Jornal Mundo Espírita

Setembro de 2019 Número 1622 Ano 87

Carta de Allan Kardec à sua esposa Amélie Boudet

dezembro/2014

Carta de Allan Kardec, enviada de Sainte-Adresse, para onde se retirara a fim de trabalhar na obra O Evangelho segundo o Espiritismo, à sua esposa Amélie Boudet, que ficara em Paris.

 

Saint-Adresse, terça-feira, 15 de setembro de 1863.

 

Minha boa Amélie,

 

Recebi tua carta esta manhã e, embora nada tenha de particular a te dizer, apresso-me em agradecer aos Srs. D´Ambel e Canu pelo que eles fizeram ao Sr. Costeau, pois atuaram como verdadeiros espíritas. Sua alocução é admirável; eles mostraram agir com coração, o que não me surpreende, visto que sua fé é sincera. O Sr. Vezy também deve receber sua quota de felicitações.

Quanto à viúva, tu sabes que o Sr. Prévert me entregou 200 francos para as boas ações; podes, pois, lançar mão de uma parte deles para ajudá-la. Esse dinheiro não pode ter melhor emprego.

Estou maravilhado com as alvíssaras que me dás; razão tinham os Espíritos quando me disseram que, ao retornar, eu encontraria um progresso satisfatório. A comunicação que Erasto me deu, através do Sr. D´Ambel, é muito animadora para mim e eu lhe agradeço; concorda com a mensagem da Verdade, a mim transmitida por intermédio da Sra. Judith.

Tu não me falas da tua saúde, o que me faz presumir que é boa; entretanto, eu ficaria mais contente se dela tivesse uma certeza mais positiva. Quanto a mim, estou muito bem; os últimos banhos que tomei fortificaram-me de maneira notável. Já não tenho aquela fraqueza nas pernas que sentia há muito tempo e pude comprová-lo domingo. O tempo estava magnífico e fui tomado pela preguiça, ou seja , trabalhei muito pouco. Após o banho fiz um longo passeio marítimo num pequeno barco à vela; embora o mar estivesse calmo, penso que não me terias acompanhado naquela casquinha de noz a balouçar-se nas ondas.

À tarde fiz uma excursão à beira do mar, sobre os rochedos desmoronados que formam um promontório situado abaixo dos sinais e dos faróis; depois subi desde o nível do mar até o pequeno vale que precede os sinais, escalando os rochedos e as falésias. E, coisa extraordinária! De modo algum me senti ofegante nem sufocado, como em geral acontece quando subo uma simples escada. Voltei pela capela de Nossa Senhora das Ondas e desci novamente à beira-mar para jantar no parque das ostras. Cheguei em casa às 19h30, estava um pouco fatigado e me deitei; dormi até às 8 horas da manhã.

Faz alguns dias que o tempo está admirável, sem nuvens no céu, um Sol resplandecente, um mar tranquilo como um lago, salpicado de navios e de embarcações de todos os tamanhos; é um espetáculo encantador. O mar sem fim é para mim uma grande distração; todo dia constato sua beleza. Não há um único ponto no horizonte que eu não o explore, daí saindo observações interessantes e instrutivas que me levam a meditar, pois tudo é instrução para quem quer refletir.

Domingo próximo será meu último domingo aqui. Terei uma pequena reunião espírita na casa do Sr. Bodier, que está muito contente por me receber; em seguida, farei meus preparativos para a partida. O dia ainda não está certo, mas penso que será terça-feira ou, no máximo, quarta-feira; eu to avisarei.

Partirei pelo trem das 10h30 da manhã, o que significa que chegarei às 6h30 da noite, hora conveniente para todos.

Adeus, cara Amélie, teu muito dedicado.

[assinado] A.K.

PS – Quando me escreveres, cuida que tua carta me chegue às mãos domingo pela manhã, juntando-lhe, se possível, a comunicação de Costeau.

 

Esta carta, mais completa e extremamente tocante, permite mergulhemos fluidicamente no contexto da época em que foi redigida a Imitação do Evangelho segundo o Espiritismo, nas belas paisagens à beira-mar da Normandia. Aí encontramos também uma menção à desencarnação do Sr. Costeau1, que era muito pobre, bem como o auxílio prestado à sua viúva, além de referência à mensagem de Erasto, já citada, assim como numerosos detalhes sobre o segundo motivo desse retiro, que se prendia também a razões de saúde, muito melhorada ao que tudo indica, graças, por certo, à ação combinada dos Espíritos que o assistiam na redação da obra. Finalmente, Kardec menciona seu retorno a Paris.

 

Carta extraída do artigo Como Allan Kardec preparou O Evangelho segundo o Espiritismo, de Charles Kempf, traduzido por Evandro Noleto Bezerra, Revista Reformador, julho.2014.

 

1Antoine Costeau era membro da Sociedade Espírita de Paris. Foi sepultado em 12 de setembro de 1863, no cemitério Montmartre, em vala comum.

Se a Sociedade não lhe adquiriu uma sepultura particular, foi porque lhe pareceu dever antes empregar mais utilmente o dinheiro em benefícios dos vivos, do que em vãs satisfações de amor-próprio (…)

Um dos médiuns da Sociedade obteve ali mesmo sobre a sepultura, ainda meio aberta, comunicação psicofônica, ouvida por todos os assistentes, coveiros inclusive, de cabeça descoberta e com profunda emoção. Era, de fato, um espetáculo novo e surpreendente esse de ouvir palavras de um morto, recolhidos do seio do próprio túmulo.

Três dias depois, evocado num grupo particular, o Espírito Costeau tornou a se manifestar. (O céu e o inferno, Allan Kardec, ed. FEB, p. 2, cap. II, Antoine Costeau.)

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