Jornal Mundo Espírita

Dezembro de 2019 Número 1625 Ano 87

Conduta cristã

junho/2014 - Por Alessandro Viana Vieira de Paula

Na atualidade, há um grupo considerável de pessoas que ainda não descobriu o verdadeiro sentido da vida e, por consequência, vive por viver, sem qualquer meta moral, uns buscando incessantemente o prazer e o gozo, enquanto outros derrapam no conflito do vazio existencial, que procuram anestesiar com o uso de substâncias entorpecentes, quando não buscam o suicídio direto.

Com o objetivo de nos esclarecer sobre essa questão, o eminente codificador, Allan Kardec, indaga aos Espíritos superiores acerca do objetivo da encarnação e esses respondem que Deus a impõe com a finalidade de fazer a criatura humana chegar à perfeição (questão 132 de O livro dos Espíritos).

Dessa forma, passamos a entender que a vida no corpo tem um caráter educativo, visando o progresso intelecto-moral, mas como avaliar se temos efetivamente realizado esse crescimento espiritual?

Allan Kardec, revelando sua pedagogia incomparável, explora esse ponto ao perguntar, na questão 918 de O livro dos Espíritos, sobre os sinais pelos quais se pode aquilatar o progresso real.

Os nobres guias da Humanidade ensinam que o Espírito prova a sua elevação quando todos os atos de sua vida corpórea compõem a prática da lei de Deus e quando compreende, por antecipação, a vida espiritual.

A segunda parte da resposta refere-se ao progresso intelectual, que é mais fácil de ser concretizado, porquanto basta a leitura para que o aprendizado se faça quase que instantaneamente. As obras espíritas facilitam essa compreensão da vida espiritual, a nos induzir à prática da primeira parte da resposta, que diz respeito ao progresso moral.

Ajustar ou renovar a nossa conduta diária à prática da lei de Deus, cujo mandamento maior é o amor, é o grande desafio de nossas vidas.

O benfeitor espiritual Camilo, através do médium Raul Teixeira, na obra Educação e vivências, aponta-nos os comportamentos cristãos a serem exercitados, nos variados segmentos da vida humana, que decorrerá da nossa autoeducação.

De conteúdo semelhante, temos ainda o livro Conduta Espírita, ditado pelo espírito André Luiz ao médium Waldo Vieira, de forma que, neste artigo, procuraremos explorar as notáveis lições de ambas as obras, com o escopo de aprimoramento das nossas condutas nas lides diárias, que deverão compor a prática da lei de Deus.

Notaremos que, em todas as situações do cotidiano, poderemos agir aquém do esperado, dentro dos padrões de normalidade, ou fazendo o extraordinário, a revelar o nosso propósito cristão, tendo Jesus como modelo e guia.

Na questão ambiental

Inegavelmente, há Espíritos que reencarnam com relevantes missões no campo da ecologia, a fim de chamar a atenção da criatura humana acerca da importância da preservação da natureza em todos os seus aspectos.

Há indivíduos que despertam em si esse compromisso com a ecologia, mas haverá aqueles que continuarão a agredir o meio-ambiente, jogando dejetos e objetos nos rios e oceanos, atirando papéis e lixo na via pública, emitindo gases e vapores que poluem o ar. Há atos de grande e pequeno porte que afrontam o equilíbrio ecológico. Será que temos ajudado a conservar a natureza? Será que não temos desperdiçado água potável na hora do banho ou nas limpezas de nossas casas? Será que não jogamos papel na via pública? Temos contribuído para a reciclagem e a reutilização de alguns produtos?

O benfeitor Camilo adverte-nos para os contrassensos havidos nessa área, porque há muitos defensores da ecologia que se intoxicam com bebidas alcoólicas e cigarros, esquecendo-se que o corpo físico também é obra de Deus e merece todos os cuidados.

Também há aqueles que se abraçam a árvores e animais em extinção, para evitarem sua destruição, mas são incapazes de abraçar o próximo e, algumas vezes, estão com o relacionamento tumultuado com os pais ou com os irmãos consanguíneos, não tendo coragem de abraçá-los.

Há outros idealistas da ecologia que, movidos por paixões neuróticas, se utilizam de comportamentos agressivos e chulos (ficam nus, por exemplo) para promover a defesa de seus ideais.

O Espírito Camilo ainda nos fala da poluição psíquica, porque, com os nossos pensamentos de má qualidade (ódio, inveja, comodismo, calúnia, libido descontrolada etc.), impregnamos o ambiente em que estamos com vibrações asquerosas e grosseiras, que interferirão, negativamente, na vida daqueles que convivem conosco e que entram em sintonia com essas energias deletérias.

Vejamos a responsabilidade que temos, no sentido de colaborar para o ambiente psíquico do nosso lar, do local de trabalho, do templo religioso ou de outros que frequentamos.

Educação para o trabalho

Lamentavelmente, muitos ainda acreditam que o trabalho é um castigo, de tal sorte que, diariamente, movimentam-se para seus locais de trabalho, com profunda monotonia e sem alegria, o que, obviamente, compromete a qualidade do trabalho a ser executado, bem como a relação com os demais colegas.

Temos que entender que trabalho não é apenas oportunidade de remuneração para o autossustento, mas visa também o nosso crescimento espiritual e propicia o bem-estar social.

Com essa visão, deveremos levar para o ambiente profissional o nosso ideal de cooperação, a jovialidade e a gratidão, o que contribuirá para a boa vibração do local.

Infelizmente, temos patrões que exploram os empregados porque exorbitam nos lucros e os tratam com rudeza, bem como temos empregados que fingem que trabalham, tiram licenças-médicas indevidas, não cooperam com o colega que está sobrecarregado de serviço, portanto, muitos de nós estamos fazendo o corriqueiro em detrimento do extraordinário.

Vendemos produtos que sabemos de má qualidade, fazemos serviços com o objetivo do enganar o consumidor (trocamos peças sem necessidade ou usurpamos peças sem problemas, substituindo-as por outras defeituosas), ganhamos dinheiro desonestamente, não nos preocupamos com as lutas pessoais dos colegas de trabalho e somos incapazes de doar um pouco do nosso tempo para ouvi-los e consolá-los.

Camilo afirma que cada profissão no mundo guarda o compromisso de forjar o bem e o progresso dos grupos humanos, ganhe muito ou pouco, e produzir para ser útil, para a vitória da honestidade e do bem.

Fazer o extraordinário será trabalhar com imensa alegria e realizar o melhor, não nos esquecendo da ajuda, em todos os sentidos, a ser dispensada em favor daqueles que trabalham conosco e das pessoas que frequentam o nosso local de trabalho.

Hábitos nocivos

O guia espiritual Camilo convida-nos a refletir sobre alguns atos simples e rotineiros da vida cotidiana, mas que raramente paramos para avaliar e acabamos por cometer deslizes que comprometem a nossa saúde e equilíbrio.

Fala-nos sobre a refeição, pois muitos indivíduos, ao se alimentarem, realizam outras tarefas, tais como assistir a televisão, falar mal dos outros, postar vídeos na internet, manusear o aparelho celular ou outros equipamentos modernos, de forma que atrapalham a digestão, havendo o risco de passar mal. Assim ocorrendo, temos o hábito de reclamar da alimentação, dizendo que o alimento não estava bom ou não foi devidamente preparado.

Outro hábito nocivo diz respeito à defecação, pois muitos levam revistas e aparelhos tecnológicos modernos para o banheiro, sendo que essa distração poderá gerar problemas de flatulência, prisão de ventre, hemorroidas e outros.

Temos que ter a noção de que o psiquismo influencia os processos biológicos do corpo físico, dentre eles, a digestão e a defecação, de tal sorte que não deveríamos entulhar a mente com distrações descartáveis, a fim de que esses fenômenos automáticos possam se dar em clima de equilíbrio, sob a influência vibratória saudável do Espírito.

Não podemos deixar de citar a questão do ato de falar, uma vez que muitas criaturas humanas expressam-se verbalmente, de forma descompensada, sem pontuação, não permitindo que o outro emita sua opinião.

Aqueles que assim procedem, acreditam-se donos da verdade, desdizendo ou zombando das ideias alheias, identificando defeitos em tudo que não foi elaborado pelas suas mãos, quando, não raro, põem-se a falar de si, durante todo o tempo e a qualquer pretexto.

Camilo afirma que São muitos os hábitos indevidos e mesmo nocivos que fazem parte de muitas vidas.

Interação conjugal

As estatísticas revelam que mais de 50% dos casamentos terminam em separações, o que demonstra que há muito desajustamento na relação conjugal.

Vemos, na relação conjugal, a presença do tédio, da falta de diálogo, da traição, da ausência de respeito, o que nos leva a pensar que os cônjuges adentram o casamento totalmente despreparados para a vida a dois, que exigirá um ato de compartilhamento e renúncia de ambos os lados.

Camilo assevera que o casamento deve gerar união e não fusão, porque cada um dos cônjuges deve alimentar seus ideais, que devem ser comunicados ao parceiro, a fim de que, juntos, possam ajustar a melhor maneira de consumá-los.

Infelizmente, na maioria das relações, o casamento é uma forma de legalizar o ato sexual, sobretudo para o elemento masculino que, em muitas situações, em razão da libido descontrolada, exigirá a relação sexual em períodos de enfermidade, de ciclo ovulatório e menstrual da mulher.

Aprendemos com Camilo e com outros benfeitores espirituais que o sexo é a parte menos significativa do casamento, que deve ser mantido através do amor-ternura e do amor-amizade, onde o afeto e o respeito não permitirão que o tédio domine as emoções dos cônjuges.

O casamento é como uma planta delicada, que deve ser regada diariamente com amor e amizade porque, antes de sermos parceiros conjugais, não podemos esquecer que somos filhos de Deus, portanto, irmãos que procuram ajudar um ao outro em suas trajetórias evolutivas.

Assim sendo, a atitude cristã no casamento sempre será de fidelidade, ternura, respeito e tolerância, cientes de que o mais evoluído ou o mais esclarecido, do ponto de vista religioso, deve ser aquele que mais oferecerá atitudes de amor, cedendo e silenciando, quando seja necessário, para a harmonia conjugal, buscando forças na oração.

Lembremos a frase de André Luiz: Começa na intimidade do templo doméstico a exemplificação. (Conduta Espírita).

Na via pública

André Luiz nos adverte de que deveremos demonstrar, com o exemplo, que o espírita é cristão em qualquer lugar.

Dessa forma, na via pública, deveremos usar de cordialidade e brandura com os transeuntes, sorrindo e expressando palavras afetuosas, pois a saudação fraterna é cartão da paz.

Deveremos, também, colaborar com a higiene da via pública, conforme visto no item Questão Ambiental, protegendo os jardins, os monumentos, as árvores e os animais, bem como deveremos auxiliar as crianças, os enfermos e os idosos, no trânsito ou outra situação em que poderemos ser úteis.

Aliás, o trânsito tumultuado dos dias atuais será uma excelente oportunidade para treinar a paciência e a tolerância, evitando-se os descontroles emocionais, que culminam em xingamentos e agressões. Após o descontrole, a consciência nos dirá que poderíamos ter agido com mais fraternidade.

A partir da consciência iluminada pelo Evangelho de Jesus, deveremos nos afastar dos lugares viciosos com discrição, sem crítica e sem desdém, porque sabemos que esses locais em nada contribuirão para a nossa melhoria espiritual,  ao contrário, poderão gerar riscos desnecessários para a nossa marcha evolutiva, mormente no campo das influências espirituais (obsessões).

No templo religioso

André Luiz traz excelentes apontamentos acerca de nossa conduta no templo religioso, convidando-nos, por exemplo, ao exercício da pontualidade.

Na casa espírita, se possível, chegar com quinze minutos de antecedência, para que possamos nos desconectar das fixações mentais ligadas à correria do dia a dia, abrindo espaço mental para absorver as lições espíritas, notadamente, se for reunião mediúnica, a exigir maior concentração dos médiuns.

André Luiz também nos fala da dedicação no que tange à disciplina, de forma que deveremos prestar atenção nos doutrinadores ou nos palestrantes, sem conversação, bocejos ou tosses bulhentas, a fim de que o aprendizado possa ser mais eficaz.

O benfeitor orienta que deveremos nos privar dos primeiros lugares no auditório, reservando-os aos visitantes e às pessoas menos capazes. Que advertência interessante, haja vista que, normalmente, fazemos o contrário, sobretudo em palestras espíritas, quando chegamos cedo no local e guardamos lugares para outras pessoas, em total desrespeito àqueles que estão chegando ao recinto.

Na obra Conduta Espírita ainda consta que o espírita deve preservar a todo custo a pureza doutrinária, buscando, por consequência, o estudo sério da doutrina espírita, principalmente, a partir da leitura das obras básicas de Allan Kardec, evitando-se, a todo custo, os livros de conteúdo duvidoso e a aceitação de ideias estranhas ao Espiritismo.

Ao conviver com pessoas difíceis

Diz o Espírito Camilo, no capítulo denominado Sofrimento e Cristalização, que não é fácil a tarefa de transformar o psiquismo de alguém porque, muitas vezes, estaremos diante de Espíritos que, há vários séculos, estão mantendo uma conduta irregular, divorciados do bem e da verdade, de forma que nem o sofrimento será capaz de romper imediatamente essa cristalização no erro.

Assim sendo, teremos que exercitar a compaixão ao nos depararmos com pessoas difíceis, agressivas, maldosas, levianas, libidinosas, materialistas, porque compreendemos que elas estão num patamar evolutivo inferior, e passam a ser nossos professores no campo moral, pois teremos que ofertar o melhor de nós para ajudá-las e para não perdermos o equilíbrio emocional.

Essas pessoas poderão estar em nossa família, nos ambientes de trabalho e nos relacionamentos sociais, portanto, nossa tarefa será de semeadura, cientes de que a terapia do tempo, através da reencarnação, produzirá seus efeitos benéficos e progressivos.

Não deveremos violentar a liberdade de consciência de outrem, de tal sorte que os nossos exemplos e as orientações verbais serão apenas propostas, pois não se impõe transformação moral, tratando-se de um convite para que a pessoa reflita e, por livre e espontânea vontade, opte por mudar-se para o bem.

Frise-se que os gestos de afeto serão de suma importância para o acolhimento desses indivíduos, haja vista que o Espírito Joanna de Ângelis nos ensina que nenhum investimento de amor é perdido, por marcar profundamente o Espírito ainda rebelde  que, mais cedo ou mais tarde, acabará por render-se ao amor que  plenifica e traz sentido existencial.

Cuidado para que não sejamos nós as pessoas difíceis, de caráter instável e intransigente, a tumultuar os relacionamentos à nossa volta.

Viver com o Cristo

As situações trazidas à baila neste artigo convidam-nos a viver sintonizados com Jesus, esforçando-nos sempre pelo bem comum, para que possamos ser um instrumento da paz, consoante o pedido de Francisco de Assis, em sua famosa prece.

Numa belíssima simbologia, Camilo nos convida a permanecer nas alturas, isto é, com a vibração elevada, jamais sintonizando com o mal, que é tudo aquilo que se afasta do bem.

Ele relembra a passagem do Sermão Profético, no qual Jesus, em dado momento, assevera que aquele que estiver no eirado não desça e quem estiver nos campos ou nas montanhas não volte à cidade.

Trata-se de uma proposta de fidelidade ao bem, sobretudo neste período de transição planetária, onde o mal e a agressividade tentam tumultuar os corações humanos.

Permaneçamos fiéis ao amor pregado e vivido por Jesus porque, infelizmente, muitos indivíduos acabam afrouxando no campo moral e se permitem pequenas concessões morais, vindo a entrar em sintonia com Espíritos equivalentes, complicando o rumo de suas vidas na Terra.

Joanna de Ângelis também nos adverte de que a atitude é a nossa radiografia moral, portanto, busquemos nos fortalecer na prece e no estudo, para que possamos entrar em sintonia com as energias superiores da vida, que nos estimularão a viver o bem, em regime de plenitude e em qualquer situação, lembrando que o eminente codificador do Espiritismo diz que reconhece-se o verdadeiro cristão pelos esforços que emprega para domar suas más inclinações, procurando ser hoje melhor do que ontem.

Perseveremos nas condutas cristãs para que os nossos gestos possam representar a presença do Cristo na Terra.

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