Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

Cinquentenário de lançamento de Cartas e Crônicas

dezembro/2016 - Por Enrique Eliseo Baldovino

Humberto de Campos

Irmão X é o pseudônimo do célebre escritor, político e jornalista brasileiro Humberto de Campos Veras (Miritiba/MA, 25/10/1886 – Rio de Janeiro/RJ, 05/12/1934).

Tornou-se conhecido no âmbito nacional pelas suas crônicas, publicadas em diversos jornais do Rio de Janeiro, São Paulo e outras capitais do Brasil, inclusive sob o pseudônimo de Conselheiro XX.

Imortal da Academia Brasileira de Letras

Campos ingressa na Academia Brasileira de Letras em 1919, sucedendo Emílio de Menezes na cadeira nº 20. Um ano depois entra na política, elegendo-se deputado federal pelo seu Estado natal, tendo seus mandatos sucessivamente renovados até a eclosão da Revolução de 1930, quando é arbitrariamente cassado.

Após passar por um período de dificuldades financeiras, é nomeado – graças à admiração que lhe votavam figuras de destaque do Governo Provisório – Inspetor de Ensino no Rio de Janeiro e, posteriormente, diretor da Fundação Casa Rui Barbosa.

Em 1933, um ano antes da sua desencarnação, com a saúde já debilitada (com perda quase total da visão, sofrendo também de outras graves doenças), Humberto de Campos publica as suas Memórias (1886-1900), obra que obteve imediato sucesso de público e de crítica, sendo objeto de sucessivas edições nas décadas seguintes. Humberto faleceu no Rio de Janeiro, aos 48 anos, em virtude de uma síncope ocorrida durante uma cirurgia que pretendia aliviar as fortes dores que sentia, devido ao avanço dos sintomas provocados pelo mau funcionamento de sua hipófise.

Psicografias de Francisco Cândido Xavier

O primeiro contato do Espírito Humberto de Campos com o notável médium mineiro Francisco Cândido Xavier (1910-2002) aconteceu três meses após a desencarnação do cronista maranhense, em março de 1935. Os livros psicografados, em número de quinze, foram publicados a partir do ano 1936, e ditados pelo referido Espírito na seguinte ordem:

1) Palavras do Infinito (LAKE, 1936); 2) Crônicas de Além-Túmulo (FEB, 1937); 3) Brasil: Coração do Mundo, Pátria do Evangelho (FEB, 1938); 4) Novas Mensagens (FEB, 1940); 5) Boa Nova (FEB, 1941); 6) Reportagens de Além-Túmulo (FEB, 1943); 7) Lázaro Redivivo (FEB, 1945); 8) Luz Acima (FEB, 1948); 9) Pontos e Contos (FEB, 1951); 10) Contos e Apólogos (FEB, 1958); 11) Contos Desta e Doutra Vida (FEB, 1958); 12) Cartas e Crônicas (FEB, 1966); 13) Estante da Vida (FEB, 1969); 14) Relatos da Vida (CEU, 1988); 15) Histórias e Anotações (CEU, 1989).

Cartas e crônicas (1966-2016)

São quarenta capítulos de belíssimo conteúdo moral, nos quais o leitor pode debruçar-se à vontade,  em farto manancial doutrinário, tão agradável de ler e de estudar: 1) Lição nas trevas; 2) As três orações; 3) A petição de Jesus; 4) Treino para a morte; 5) O caminho do reino; 6) Tragédia no circo; 7) Consciência espírita; 8) Obsessão pacífica; 9) Curiosa experiência; 10) Amor e auxílio; 11) Serviço e tempo; 12) Espiritismo e divulgação; 13) Explicação de amigo; 14) Comunicações; 15) Auxílio do Senhor; 16) Belarmino Bicas; 17) Influência do bem; 18) Veneno livre; 19) Em torno da paz; 20) Nota explicativa; 21)Acerca da pena de morte; 22)Provações; 23)A estaca zero; 24) Respondendo; 25) Na hora da cruz; 26) Carta estimulante; 27) A caridade maior; 28) Kardec e Napoleão; 29) Bichinhos; 30) O servo insaciável; 31) O grupo reajustado; 32) No reino doméstico; 33) Anotação simples; 34) O grande ceifador; 35) Carta de um morto; 36) No aprendizado comum; 37) Mensagem breve; 38) Explicando; 39) Versão moderna e 40) Oração diante do tempo.

O prefácio do livro, escrito em Uberaba, a 18 de abril de 1966, chama-se Dedicatória (dirigida a Jesus) e, após citar a narração de um emotivo apólogo de Rabindranath Tagore, o Espírito Irmão X conclui:

(…) E, entregando este livro humilde à circulação das ideias renovadoras – trabalho despretensioso que não chega a valer um grão de trigo da verdade –, imagino nestas cartas e crônicas, que passo às mãos do leitor amigo, um punhado de acendalhas para o lume da Nova Revelação, e repito, reverente, ante a bondade do Eterno Amigo:

Ah!, Senhor!… Compreendo a significação de teus apelos e a grandeza de tua munificência, mas perdoa ao pequenino servo que sou, se nada mais tenho de mim para te dar!… [Destaques nossos]

Com a ajuda do Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa1, definimos o que significa o vocábulo crônica, posto que já sabemos a significação da palavra carta. O referido Dicionário contém várias acepções do termo crônica: a) compilação de fatos históricos apresentados segundo a ordem de sucessão no tempo [Originalmente, a crônica limitava-se a relatos verídicos e nobres; entretanto, grandes escritores a partir do século XIX passam a cultivá-la, refletindo, com argúcia e oportunismo, a vida social, a política, os costumes, o cotidiano, etc. do seu tempo em livros, jornais e folhetins]. b) Coluna de periódicos, assinada, com notícias, comentários, algumas vezes críticos e polêmicos, em torno de atividades culturais (literatura, teatro, cinema), de política, economia, divulgação científica, desportos. c) Noticiário a respeito de fatos atuais. d) Texto literário breve, em geral narrativo, de trama quase sempre pouco definida e motivos, na maior parte, extraídos do cotidiano imediato.

Kardec e Napoleão

Um dos pontos mais altos e emocionantes do livro, Irmão X o dedica ao Codificador do Espiritismo, Allan Kardec, no capítulo 28, intitulado: Kardec e Napoleão, na crônica mais extensa da obra.

O autor descreve com detalhes uma assembleia de Espíritos sábios e benevolentes nas Esferas Superiores, em 31 de dezembro de 1799, reunida para marcar a entrada significativa do novo século, em que a Doutrina Espírita chegaria à Terra através do seu insigne embaixador lionês, que reencarnaria logo mais (1804-1869) e que tinha sido o grande reformador e mártir tcheco Jan Huss (1369-1415).

Deixemos, então, correr a pena magnífica do cronista maranhense, que registra as palavras de um Espírito de altíssima envergadura moral, o qual dirige-se a Napoleão Bonaparte (1769-1821), à época reencarnado e desprendido do corpo físico pelo sono, participando dessa reunião espiritual:

“ Irmão e amigo ouve a Verdade, que te fala em meu espírito! Eis-te à frente do apóstolo da fé, que, sob a égide do Cristo, descerrará para a Terra atormentada um novo ciclo de conhecimento…

César ontem, e hoje orientador, rende o culto de tua veneração, ante o pontífice da luz! Renova, perante o Evangelho, o compromisso de auxiliar-lhe a obra renascente!…

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Recorda que, obedecendo a injunções do pretérito, renasceste para garantir o ministério espiritual do discípulo de Jesus que regressa à experiência terrestre, e vale-te da oportunidade para santificar os excelsos princípios da bondade e do perdão, do serviço e da fraternidade do Cordeiro de Deus, que nos ouve em seu glorificado sólio de sabedoria e de amor!

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Dentro do novo século, começaremos a preparação do terceiro milênio do Cristianismo na Terra.”

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O apóstolo que seria Allan Kardec, sustentando Napoleão nos braços, conchegou-o de encontro ao peito e acompanhou-o, bondosamente, até religá-lo ao corpo de carne, no próprio leito.

Em 3 de outubro de 1804, o mensageiro da renovação renascia num abençoado lar de Lião, mas o Primeiro-Cônsul da República Francesa, assim que se viu desembaraçado da influência benéfica e protetora do Espírito Allan Kardec e de seus cooperadores, que retomavam, pouco a pouco, a integração com a carne, confiantes e otimistas, engalanou-se com a púrpura do mando e, embriagado de poder, proclamou-se Imperador, em 18 de maio de 1804, ordenando a Pio VII viesse coroá-lo em Paris.

Napoleão, contudo, convertendo celestes concessões em aventuras sanguinolentas, foi apressadamente situado, por determinação do Alto, na solidão curativa de Santa Helena, onde esperou a morte, enquanto Allan Kardec, apagando a própria grandeza, na humildade de um mestre-escola, muita vez atormentado e desiludido, como simples homem do povo, deu integral cumprimento à divina missão que trazia à Terra, inaugurando a era espírita-cristã, que, gradativamente, será considerada em todos os quadrantes do orbe como a sublime renascença da luz para o mundo inteiro. [Destaques nossos]

Conclusão da resenha

Um prezado expositor e amigo, Odair Fonseca, do Centro Espírita Allan Kardec, de Santa Terezinha de Itaipu/PR, dividiu o livro, de forma muito interessante e didática, em cinco partes, levando em conta o conteúdo moral, doutrinário e informativo dos capítulos. Da nossa parte, acrescentamos também outros itens e números aos que ele propôs.

1ª) Confronto com a consciência (capítulos 7, 8, 12, 14, 16, 21, 22, 24, 38);

2ª) Necessidade do trabalho – Boa aplicação do conhecimento e do tempo (capítulos 9, 11, 23, 30, 31, 37, 40);

3ª) Caridade, fé e paz (capítulos 1, 2, 3, 5, 15, 17, 19, 27, 32, 39);

4ª) Históricos (capítulos 6, 25, 28, 33, 34);

5ª) Advertências e respostas doutrinárias (4, 10, 13, 18, 20, 26, 29, 35, 36).

Eis a nossa simples homenagem a este grande livro. Que Francisco Cândido Xavier e Humberto de Campos recebam as nossas melhores vibrações de gratidão e reconhecimento, não somente pelos 50 anos decorridos de Cartas e Crônicas, senão pelas milhares de almas que foram beneficiadas pela sua leitura, tão esclarecedora como consoladora, e também pelas milhares que, com certeza, haverão de ler suas notáveis páginas.

 

Referências:

1. HOUAISS, Antônio. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. Verbete: crônica, p. 877.

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