, podemos ampliar nossa visão e, por analogia, vermos um grupo de pessoas e até a Humanidade, como um ser coletivo.

Esse ser coletivo, examinado no geral, guarda características marcantes e conducentes de todos, com seus valores estereotipados, linha de pensamento dominante, sentimentos desejados, que traçam um comportamento conveniente e comum.

As Nações formatam seus rótulos, que as identificam, genericamente. O mesmo com cidades, famílias e grupos de pessoas que se reúnem em torno de ideais ou interesses comuns.

Da mesma maneira que para mudar nosso estado de ser, nossa vida, nossa realidade existencial, devemos fundamentalmente mudar nosso modo de pensar, agir e sentir, cabe raciocinar que, para mudança social, há que se mudar seus padrões comportamentais adotados, que decorrem do pensar, sentir e agir coletivos.

O conhecimento novo nos chega pelo entendimento, que, conforme sua significação, alcança o nosso sentir, e, com ele identificado, se reflete em nosso comportamento.

Conforme dito por Allan Kardec[i], o insigne Codificador da Doutrina Espírita: Falsíssima ideia formaria do Espiritismo quem julgasse que a sua força lhe vem da prática das manifestações materiais e que, portanto, obstando-se a tais manifestações, se lhe terá minado a base. Sua força está na sua filosofia, no apelo que dirige à razão, ao bom-senso.

Ainda o Codificador[ii]: Enquanto a sua influência não atinge as massas, ele vai felicitando os que o compreendem.

 (…) Nela (Filosofia Espírita) encontro, por meio unicamente do raciocínio, uma solução racional para os problemas que no mais alto grau interessam ao meu futuro. Ela me dá calma, firmeza, confiança; livra-me do tormento da incerteza.

Capaz de mudar paradigmas, padrões, a partir da reformulação de ideias e de ideais, o Espiritismo se apresenta como um roteiro para a evolução da Humanidade, a partir do homem.

Quanto melhor compreendido o verdadeiro objetivo do Espiritismo, que é a reforma moral para melhor de cada um e de todos, mais profundas as mudanças no pensar, no sentir e no agir.

O esforço determinado pelas mudanças se consolida com o empenho em mudar as más inclinações.

A visão reformista e progressista encontrada nas proposições doutrinárias, aclarada pelo descortinar do mundo dos Espíritos, facultada pela revelação trazida pelas Vozes dos Céus, registradas nos diversos ditados desses Mensageiros da Luz, colhidos por médiuns em diversas partes da Terra, reunidas em vários cadernos e entregues para análise preliminar, despertou o interesse do célebre Rivail em se aprofundar na pesquisa.

A mente aberta e coração receptivo de Hippolyte Léon Denizard Rivail, influente educador, reconhecido pela sua cultura, na Paris de 1855, na maturidade de seus mais de cinquenta anos, percebeu o alcance do conteúdo das mensagens que tinha em mãos, pois que tangiam a corda mais sensível do homem: a da sua felicidade.

Aí estava, diante de seus olhos, o segredo da força que faria essa filosofia triunfar.

Uma filosofia que explica o que nenhuma outra até então havia explicado, capaz de estimular o Espírito humano no roteiro da dignificação pessoal e social, fazendo-o religioso com religiosidade íntima, capaz de ligá-lo realmente a Deus.

Identificou que é a alma quem pensa. Que o pensamento é um atributo do Ser eterno! Que o Espírito existe e antecede ao berço e transcende ao túmulo.

E concluiu: material imprescindível para construção da nova Humanidade. Potente auxiliar da religião.

Sem rodeios, com a tenacidade que lhe era própria, entregou-se ao sacro labor de aprofundar pesquisas, reunir material de análise, integrar-se em grupos de estudos, organizar os conhecimentos novos.

Em 18 de abril de 1857, em Paris, França, o mundo via nascer o Espiritismo, com a chegada de O Livro dos Espíritos, que se apresentou em sua folha de rosto, falando: sobre a imortalidade da alma, a natureza dos Espíritos e suas relações com os homens, as leis morais, a vida presente, a vida futura e o porvir da Humanidade – segundo os ensinos dados por Espíritos superiores com o concurso de diversos médiuns – recebidos e coordenados por Allan Kardec.

Se o homem não aceita, como certo, senão o que lhe parece lógico, com a Doutrina Espírita passou a dispor de um conjunto de ensinamentos, postulados e princípios, capaz de elevar-lhe o pensamento acima da sua própria personalidade, e facultar-lhe admirar os desígnios da Providência.

No Espiritismo estão os elementos para a revolução silenciosa, que vem mudar os padrões mentais, desfazer as falsas crenças, reavaliar valores existenciais, despertar o sentimento do bom, do belo, do nobre, impulsionar atitudes evolucionárias.

Espiritismo é uma questão de princípios. Forte por suas consequências morais.

Aceito porque toca o coração.

O Espiritismo não procura ninguém; não se impõe a ninguém. Limita-se a dizer: Eis-me aqui, eis o que sou, eis o que trago; os que julgam precisar de mim, que se aproximem…[iii]

 

Referências:

  1. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1974. Conclusão, item VI.
  2. Op. cit. item V.
  3. KARDEC, Allan. Viagem espírita em 1862: e outras viagens de Kardec. Rio de Janeiro: FEB, 2005. Discursos pronunciados nas reuniões gerais dos espíritas de Lyon e Bordeaux, item II.

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