Jornal Mundo Espírita

Março de 2020 Número 1628 Ano 87

Caridade

março/2017 - Por Antônio Moris Cury

Muitas pessoas acreditam que caridade é sinônimo de esmola. Em verdade, caridade vai muito além deste estreito limite, como se pode ver até mesmo pela informação do dicionário comum: 1. No cristianismo, amor a Deus e ao próximo. “A caridade é uma das virtudes cardeais.” 2. Benevolência, complacência, compaixão: “Ela socorria os necessitados com muita caridade.” 3. Esmola, beneficência: “Não se deve fazer caridade com o dinheiro dos outros.” (Dicionário Escolar da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras, 2 ª ed., 2008)

A caridade pode ser praticada por diversos modos. Evidentemente, a esmola concedida a quem está, muitas vezes, trêmulo pela fome, não deixa de ser um ato de caridade, de socorro imediato.

Extraordinária e enxuta definição de caridade foi dada por Paulo de Tarso, o apóstolo: Caridade é o amor em ação.

Então, se estamos na via pública, por exemplo, e nos encontramos com um conhecido que está aflito, aturdido, desorientado, indeciso ou com medo, o ato de lhe oferecermos atenção, de ouvi-lo com interesse e, preferencialmente, sem interrupção, pode fazer com que ele se acalme, se tranquilize, desabafe e se sinta melhor, encorajado, em condições de raciocinar com mais clareza e, assim, encontrar um caminho para a solução de suas dificuldades momentâneas. Tal postura traz a marca indelével da caridade.

Importante também é o modo como falamos com as pessoas, familiares ou não. O tom de voz que empregamos, por vezes, pode ser mais significativo do que a própria fala. E o tom de voz, como se sabe, pode ser treinado, controlado, para se tornar agradável aos ouvidos alheios, afastando-se por esse modo qualquer resquício de censura, de agressividade verbal, de menosprezo, de desrespeito.

Igualmente importante a maneira como tratamos as pessoas. Adultas ou não, merecem respeito. Para sermos respeitados é preciso fazer a nossa parte: respeitar. Todos gostam de ser respeitados, e o desejam, independentemente de sua posição social, econômica, cultural, de sua cor, de sua raça, de sua crença. Respeitar a todos, aí incluídas as crianças, é manifestação incontestável de caridade, que deve começar em nossas casas.

Neste ponto, interessante relembrar o que afirmou, em comentário pessoal, o Professor Hippolyte Léon Denizard  Rivail, o nosso Allan Kardec: Há um elemento, que se não costuma fazer pesar na balança e sem o qual a ciência econômica não passa de simples teoria. Esse elemento é a educação, não a educação intelectual, mas a educação moral. Não nos referimos, porém, à educação moral pelos livros e sim à que consiste na arte de formar os caracteres, à que incute hábitos, porquanto a educação é o conjunto dos hábitos adquiridos. (item 685 de O Livro dos Espíritos)

Vemos, assim, que é perfeitamente possível incorporar ao nosso dia a dia os bons hábitos de controlar o nosso tom de voz, de tratar bem a todas as pessoas, e com o máximo respeito.

Tratar bem a todas as pessoas é uma recomendação embutida no ensino maior de Jesus, o Cristo, nosso Modelo e Guia, nosso Irmão e Amigo de todas as horas: Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.

Quem ama ao próximo como a si mesmo estará, exatamente por esta razão, amando a Deus sobre todas as coisas.

Com efeito, somos todos irmãos, apenas em posições e situações diversas na presente existência na Terra [vale lembrar para consolidar: a Vida é uma só, desdobrada, porém, em várias existências], por sermos filhos do mesmo Pai Celestial, do mesmo Pai Universal.

Não por acaso, umas das bandeiras do Espiritismo é Fora da Caridade não há salvação. Recomendamos a leitura e estudo do capítulo XV, de O Evangelho segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, do qual reproduzimos três pequenos trechos:

Toda a moral de Jesus se resume na caridade e na humildade, isto é, nas duas virtudes contrárias ao egoísmo e ao orgulho. Em todos os seus ensinos, Ele aponta essas duas virtudes como as que conduzem à eterna felicidade.(…)

(…) Desde que coloca a caridade em primeiro lugar, é que ela implicitamente abrange todas as outras: a humildade, a brandura, a benevolência, a indulgência, a justiça etc., e porque é a negação absoluta do orgulho e do egoísmo.

(…) Não se pode verdadeiramente amar a Deus sem amar o próximo, nem amar o próximo sem amar a Deus. Logo, tudo o que se faça contra o próximo o mesmo é que fazê-lo contra Deus. Não podendo amar a Deus sem praticar a caridade para com o próximo, todos os deveres do homem se resumem nesta máxima: Fora da caridade não há salvação.

Além disso, cumpre não perder de vista a afirmação feita na mesma e excelente obra [que deve ser de nosso uso frequente, pelo esclarecimento, pela orientação e pelo consolo que proporciona], no capítulo XVII, item 2:

(…) A essência da perfeição é a caridade na sua mais ampla acepção, porque implica a prática de todas as outras virtudes.

Levaremos para o outro lado da Vida o conhecimento obtido e consolidado e as virtudes conquistadas [e, naturalmente, os erros, males e equívocos que não conseguimos resolver e reparar].

Vale a pena repetir para enfatizar e memorizar: A caridade implica a prática de todas as outras virtudes.

Daí a grandíssima importância de procurarmos agir com caridade, na mente e no coração, sempre!

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