Jornal Mundo Espírita

Dezembro de 2019 Número 1625 Ano 87

Canadense Ryan Hreljac em Curitiba

setembro/2015 - Por Maria Luiza Campos

Ele tinha apenas seis anos quando percebeu que o mundo não era igualitário. Minha professora nos disse que crianças precisavam andar cinco quilômetros para buscar água e eu precisava andar apenas dez passos para chegar até o bebedouro mais próximo. Isso não me pareceu justo. Tinha que fazer alguma coisa, conta o canadense.

Em vez de se conformar com essa realidade começou a se mobilizar e à sua comunidade, angariando fundos para construir poços de água na África. Em 1999, aos oito anos, finalmente conseguiu seu sonho inicial: foi perfurado o primeiro poço ao lado de uma escola, no norte de Uganda. A partir dessa primeira experiência, Ryan percebeu que não estava levando apenas água a essas comunidades, estava levando dignidade.

Se as pessoas têm uma fonte de água limpa elas não morrem de diarreia nem de tifo. Os adultos vão trabalhar e melhorar a agricultura da comunidade. Além disso, as crianças podem ir à escola e não precisam passar o dia buscando água. Então, a disponibilidade de água muda a vida das pessoas, ela dá o poder para que ajudem a si mesmas, relata emocionado.

Essa passou a ser a paixão de Ryan e, aos dez anos, criou a Ryan’s Well Foundation, na qual trabalha até hoje, aos vinte e cinco anos, e que já realizou novecentos e vinte e dois projetos, em dezesseis países, levando água limpa para mais de oitocentas mil pessoas.

Por conta de sua obra, ele veio ao Brasil especialmente para contar sua história na oitava edição do Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação,  em Curitiba, entre os dias 21 e 25 de setembro, promovido pela Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza.

Ao ser questionado se ficou surpreso ao ser convidado a falar em um evento de proteção ao meio ambiente, ele disse não.

O tema água está intimamente ligado com conservação da natureza. Tenho atuado junto a instituições ambientais tanto no Canadá como em outros países, explica.

O canadense disse que ficou preocupado ao verificar a extensão da crise hídrica brasileira. Segundo ele, é preciso perceber que a água tem se tornado cada vez mais um problema mundial, seja pela escassez em um país ou pelo excesso em outro.

Eu acho que essa é uma daquelas situações que não valorizamos durante longo período e deixamos de lado, não falamos a respeito. Mas agora o Brasil não pode ignorar mais, o tema veio à tona e é preciso lidar com ele, enfatiza.

Ryan destaca que não se pode colocar toda a responsabilidade em um setor da sociedade, pois todos têm papel a desempenhar, colaborando para resolver um problema global.

Pela minha experiência tenho certeza de que precisamos trabalhar juntos, tomando decisões importantes sobre nossos mananciais e mudando a forma como temos tratado o meio ambiente até agora, envolvendo e mobilizando todos no processo, conclui.

Ele explica ainda que se soubesse, quando criança, o tamanho do problema da água no mundo, talvez não tivesse dado o primeiro passo; que a ingenuidade infantil foi essencial para esse pontapé inicial.

Quando eu tinha seis anos,  achava que um poço levaria água limpa para todo o mundo. Era muito ingênuo e não entendia o quão grande era o problema. Tem quase um bilhão de pessoas nesse mundo que não tem água limpa, mas ao mesmo tempo, se eu tivesse analisado o problema como um adulto, achando que as coisas são impossíveis, e que é melhor nem se envolver, não teria feito nada. Então, às vezes, precisamos pensar como uma criança de seis anos, dando um passo de cada vez, conta Ryan.

Obs.: Ryan teve seu trabalho evidenciado pelo Programa Radiofônico Momento Espírita, em 26 de fevereiro de 2002, ao levar ao ar o texto O poço de Ryan, enaltecendo,exatamente, aquele seu trabalho inicial, aos seis anos de idade.

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