Jornal Mundo Espírita

Janeiro de 2020 Número 1626 Ano 87

Como um caminhante incansável

janeiro/2020

Sobre o Espiritismo, aclara-nos Allan Kardec1, o notável Codificador: Três períodos distintos apresenta o desenvolvimento dessas ideias: primeiro, o da curiosidade, que a singularidade dos fenômenos produzidos desperta; segundo, o do raciocínio e da filosofia; terceiro, o da aplicação e das consequências. O período da curiosidade passou; a curiosidade dura pouco. Uma vez satisfeita, muda de objeto. O mesmo não acontece com o que desafia a meditação séria e o raciocínio, próprio do segundo período, cujo tempo de passagem está atrelado à dedicação e empenho de cada um de nós, em alcançar a compreensão de suas ideias, seus objetivos, suas propostas, sua razão de estar entre nós, Humanidade.

Quando do nosso encontro com a mensagem espírita (o que vale para todo novo conhecimento), a nossa postura mental deve ser a de recepcionar as novas ideias com imparcialidade, com neutralidade, uma vez que, no geral, a maioria de nós não ouve com a intenção de entender; ouvimos com a intenção de responder.

Sem a necessária flexibilidade mental, não haverá a abertura da aduana do território das ideias próprias, cheio de regras, conceitos, definições limitadoras. A barreira mais imóvel da natureza é entre o pensamento de um homem e o de outro, como anotado por William James, filósofo e psicólogo americano e o primeiro intelectual a oferecer um curso de psicologia nos Estados Unidos. Necessário deixar que o novo se internalize, a fim de ouvirmos com o coração a mensagem que chega, e ali, no âmbito dos domínios dos sentimentos, ver o que as novas ideias causam em nós, as sensações que provocam, as emoções que manifestam, a percepção de como e do quanto mexem conosco.

A chegada do novo, acolhido e internalizado com imparcialidade para ser bem sentido, estabelece (ou não), uma dualidade entre o velho e o novo. Recordemos  Jesus, ao registrar o ensino2: E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam.

Quanto ao método de aprendizado do conhecimento espírita, Kardec orienta que, assim que atingimos o segundo período de sua revelação, o do entendimento de sua filosofia, adotemos a meditação séria e o raciocínio, como ferramentas esclarecedoras.

Recebido o novo, internalizado, percebido e sentido, agora, baseados, para comparação, em nossas atuais crenças, valores, sentimentos e comportamentos (interpretamos o mundo com base nos nossos conhecimentos e nossas crenças), podemos, então, raciocinar, analisar profundamente o conteúdo doutrinário, até alcançar um estado de clareza mental e emocional a respeito.

Uma vez adotados os postulados espíritas, é chegado o momento da absorção do conteúdo completo das diretrizes do Espiritismo e suas propostas, não como um conjunto de ideias novas somente, mas uma entrada para uma forma completamente nova de participar da vida.

A noção adquirida com o conhecimento disponibilizado e aprendido, em decorrência da aceitação doutrinária, o que significa dizer integrados com ela, leva-nos a perceber que a prática comportamental apresenta, natural e paulatinamente, mudanças para melhor, par e passo com nosso grau de consciência a respeito da vida.

As mudanças se dão no âmbito da consciência de cada um. O empenho e o esforço que dediquemos para isso é a pedra de toque do nosso bem-estar espiritual, como esclarecido por Kardec3: Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas inclinações más.

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Liberdade de agir, responsabilidade pelos adventos.

Conforme William James: Nossa visão do mundo é formada pelo que decidimos ouvir. Verdade inconteste, que reprisa Jesus de Nazaré4: Porque o coração deste povo está endurecido, e ouviram de mau grado com seus ouvidos, e fecharam seus olhos; para que não vejam com os olhos, e ouçam com os ouvidos, e compreendam com o coração, e se convertam, e eu os cure.

O calendário marca o início de um novo ano, que pede ser entendido como um novo período de oportunidades diversas. Dentre essas, a de darmos ouvidos ao Celeste Convite, que ecoa mundo afora e não cessará jamais de ser enunciado por Jesus5: Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei.

Ao atendermos o convite, teremos nas mãos o fio que nos conduzirá pelo Caminho que Ele é, quando poderemos experienciar a luz da Verdade que liberta, aclara e dulcifica nosso coração, e descobrirmos a Vida plena, rica de abundâncias de equilíbrio, saúde e paz, que, por agora, está além do pensamento, do sentimento ou da ação, mas se manifestará, ato contínuo à nossa aceitação e entrega, pertencimento e integração ao Caminho, como um caminhante incansável; à Verdade, como um buscador destemido. Isso dará à nossa vida e ao nosso viver, uma ressignificação de valores existenciais, como seres imortais que aprendemos que sempre fomos.

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Se alguém quer vir após mim6recitou o Divino Amigo, como anúncio de total liberdade em aceitá-lO e segui-lO, hoje ou logo mais num futuro distante.

No entanto, compassivo e bom, considerou ainda7: E se alguém ouvir as minhas palavras, e não crer, eu não o julgo; porque eu vim, não para julgar o mundo, mas para salvar o mundo.

 

Referências:

1.KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1974. Conclusão, item V.

2.BÍBLIA, N. T. João. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1966. cap. 1, vers. 5.

3.KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2001. cap. XVII, item 4.

4.BÍBLIA, N. T. Mateus. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1966. cap. 13, vers. 15.

5.Op. cit. cap. 11, vers. 28.

6.Op. cit. Lucas. cap. 9, vers. 23.

7.Op. cit. João. cap. 12, vers. 47.

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