Jornal Mundo Espírita

Janeiro de 2020 Número 1626 Ano 87

Comunicação – Uma questão de sobrevivência

janeiro/2020 - Por Geraldo Campetti Sobrinho

A comunicabilidade dos Espíritos é um dos princípios fundamentais do Espiritismo.

Desde o seu surgimento na Terra, há milhares de anos, o homem desenvolveu a habilidade de comunicar-se com seu semelhante por uma razão muito simples: precisava sobreviver no ambiente inóspito em que habitava. Hoje, muita coisa mudou e a luta pela sobrevivência ganhou diferentes proporções. Mas, a necessidade de se comunicar continua entre os requisitos básicos para a sobrevivência e felicidade humana.

Em termos profissionais, a expressividade oral constitui um dos componentes cada vez mais exigidos ao perfil do acadêmico ou do técnico de qualquer área de especialização que almeja conquistar espaço no mercado de trabalho. Em futuro breve, a desenvoltura das habilidades comunicativas integrará obrigatoriamente o elenco de competências de todo indivíduo.

Sócrates, o famoso filósofo criador do método da maiêutica, aquele que concitava o discípulo a buscar em si mesmo a resposta, antes de formular a pergunta a outrem, já dizia: Fala para que eu te veja1. O premiado Discurso do Rei2, que virou filme em 2010, retrata bem essa situação.

René Descartes, conhecido filósofo, desenvolvedor de uma metodologia para a busca do conhecimento verdadeiro, em seu clássico Discurso do Método, alcunhou a conhecida frase: Penso, logo existo. Parafraseando a interessante expressão, o professor Poyares intitulou seu livro como: Falo, logo sou3.

A fala é de suma importância para o entendimento entre as pessoas, ou não. Pelo verbo equilibrado, podemos nos entender. Todavia, pela palavra inassertiva, podemos provocar guerras…

O diálogo é necessário para que os indivíduos possam se entender. É preciso falar, expressar-se, dialogar. A harmonia depende de saber bem falar, mais que falar bem. Quantas vezes não conseguimos resolver intrincados problemas que pareciam sem solução com uma boa conversa?!

Um estudo norte-americano analisou a relação de novecentos casais e concluiu: A maneira como a pessoa conversa é tão atraente quanto valores pessoais, personalidade ou aparência física4. A forma de se expressar é, portanto, fundamental para a concretização de um relacionamento. O resultado da pesquisa foi publicado recentemente em artigo de autoria do psicólogo James Pannebaker, no jornal especializado Pshycological Science.

Quando não nos manifestamos, ou somos coibidos em nosso direito de liberdade, sentimo-nos coagidos e infelizes, com possibilidade de reações inadequadas para a boa convivência.

O indivíduo que costuma introjetar as opiniões ou sente-se intimidado ao falar pode guardar dentro de si vários problemas que, posteriormente, exigirão tratamento terapêutico adequado.

Não é saudável, portanto, reservarmos, apenas para nós, o que pode ser de proveito para outros. Precisamos aprender a compartilhar, pois todos estamos aprendendo e ensinando nas relações com os semelhantes.

Porém, a comunicação não se restringe ao ato de falar. Calar-se também é uma maneira de comunicar-se. Às vezes, o silêncio é o mais apropriado mecanismo de comunicação.

Há um ditado árabe que afirma: Nós temos dois ouvidos para escutar o dobro e uma boca para falar a metade. Aqui no Brasil, fizemos uma curiosa adaptação desse adágio, tendo em vista o atendimento de algumas conveniências. Concordamos que temos dois ouvidos e uma boca; não poderia ser diferente. Mas, as funções desses órgãos, que manifestam dois de nossos sentidos básicos, foram ligeiramente alteradas. Entre nós, a informação foi adaptada: Temos dois ouvidos para escutar a metade e uma boca para falar o dobro.

Exercício interessante seria o de nos mantermos absolutamente calados durante um dia inteiro, literalmente mudos. Ressalvada a condição específica de nossos irmãos portadores de necessidades especiais pela mudez, que aprimoram admiravelmente outros mecanismos de interação, nós, em condições normais de verbalização, costumamos falar, e falar muito…

Emmanuel destaca a importância do ouvir, em lição inserta na obra Caminho, Verdade e Vida5, que integra a belíssima e sempre atual coleção Fonte Viva6, psicografada pelo cândido Chico Xavier.

Para o autor espiritual, o ato de ouvir implica três modalidades: analisar, refletir e ponderar. A sequência de apresentação dos elementos revela a sabedoria do autor. Escutar é um processo que nos permite primeiramente a análise do conteúdo, a observação do ambiente e das ações e reações das pessoas, facilitando-nos uma percepção racional e cognitiva mais acurada da realidade.

Depois, vem a reflexão, que associa o ato de pensar ao sentimento que temos diante dos acontecimentos. É uma atividade íntima, exigindo tempo e foco da atenção no objeto ou agente, motivo de análise. Manoel Philomeno de Miranda7 adota o verbo reflexionar, destacando a necessidade de uso mais frequente desse recurso em nossas vidas, sobretudo em momentos especiais que antecedem o sono físico, como se fosse uma preparação para o repouso diário, e aqueles que imediatamente se lhe seguem, quando do despertar para um novo dia de atividades.

Reflexionar propicia até mesmo o avivamento mental para recuperação mais eficaz, nos arquivos perispirituais, das lembranças de atos por nós praticados ou daqueles que, de certa maneira, envolvem-nos.

Após a análise e a reflexão, estaremos em condições de proceder à ponderação, etapa crucial para a decisão ante a conjuntura enfrentada. Ponderar é colocar os prós e contras em uma balança e, com as ferramentas da análise e reflexão, adotarmos o procedimento e atitude mais convenientes e acertados para o momento.

Se ao invés de ouvirmos, estivéssemos falando, não conseguiríamos reter ou guardar as informações mais importantes para, no momento azado, distribuirmos eficazmente os recursos cognitivos e emocionais de que seremos portadores.

A comunicação é, assim, de suma importância para a convivência harmônica e conquista da felicidade entre as pessoas, estejam elas num plano ou noutro da vida.

*

O século XIX reuniu as condições socioculturais e espirituais indispensáveis para que, na França, mais especificamente em Paris, no berço da civilização cultural do Ocidente, pudesse surgir a Terceira Revelação, apresentando o Espiritismo ao mundo como fruto da comunicabilidade dos Espíritos. Foram os Espíritos que se manifestaram para dizer: Nós existimos, estamos aqui e queremos conversar com vocês. É preciso ouvir a nossa mensagem. Não foi Allan Kardec, o Codificador da Doutrina Espírita, quem procurou os Espíritos. Foram esses que vieram até nós para chamar-nos a atenção quanto à realidade do mundo espiritual e do nosso porvir. Para dizer claramente que eles estiveram em nossa condição no passado, assim como estaremos na condição deles no futuro, pois igualmente somos Espíritos, apenas na condição temporária de encarnados por meio de um veículo físico. Manifestaram-se para esclarecer e conscientizar-nos sobre nossa origem, a tarefa que desempenhamos na Terra e o destino que nos aguarda após a morte corporal.

Os Espíritos sempre se comunicaram com os homens. Porém, naquele significativo período, a comunicabilidade assumiu impressionante dimensão e Kardec sistematizou a transformadora Revelação, materializando-a entre os homens no corpo de doutrina que designou de Espiritismo. O emérito professor francês não fundou a Doutrina, pois ela é de origem espiritual, e tem como autoria a infinidade de Espíritos que povoam o espaço e que se fizeram instrumentos, sob a coordenação do Espírito de Verdade, para trazer-nos precioso manancial de informações que foram logicamente organizadas pela inteligência do Codificador, em seu tríplice aspecto de filosofia, ciência e religião.

Quando, após a publicação das Instruções Práticas, Kardec consolida a monumental obra O Livro dos Médiuns8, que continua sendo o melhor guia para educação mediúnica de todos os tempos, ele começa questionando: Há Espíritos? E prossegue, pela argumentação racional, conduzindo ao entendimento inequívoco de que se os Espíritos existem, sobrevivem à morte e mantêm sua individualidade no mundo espiritual, por que motivo não haveriam de se comunicar? Seja a comunicação entre eles, desencarnados, seja a relação que se estabelece entre o mundo dos vivos de lá e os de cá?! Se não se comunicassem, não haveria razão para terem sobrevivido e serem, por natureza e vontade divina, imortais!

A mediunidade é a faculdade espiritual, veiculada por predisposição orgânica, que permite o contato e a intermediação entre o plano espiritual e o mundo físico, nas relações dos Espíritos desencarnados com as pessoas que continuam encarnadas no plano material.

Essa interação é estabelecida pela presença do médium, o medianeiro intermediário que oferece as condições psicoespirituais adequadas para que o processo comunicativo aconteça.

A comunicação é, assim, uma questão de sobrevivência dinâmica perante a imortalidade inerente à própria Vida, viabilizando a nossa definitiva integração: conosco, no caminho do autodescobrimento; com o próximo, por meio do fraterno diálogo gerador do entendimento nas relações interpessoais; e com Deus, na condição de filhos ávidos pelo estabelecimento de contato superior, que procuram a razão maior de sua existência na essência do Criador e de Sua obra.

 

Referências:

1 BARBEIRO, Heródoto. Falar para liderar: um manual de mídia training. São Paulo: Futura, 2003.

2 DESCARTES, René. Discurso do método. Tradução de Enrico Corvisieri. Versão eletrônica. Disponível em: http://www.cfh.ufsc.br/~wfil/discurso.pdf. Acesso em: 15 mar. 2011.

3 POYARES, Walter Ramos. Falo, logo sou: o fenômeno da comunicação. Rio de Janeiro: Agir; Brasília: UnB, 1983.

4 AMOR verbal. Correio Braziliense, 15 mar. 2011, p. 22. Coluna Saber Viver.

5 XAVIER, Francisco Cândido. Caminho, Verdade e Vida. Pelo Espírito Emmanuel. 21. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2001. cap. 77.

6 As obras que integram a referida coleção editada pela FEB são: Caminho, Verdade e Vida; Pão Nosso; Vinha de Luz; e Fonte Viva.

7 FRANCO, Divaldo Pereira. Entre os dois mundos. Pelo Espírito Manoel Philomeno de Miranda. Salvador: LEAL, 2006.

8 KARDEC, Allan. O livro dos médiuns ou Guia dos médiuns e dos evocadores. Rio de Janeiro: FEB, 2010.

Matéria extraída da revista Tribuna Espírita, ano XXXVIII – março/abril 2019

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