Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

Comunicar com responsabilidade

abril/2017 - Por Rejane Planer (Viena, Áustria)

A sociedade tecnológica atual, entre as tantas comodidades que nos proporciona, permite-nos a comunicação ou a troca de ideias com pessoas dos quatro cantos do globo, como se estivéssemos lado a lado. Esta possibilidade de rapidamente saber o que acontece na cidade e no mundo e as mil ofertas desta sociedade tecnológica, influenciaram a forma como as pessoas se comunicam e se expressam.

Há alguns anos, líamos as notícias veiculadas nos jornais ou artigos de cunho científico,  escritos por profissionais da área. Hoje, todos são comunicadores,  têm opinião sobre tudo, mesmo que tenham somente lido as manchetes sensacionalistas. Nas redes sociais, há uma tendência do indivíduo curtir uma notícia ou um artigo, e ainda tecer comentários, dar opiniões, crer ou não crer, aceitar ou negar, xingar, agredir, odiar, extravasando suas emoções, sem refletir ou sequer pensar. As redes sociais são, atualmente, os maiores veículos de comunicação, formadores de opinião, onde alguns se tornam heróis mundiais, em poucas horas, e outros são crucificados, em minutos. Elas abriram um leque de possibilidades e o ser humano deslumbrou-se consigo mesmo, feito Narciso, enamorou-se de suas palavras.

Atônitos, vamos percebendo a imaturidade espiritual da Humanidade terrestre,  ainda na sua maioria vivendo em níveis primários de consciência.

A globalização, que proporcionou grandes comodidades e oportunidades de desenvolvimento, aliada à competitividade, oriunda do instinto de sobrevivência, exarceba o ego e leva o indivíduo fraco e imaturo a tomar atitudes egoísticas em busca do prazer, ter opiniões duras a respeito do outro, enquanto condescende consigo mesmo. Joanna de Ângelis1 diz que a volúpia do prazer domina as massas, e as criaturas ansiosas tumultuam-se e agridem-se, precipitando-se inermes nos gozos exaustivos sem que saciem os desejos. A onda de vulgaridade avoluma-se e ameaça levar de roldão as construções enobrecedoras da sociedade.

Neste mundo global, urge que tomemos  consciência da interação constante entre nós, seres humanos e com o meio ambiente em que vivemos. Manoel Philomeno de Miranda2 afirma que vivemos num universo constituído de energia que se expressa em ondas, vibrações, mentes e ideias, condensando-se em matéria e voltando ao estágio inicial incessantemente. A ciência atual corrobora esta visão espírita da vida, em suas duas principais vertentes: a teoria da relatividade  e a mecânica quântica. O genial  Einstein (físico teórico alemão, Prêmio Nobel de Física de 1921) propôs, na teoria da relatividade, que a velocidade da luz é o limite de desagregação da matéria, ou seja, matéria é energia. Já a mecânica quântica confirma a dualidade matéria-energia ou partícula-onda e ainda afirma que o observador influe sobre o resultado do experimento realizado.

Somos energia pensante, como ensinam os Espíritos da Codificação. O Espírito é centelha Divina, princípio inteligente do Universo. Nossos pensamentos, palavras e atos refletem naqueles que nos cercam, no ambiente em que vivemos e atuamos. Criamos alegria e paz ou potenciamos desastres e desarmonias, que se refletem em nós mesmos e naqueles com quem convivemos, que sentem as vibrações do nosso pensamento, ouvem nossas palavras, ou sofrem as consequências das ações que praticamos.

No entanto, imerso em si mesmo e nas heranças ancestrais do instinto, levado a crer por milênios que é o centro do universo e o ápice da vida, o indivíduo não entende e  sequer percebe que vive nesse universo de energias, onde influencia e é influenciado.

Desconhecendo a si mesmo, não entende que existem forças instintivas que o impelem a reagir, a buscar o prazer pessoal a todo custo.

Educar o ser espiritual é educar-se. Educar é tomar consciência dessas forças que direcionam o ser e são parte da realidade pessoal de cada um, assumindo a responsabilidade por si mesmo. Educar é também descobrir seu potencial interior, para melhor empregá-lo em atividades construtivas na sociedade;   identificar suas fraquezas, para que possa discipliná-las e, aos poucos, erradicá-las. Educar ou educar-se é tomar consciência de si mesmo, de seu potencial criador, assumindo responsabilidade por si e por seus atos.

Ao olhar o mundo com a visão do Espírito, que se sabe imortal, coatuante e cocriador no mundo em que vive, ciente de sua responsabilidade frente às consequências de suas ações, fica mais fácil entender que é escolha pessoal incentivar desavenças pessoais ou guerras ou contribuir para a ordem social e a paz.  Entender a extensão dos postulados Espíritas é progredir em direção à felicidade.

Comunicar é essencial ao ser gregário. Aprender a se comunicar com  responsabilidade é tornar-se mais lúcido, prudente, apto a enfrentar os problemas e desafios da vida  buscando soluções equânimes, sem erguer mais barreiras, mas pontes que facilitem o progresso.

 

1. FRANCO, Divaldo Pereira Momentos de consciência. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL, 2014. Introdução.

2. __________. Perturbações espirituais. Pelo Espírito Manoel Philomeno de Miranda. Salvador: LEAL, 2015. Introdução.

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