Jornal Mundo Espírita

Janeiro de 2022 Número 1650 Ano 89

Coelho Neto

A força de um testemunho

novembro/2008 - Por Reilly Algodoal

Henrique Maximiano Coelho Neto nasceu em Caxias, Maranhão, no dia 21 de fevereiro de 1864. Desencarnou no Rio de Janeiro, no dia 28 de novembro de 1934. Foi político, professor, escritor.

Como político, foi deputado pelo Maranhão, em duas legislaturas.

Como escritor foi romancista, contista, crítico, teatrólogo, poeta, jornalista. Deixou mais de 100 livros e cerca de 650 contos. Em votação aberta ao público, promovida pela revista “O Mello”, foi proclamado o príncipe dos prosadores brasileiros. Foi fundador da Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira número 2. Foi ele quem cognominou a cidade do Rio de Janeiro como a “cidade maravilhosa”.

Em 1890 casou-se com Maria Gabriela Bandão, de cuja união resultaram 14 filhos. Esposo exemplar, pai extremoso.

Uma de suas filhas, Júlia, casando-se, deu-lhe uma neta, Ester.

Júlia ficou viúva. Luto fechado. Seis meses depois, desencarnou a pequena Ester. A alegria abandonou a casa. Júlia tornou-se a imagem mesma da tristeza. Todas as manhãs ia ao cemitério e lá ficava horas e horas. Depois, presa ao quarto, nada mais fazia além de arrumar as roupas e coisinhas da filha morta; arrumar, para depois desarrumar em seguida; e voltar a arrumar. Depressão superlativa, deixando os pais muito preocupados. Alguém, muito a medo, sugeriu procurassem um centro espírita. Coelho Neto opôs-se peremptoriamente, eis que não raras vezes havia se manifestado contra tais práticas supersticiosas.

Um dia, pela manhã, Coelho Neto notou um brilho diferente nos olhos da filha. Retorno da primavera?… sua alegria durou pouco. Uma noite, sua mulher entrou chorando em seu escritório e disse-lhe à queima-roupa:

-Nossa filha ficou louca.

-Ela pensa que fala com nossa Ester.

-Como?

-Pelo telefone. Foi ela mesma quem m’o contou. Venha. Veja por si mesmo. Ela está agora ao telefone.

Dirigiram-se então até a escada. Embora não alcançassem as palavras, puderam ouvir a voz da filha que, no telefone localizado no hall do primeiro pavimento da casa, falava baixinho, quase sussurrando, rindo feliz. Coelho Neto, entre as inúmeras virtudes, era discreto. Não se permitia invadir a privacidade da filha. Mas, que fazer? Era a sanidade mental dela que estava em jogo. Hesitou por instantes. Mas resolveu pegar a extensão na linha telefônica. E ouviu! Como outrora, nos dias felizes, ouviu sua filha Júlia conversando com sua neta Ester. As duas falavam, riam, trocavam palavras carinhosas, faziam juras de amor.

Num átimo, cai por terra toda sua concepção sobre a vida e a morte. É difícil matar o homem velho, preso às suas convicções, ao seu mundo pequeno, mas Coelho Neto aliava lucidez à coragem para enfrentar o desconhecido. Procurou a fonte. Leu e estudou Kardec. Leu Gabriel Delane, Léon Dénis, Camille Flammarion, Lombroso, Crooles, de Rochas, Wallace, Olive Lodge, Paul Gibier, Conan Doyle, Dale Owen e tantos outros. Em sua entrevista intitulada “Conversão” declarou:

“Combati com todas as minhas forças, o que sempre considerei a mais ridícula das superstições. Essa Doutrina, hoje triunfante em todo o mundo, não teve, entre nós, adversário mais intransigente, mais cruel do que eu”. Na noite de 14 de setembro de 1924, em palestra na instituição espírita Abrigo Theresa de Jesus, disse: “A Doutrina da reencarnação a que me vou referir, não é de invenção nossa, senão do livro sagrado, o livro dos livros, pedra fundamental da Igreja: a Bíblia”.

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