Jornal Mundo Espírita

Dezembro de 2017 Número 1601 Ano 85

Cem anos de Evangelização Espírita Infantil

junho/2014 - Por Maria Helena Marcon

Numa época quando a divulgação da Doutrina Espírita ensaiava os seus primeiros passos e encontrava pela frente a mais obstinada oposição, o Major Dr. Manuel Vianna de Carvalho, com pulso firme e animado do mais vivo idealismo, desbravava o terreno para nele lançar a semente generosa da propaganda.

Como espírita foi dos mais animosos. O seu nome representou verdadeira bandeira no campo da disseminação do Espiritismo. O que ele fez, em vários anos de luta e de atividades intensíssimas, é algo que ainda não se pode colocar em dados estatísticos, tal o gigantismo da tarefa por ele desenvolvida em todo o país.

A sua palavra era atraente e arrebatadora, conseguindo, entre os espíritas uma penetração inusitada e inconfundível. Como conferencista era dos mais requisitados; como polemista, um dos mais salientes. Seu verbo inspirado, sua voz harmoniosa, sua animação, assumiam, às vezes, tonalidades e aspectos impressionantes. Foi na realidade um mágico da palavra, esteta do sentimento.1

Pois esse grande homem e Espírito ilustre, que nos brinda, de forma constante, através da mediunidade de Divaldo Pereira Franco, com páginas extraordinárias, que denotam o profundo conhecimento da Doutrina Espírita, do Movimento e da História, como um todo, tem méritos que, até pouco tempo, ninguém lhe havia creditado.

Foi ele que, a partir de 1914, encetou uma campanha para a criação, em todos os centros espíritas, de escolas de Doutrina Espírita, destinadas às crianças.

Liderou, no Rio de Janeiro, uma verdadeira cruzada para a criação dessas escolas, na Federação Espírita Brasileira – FEB e no Grupo Discípulos de Samuel. Foram seus aliados a Dama da Educação, Anália Franco (1856-1919) e o líder do Espiritismo, no Espírito Santo, Jerônymo Ribeiro (1854 – 1926).

Em carta dirigida a esse, Vianna escreveu, em 15 de maio de 1914:

O Bittencourt [Ignácio Bittencourt] me entregou ontem a tua carta cientificando que já escreveste à D. Anália [Anália Franco] sobre o meu projeto da escola de crianças na Federação e no Grupo Discípulos de Samuel. (grifos nossos)

Quando chegar a ocasião escrever-te-ei a respeito de tua vinda à Capital Federal para os fins das informações à D. Ilka Mass que vai ser a diretora da primeira.

A do Grupo Samuel, por agora, limitar-se-á ao ensino da moral espírita dada em uma sessão prévia, feita antes da que se destina às crianças de idade… como nós[…].2

Seu esforço alcançou o primeiro êxito com a inauguração, no dia 14 de junho de 1914, um domingo, na FEB, do ensino da Doutrina Espírita a crianças, sob a direção de Ilka Mass, auxiliada por sua filha.

Durante um ano, com absoluta regularidade, funcionou a chamada Escola Dominical de Doutrina Cristã.

Ainda encarnado, Vianna teve a felicidade de ver criados outros núcleos de evangelização espírita infantil.

Em 1964, ao ensejo do Cinquentenário do feito, a revista Reformador se reportava à data, referindo-se a curso infantil de Doutrina Cristã.

Impressionante a resistência aos termos Curso, Escola, Doutrina Espírita.

Ainda hoje, muitas casas espíritas não dispõem da Evangelização Espírita Infantil como um de seus trabalhos regulares. De modo geral, em várias localidades, ainda há o entendimento de que se irá distrair, entreter as crianças, em salas separadas, a fim de que não atrapalhem os pais, que estão nas palestras ou em cursos de Espiritismo, em idêntico horário.

Quanto nos falta, ainda, para entendermos, evangelizadores, pais, dirigentes de Centros Espíritas, trabalhadores em geral, o verdadeiro alcance da Evangelização Espírita para as crianças.

Alertava Vianna de Carvalho, em artigo no Reformador, de 1º de dezembro de 1919,sob o título Pelas crianças:

A propaganda espírita no Brasil ressente-se de gravíssima lacuna: o quase completo descuro de ministração doutrinária à infância.

Nossos confrades – presidentes de grupos, diretores de revistas e jornais – até hoje não quiseram volver atenções para esse problema que continua à margem, sendo, todavia o mais sério de quantos se impõem à nossa consideração.

[…]

Ao Espiritismo toca também o mister de apregoar o Evangelho em aulas especiais de onde sairão os melhores frutos das gerações que nos devem suceder, nessa conquista dos celestes bens e gloriosa submissão às excelsas regras, divinamente compendiadas na moral cristã.2

É tempo de comemoração, é tempo de conscientização, é tempo de recordar o Mestre Galileu: Deixai que venham a mim as criancinhas e não as impeçais, porque delas é o reino dos Céus. (Mc. 10:14-15)

 

1 http://www.feparana.com.br/biografia.php?cod_biog=207

2 VIANNA de Carvalho e o seu projeto de fundação das Escolas de Moral Cristã na Federação Espírita Brasileira. Reformador, Rio de Janeiro, n. 2221, ano 132, abr. 2014.

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